Críticas

Crítica de “Dia D”, de Steven Spielberg

Dia D (Disclosure Day – 2026)

Se você descobrisse que não estamos sozinhos, se alguém abrisse seus olhos e mostrasse provas inequívocas, você ficaria com medo?

Uma das sequelas da infantilização do mundo é a imbecilização da crítica cinematográfica. Eu firmo o pé e sigo levando a sério a arte, o estudo constante, não tento me adequar ao estado cretino das coisas (e, por conseguinte, sofro financeiramente as consequências), mas a realidade atual, principalmente no tétrico Brasil, não poderia ser pior.

O povo abandonou a leitura, qualquer tonto sem estofo cultural pode se tornar um “crítico” famoso com vídeos sensacionalistas. A minha escola nesta vertente filosófica foi François Truffaut, André Bazin, Antônio Moniz Vianna, Paulo Emílio, até o saudoso poeta Vinícius de Moraes (com seu livro “O Cinema de Meus Olhos”), textos inteligentes, instigantes, que expandiam a experiência que o filme entregava.

Como o engajamento é a única coisa que importa na plataforma audiovisual, esta nova geração de opinadores entende que é válido postar diversos conteúdos sobre a mesma obra. Elogios não rendem cliques. Análises aprofundadas? Jamais. É deste fenômeno lamentável que nascem atrocidades como: “Explicando o final do filme”. Mas o que gera renda mesmo é o ódio, as thumbnails intensamente coloridas com alguém fazendo uma careta estúpida de espanto, discussões de horas, muitos comentários, gente insegura pagando para ter suas opiniões lidas, este é o esquema moderno.

“Dia D”, o novo trabalho do mestre Steven Spielberg, roteirizado por David Koepp, caiu na rede destes mentecaptos já na fase de pré-produção. É uma quantidade tão absurda de bobagens, teorias estapafúrdias, material farto para suprir youtubers, que sinto a necessidade de honrar minha jornada e traçar uma linha na areia. É hora dos adultos emocionalmente maduros retomarem o controle de setores da sociedade, do jeito que está, não vai acabar bem. O cinema merece respeito, há uma equipe que ama o que faz por trás de cada projeto. Crítica é algo sério, ela exige critérios, conhecimento e genuíno amor pela arte.

A carreira de Spielberg é muito coerente, você encontra em “Dia D” mais do que uma rima imagética, ele evolui a própria exploração do tema alienígena como alegoria para o encantamento infantil com o desconhecido, algo que é muito caro ao cineasta, que já abordou diversas vezes em entrevistas o impacto da madrugada em que seu pai o acordou na infância para observar uma chuva de meteoros. Aquela experiência despertou sua fascinação pelo espaço. É lindo ver como o diretor conseguiu manter intacto este deslumbramento.

O Roy Neary de “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” (1977) decide abandonar tudo, ele entra na nave-mãe, enquanto a trilha de John Williams evoca o tema icônico da Disney e sua mensagem de esperança. Já em “Os Caçadores da Arca Perdida” (1981) e “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” (2008), os personagens temem encarar o desconhecido, conscientes de que o cérebro humano não está preparado para compreender a verdade.

No belíssimo “E.T. – O Extraterrestre” (1982), o ato de estabelecer contato com o alienígena representava a jornada de amadurecimento do pequeno Elliott, o trauma da separação dos pais na memória do diretor era ressignificado positivamente com a ajuda do amigo imaginário. O aspecto ameaçador do tema foi abordado em “Guerra dos Mundos” (2005), mas, ainda assim, o foco estava na construção familiar como alicerce fundamental para sobreviver em qualquer situação.

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Nesta nova história, com o olhar mais experiente, Spielberg propõe um cenário ainda mais interessante, em que o real perigo está na dessensibilização humana, ele redireciona espertamente a mensagem de seu primeiro esforço artístico no tema.

No mundo atual, o real desafio é se nutrir esperança no próprio homem. Há um esforço burocrático tremendo, representado pelo personagem vivido por Colin Firth, em proteger esta população infantilizada de qualquer distúrbio em sua percepção do que é real. A massa precisa ser rigidamente controlada. O elemento desconhecido, alienígena, está inserido desta feita como facilitador na inversão desta engenharia. A mensagem de que é preciso ter fé na capacidade humana pode soar ingênua, especialmente depois do que os lúcidos constataram nos últimos seis anos, mas é exposta de forma sincera, elegante, com a alta competência usual do diretor.

Emily Blunt, no papel de Margaret Fairchild, uma meteorologista que começa a vivenciar fenômenos inexplicáveis após entrar em contato com um pássaro cardeal, entrega uma atuação excelente. O seu intenso carisma ajuda na imersão imediata do espectador durante o compreensivelmente confuso primeiro ato, ela surpreende nos momentos dramáticos, mas estes só funcionam tão bem exatamente porque ela exala segurança nos alívios cômicos.

Analisando friamente, o resultado não é superior ao de seu esforço anterior, “Os Fabelmans” (2022), mas é muito melhor do que “Amor, Sublime Amor” (2021), “Jogador Nº 1” (2018) e “O Bom Gigante Amigo” (2016), provavelmente será beneficiado em revisões. A maneira como a trama evolui os conceitos que o diretor já trabalhou anteriormente no tema merece ser salientada, ele poderia ter se contentado apenas em entregar algo genérico, popular, mas preferiu superestimar a inteligência do público. Uma atitude louvável neste estágio de sua carreira.

“Dia D” é cinema de gente grande, Spielberg, aos 79 anos de idade, ainda se mostra curioso, fascinado, merece aplausos de pé!

Cotação:

  • O filme estreia nesta semana nas salas de cinema brasileiras.

Trailer:

Octavio Caruso

Viva você também este sonho...

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