Críticas

Crítica de “A Terra do Meu Pai”, de Paweł Pawlikowski

A Terra do Meu Pai (Fatherland – 2026)

A trama acompanha a complexa relação entre o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura Thomas Mann (Hanns Zischler) e sua filha Erika (Sandra Hüller), uma multifacetada atriz e escritora. No verão de 1949, durante o ápice da Guerra Fria, pai e filha embarcam em uma densa e emocionante road trip a bordo de um Buick preto pelas ruínas da Alemanha, partindo de Frankfurt sob domínio norte-americano até a Weimar sob controle soviético. De volta ao lar após 16 anos de exílio nos EUA, o icônico autor é forçado a confrontar não apenas os destroços de uma nação dividida, mas também as feridas irremediáveis de sua própria família.

Eu gostei muito do longa anterior do roteirista/diretor polonês Paweł Pawlikowski, “Guerra Fria” (2018), e, em seu novo trabalho, repetindo a parceria com o diretor de fotografia Łukasz Żal, ele mantém a qualidade, acertando novamente na utilização precisa do tempo, sem gordura extra, como forma de potencializar o efeito da mensagem.

CLIQUE AQUI PARA LER A CRÍTICA QUE PUBLIQUEI NA ÉPOCA DA ESTREIA DE “GUERRA FRIA” (2018).

O trabalho da atriz alemã Sandra Hüller é impecável, ela é a responsável por facilitar a imersão da parcela do público que desconhece o contexto histórico da obra e nunca leu Thomas Mann. Para os já iniciados, o desenvolvimento narrativo se torna muito mais fascinante. Eu li ao longo da vida “A Montanha Mágica” (o meu favorito dele), “Doutor Fausto”, “Morte em Veneza” (a minha primeira experiência com o autor, ainda na adolescência), “Os Buddenbrook”, “O Eleito” e “Carlota em Weimar”, títulos que posso afirmar, sem exagero retórico, que são verdadeiramente transformadores.

O refinamento dos diálogos merece ser ressaltado, algo que já impressiona na primeira sequência, uma tensa conversa por telefone da Erika com o irmão Klaus Mann (August Diehl), autor do excelente “Mephisto”. É inteligente e emocionalmente madura a forma como a trama, dentro do microcosmo da viagem para Frankfurt e Weimar, trabalha de maneira sutil a crítica às expectativas infantilizadas geradas por toda sociedade carcomida por uma crise moral profunda, esperanças inatingíveis depositadas em símbolos (falíveis) de diferentes espectros ideológicos. O roteiro nos faz pensar sobre o impacto negativo deste comportamento na formação psicológica do indivíduo e o efeito prático do mesmo no coletivo.

“A Terra do Meu Pai” não faz concessões mercadológicas, o diretor segue íntegro em seu estilo, adotando o preto e branco, com a proporção de tela clássica em 4:3, reforçando visualmente o encurralamento psicológico dos personagens, o bloqueio emocional na relação entre pai e filha.

Um filme de altíssimo nível, executado com o esmero de um artesão apaixonado. No Brasil de hoje provavelmente será lançado em poucas salas, que ficarão vazias, mas você não precisa ser um lago, só porque o povo não sabe (e nem quer saber) nadar, seja oceano, valorize este raro tesouro.

Cotação:

  • O filme estreia nesta semana nas salas de cinema brasileiras.

Trailer:

Octavio Caruso

Viva você também este sonho...

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