Três Vezes Adeus (Tre Ciotole – 2025)

Após uma discussão aparentemente trivial, Marta (Alba Rohrwacher) e Antonio (Elio Germano) terminam o relacionamento. Marta reage ao término se isolando. O único sintoma que ela não consegue ignorar é a repentina falta de apetite. Antonio, um chef em ascensão, se dedica ao trabalho. Mas, apesar de ter sido ele quem terminou com Marta, parece não conseguir esquecê-la.

A voz criativa da roteirista/diretora espanhola Isabel Coixet é uma das mais potentes do cinema independente moderno.

O meu primeiro contato com sua obra foi em “Confissões de Um Apaixonado” (1996), ela já demonstrava confiança, apesar de ainda não ter aperfeiçoado o senso de ritmo. No bonito “Minha Vida Sem Mim” (2003), o roteiro ganhava pontos por não abraçar o melodrama excessivo que o tema prometia. Coixet alcançou o equilíbrio perfeito no excelente “A Vida Secreta das Palavras” (2005), depois desperdiçou seu talento em projetos medianos, simpáticos, mas comuns.

devotudoaocinema.com.br - Crítica de "Três Vezes Adeus", de Isabel Coixet

No seu novo trabalho, “Três Vezes Adeus”, ela exibe novamente a inteligência emocional dos seus primeiros filmes, entregando uma história inspirada no livro semiautobiográfico da escritora italiana Michela Murgia: “Tre Ciotole: Rituali per un anno di crise”.

Marta (inspirada atuação de Alba Rohrwacher, do ótimo “Lazzaro Felice”, de 2018)  é apresentada ao público nas primeiras cenas, em confronto com Antonio, como alguém que foge dos problemas, elemento fundamental na vida adulta, psicologicamente agindo como a criança que diz “não ser boa nisso”.

A trama insere minutos depois um paralelo esperto, quando ela, na figura de autoridade de professora, recebe o mesmo tipo de justificativa de suas jovens alunas, que não se sentem dispostas à executar a tarefa. Ela naturalmente se irrita com a imagem que enxerga no reflexo do espelho. A trama, nos primeiros dez minutos, de forma simples e objetiva, já te diz tudo sobre a personalidade da protagonista.

A reação da personagem ao término da relação, incluindo escrever avaliações negativas falsas na divulgação do trabalho dele e fazer do retrato de um estranho numa tira de cartolina um amigo imaginário, explicita ainda mais a sua psique infantilizada. Ela está (inconscientemente) em uma jornada para reaprender a ter amor-próprio.

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Antonio, por sua vez, ressignifica a perda aprimorando o foco em seu trabalho (um toque brilhante é o nome de seu restaurante, Senzafine, interminável), uma atitude mais madura. Cenas em flashback onírico invadem a cena, resgatando o momento feliz em que ela foi apresentada ao local, reforçando a simbologia de que a alma da relação segue intacta, o desgaste não corrompeu a essência do amor.

O roteiro insere outro paralelo no segundo ato, mostrando a reação de Antonio, no restaurante, quando um cliente norte-americano, que desconhecia que o alimento que pediu era servido cru, reclama com a atendente. Há um conflito, mas ele encontra rapidamente um caminho que soluciona a questão sem stress, ele adultera a natureza do prato (e, por conseguinte, engole o orgulho como chef) e satisfaz o desejo da pessoa.

É muito inteligente a forma que a trama encontra para, nestas sequências aparentemente comuns, evidenciar as diferenças que afastaram o casal e, principalmente, deixar claro o contraste no ímpeto individual pela mudança necessária.

No terceiro ato, quando a trama se desenvolve para uma intensa catarse emocional, tudo faz sentido, Isabel Coixet propõe uma análise sensível e delicadamente construída sobre a beleza inerente aos sentimentos humanos, até mesmo os ruins, que afloram em situações de crise. O valor da fantasia no fortalecimento do espírito também ganha destaque neste desfecho.

“Três Vezes Adeus” é obrigatório para quem respeita esta arte.

Cotação:

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  • O filme estreia nesta semana nas salas de cinema brasileiras.

Trailer:



Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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