Críticas

O cinema provocador do diretor grego NIKOS NIKOLAIDIS

Os cinéfilos dedicados já conhecem a obra do diretor Yorgos Lanthimos, quando escrevi meu primeiro texto sobre ele, no início da minha jornada profissional, o seu nome ainda não havia rompido a bolha, pouco tempo depois ele seria indicado ao Oscar por “Dente Canino” (2009), o mundo então foi apresentado à safra de filmes da Greek Weird Wave (Estranha Onda Grega), um movimento marcado por narrativas surreais que provocam muito desconforto, algo quase hipnótico, verdadeiramente fascinante.

Ele não foi pioneiro neste estilo dentro do cinema grego, houve um diretor que já exercitava esta criatividade bizarra antes dela se transformar em fórmula para chocar estrangeiros, o saudoso Nikos Nikolaidis.

Há textos pedantes que buscam algum senso lógico por trás do experimentalismo, estabelecendo conexão direta com a situação política da época no país, reduzindo as obras ao puro revide estético diante de um cenário existencial decadente, mas se isso fosse regra, o cinema brasileiro seria brilhante.

É apenas teoria para preencher monografia de faculdade, aquele tipo de enrolação que gasta páginas extraindo o significado sociopolítico por trás da coreografia do filme de artes marciais. O segredo é o baixíssimo orçamento e a vontade desesperada de criar com poucas ferramentas.

A paixão pelo cinema Noir hollywoodiano é perceptível em sua carreira, das referências diretas (como “Laura”, de Otto Preminger, em “Singapore Sling”) à utilização de temas, ele expressava seu amor de forma intensa, sem fazer concessões mercadológicas, atingindo pontos nevrálgicos que os grandes estúdios jamais ousariam vislumbrar no horizonte.

O seu cinema definitivamente não é popular, nos dias de hoje, com o terrível conceito do “politicamente incorreto”, até tentar analisar seus trabalhos é problemático, mas desta feita escrevo diretamente para o fiel público que estuda esta arte com seriedade.

Eu me recordo do meu primeiro contato com o já citado “Singapore Sling” (Singapore Sling: O anthropos pou agapise ena ptoma – 1990), graças à internet, indicado em uma matéria como uma pérola cult de terror. Pobre de mim, nada me preparou para aquela experiência. A trama acompanha um detetive que busca sua amante desaparecida e acaba prisioneiro de duas mulheres psicóticas (mãe e filha) em uma mansão.

O terror foi meu gênero de formação, ao lado da ficção científica, cresci absorvendo todo tipo de esquisitice cinematográfica, material obscuro mesmo, banido, não é fácil algum roteiro realmente me chocar, mas nos primeiros 40 minutos, lá estava eu, boquiaberto e com os olhos arregalados. E, como gosto desta emoção, não me fiz de rogado, preparei uma segunda sessão com um elemento adicional para entrar no clima, escutei o disco psicodélico “Hisscivilization”, do compositor gaúcho Júpiter Maçã. Recomendo!

Caso aprecie a aventura sensorial que a obra proporciona e queira se aprofundar na mente do diretor, sugiro os títulos abaixo:

  • Ah, uma observação, caso você seja aquele tipo de pessoa que ainda pergunta: “Onde o filme está passando?”, nem comece, você ainda entende cinema como algo que precisa “passar” em algum canal ou estar disponível em alguma plataforma de streaming, com certeza não vai aguentar nem cinco minutos destes filmes. Para todos os outros, desbravadores apaixonados pelo garimpo cultural, eu não preciso nem avisar, os títulos são facilmente encontrados na internet.

Patrulha da Manhã (Proini peripolos – 1987)

Ficção científica pós-apocalíptica sobre uma mulher (a atriz suíça Michele Valley, a mãe de “Singapore Sling”) que cruza uma cidade destruída e abandonada. Perseguida pela “Patrulha Matinal” e cercada por armadilhas, ela encontra um sobrevivente que a ajuda, iniciando uma relação de amor e violência em um mundo inabitável.

Os Miseráveis Ainda Cantam (Ta kourelia tragoudane akoma… – 1979)

A trama acompanha cinco amigos na casa dos 40 anos, representantes da geração de 1950, que se reúnem após anos de silêncio para um “réquiem” pessoal, imersos em nostalgia, deboche e esquemas perturbadores.

Octavio Caruso

Viva você também este sonho...

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