Críticas

Crítica de “A Graça”, de Paolo Sorrentino

A Graça (La Grazia – 2025)

Um presidente (Toni Servillo) italiano viúvo enfrenta crises morais sobre a legislação da eutanásia e o indulto a assassinos, com a ajuda de sua filha (Anna Ferzetti) confidente, enquanto lida com a infidelidade da falecida esposa em seus últimos meses de mandato.

O estilo do diretor italiano Paolo Sorrentino não me agrada muito, tudo parece calculado demais, o aspecto visual sobrepuja a trama, ele claramente busca emular o pathos felliniano, com resultados, por vezes, simplórios, exagerando no senso de humor maldoso.

No seu celebrado “A Grande Beleza” (2013), fiquei incomodado com a mensagem subliminar de que artistas são fraudes e de que o sentido da vida é um reles truque de mágica, um esforço mentiroso diário, uma visão ácida, cínica, deprimente, como se o belo na vida (na arquitetura, nos rituais etc.) provocasse uma espécie de síndrome de Stendhal, algo que prejudica a criatividade do indivíduo e que precisa ser esvaziado de qualquer significado.

Os seus filmes seguintes exibiam melhorias consideráveis, principalmente em “A Mão de Deus” (2021), mas ainda enxerguei os esforços como patéticos elefantes brancos infláveis, material pensado para deslumbrar cinéfilos com reduzido estofo cultural, a muleta perfeita para aqueles mais intelectualmente inseguros.

Esta percepção muda positivamente em seu novo trabalho, “A Graça” evidencia maior controle narrativo e um feliz equilíbrio entre o elemento estético e humano. Há maturidade latente na construção do protagonista, Sorrentino deixa de lado um pouco a preocupação com a atmosfera da cena e se debruça na complexidade psicológica do presidente fictício vivido por Toni Servillo. O ator, frequente colaborador, finalmente encontra um papel mais desafiador, que honra sua carreira no teatro.

Se ele flerta brevemente em alguns momentos com as distrações de estilo usuais, não chega a prejudicar o ritmo e o tom da obra, o foco está na jornada interna daquele que se acostumou a ser uma figura de autoridade, respeitado por seu poder, alguém capaz de modificar com sua simples assinatura o encaminhamento moral da sociedade, mas que descobre no período mais frágil de sua existência o tremendo peso da dúvida, a cruz da responsabilidade. Ao buscar obsessivamente a verdade, ele aprende que a leveza faz parte do processo.

Você pode concordar ou não com o direcionamento do diretor em sua reflexão sobre a impossibilidade de impor ordem na experiência humana, mas desta feita é inegável que ele conseguiu transmitir bem a sua mensagem.

Cotação:

  • O filme estreia nesta semana nas salas de cinema brasileiras.

Trailer:

Octavio Caruso

Viva você também este sonho...

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