Prece Para Um Condenado (A Prayer for the Dying – 1987)
Martin Fallon (Mickey Rourke) é um ex-membro do IRA desiludido após eliminar crianças acidentalmente. Tentando abandonar a violência, ele é chantageado por um mafioso (Alan Bates) implacável. Ele só conseguirá escapar se cumprir a última tarefa, eliminar o padre (Bob Hoskins) que testemunhou um de seus crimes.
Mickey Rourke é um dos maiores atores de sua geração, costumo rever com frequência as pérolas que ele entregou na década de 80. Ao reler suas entrevistas da época em revistas, você enxerga claramente a seriedade com que ele tocava o trabalho, o nível intenso de dedicação ao processo de criação dos personagens, e, por conseguinte, o peso da frustração ao ter seu comprometimento prejudicado pelas engrenagens da indústria.
A sua jornada de vida é fascinante, infelizmente o público acaba se interessando mais por questões irrelevantes, como as mudanças em sua aparência ou os tropeços que refletem sua personalidade difícil, deixando de lado a sua preciosa contribuição artística.

Quando você analisa o seu desenvolvimento em títulos como “O Selvagem da Motocicleta” (1983), o excelente “O Ano do Dragão” (1985), “9 1/2 Semanas de Amor” (1986), o impecável “Coração Satânico” (1987), “Prece Para Um Condenado” (1987), o desafiador “Barfly” (1987), “Homeboy” (1988), o surpreendente “Francesco” (1989) e “Um Rosto Sem Passado” (1989), comparando com as escolhas de colegas que lotavam as salas de cinema no período, ele evoca a escola da era de ouro de Hollywood, Marlon Brando, Montgomery Clift e James Cagney, com uma pegada visceral, sem concessões mercadológicas.
Rourke relatou em entrevistas que não ficou satisfeito com o trabalho do diretor britânico Mike Hodges na adaptação do livro de Jack Higgins, “Prece Para Um Condenado”, reclamou que estavam reduzindo a ideia à um roteiro de ação comum, com os clichês do gênero.
Ele não estava errado, compreendo como ator o que ele sentiu, mas creio que ele, como profissional apaixonado, teve um equívoco de percepção ao não captar que a obra original era essencialmente pulp, Higgins, nesta segunda aventura do protagonista que criou em “Cry of the Hunter”, entregou diversão descompromissada, um típico page turner. Rourke, encantado com as pesquisas que fez sobre o background de Martin Fallon, acabou criando em sua mente algo muito mais interessante do que aquilo que estava literalmente nas páginas do livro.

Alan Bates entendeu rapidamente a proposta e devora cada cena, um vilão sem tons de cinza, dono de um macabro senso de humor, que enxerga a morte como uma obra de arte. Bob Hoskins, como o representante da fé, passa a encarar a improvável redenção de Fallon como o teste definitivo em sua missão de vida. A bela sobrinha cega, Anna, vivida pela Sammi Davis, o elemento de pureza que restou na realidade de Fallon, precisa ser protegida a todo custo.
Na revisão para este texto, o filme só melhorou, considero o desfecho brilhante ao reforçar a vitória final das esperanças do padre (a finitude pode representar algo positivo quando a opção é perder a humanidade). Eu recomendo uma sessão dupla com o clássico “A Tortura do Silêncio” (1953), do mestre Alfred Hitchcock.
- Você encontra o filme na plataforma LOOKE, encontra também em DVD e, claro, garimpando na internet.
Trilha sonora composta por Bill Conti:
Trailer:

