domingo, 11 de agosto de 2013

Woody Allen - O Dorminhoco

Meu tio costumava dizer que o tempo é algo subjetivo, que nunca vivemos realmente no presente, mas, sim, no futuro. Quando eu pedia maiores explicações, ele tirava os olhos da página dupla da revista “Playboy” e dizia apenas: “O agora não era considerado o futuro quando você veio me procurar? Da mesma forma, esse exato momento é o futuro de quando eu comecei a explicar a você”. Deveras engenhoso, sem dúvida. Uma pena que essa teoria não serviu para tirá-lo da cadeia anos depois, após ter sido pegado em flagrante no topo do relógio da Central do Brasil, tentando adiantar os ponteiros com a força da mente. Questionado pelo juiz, encolerizado, afirmou apenas que o mundo era um local absurdo onde pessoas sérias como ele eram ridicularizadas, enquanto milhões de fiéis valorizam pastores que dizem curar um aleijado ao toque de seus paletós. Para seu azar, o juiz era evangélico, e adicionou cinco anos à sua pena. Meu tio hoje é um novo homem, tendo aceitado Jesus, conseguiu uma pequena fortuna em imóveis trabalhando como pastor. Íntegro, nega-se a afirmar curas milagrosas com seu paletó, utilizando apenas uma discreta capa do “Capitão Marvel” e uma espada do “He-Man” em suas pregações. O povo o idolatra e o juiz, que um dia o condenou, hoje o convida em suas festas particulares e pede que ele faça seus truques mentais para divertir seus familiares e amigos.
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PREVEJO QUE OCORRERÃO TERREMOTOS DE ESCALAS INIMAGINÁVEIS NO SEGUNDO DIA DO MÊS OITO DESTE ANO. O PLANETA SACUDIRÁ, OS OCEANOS REGURGITARÃO ATLÂNTIDA (CANSADA APÓS SÉCULOS DE MUITO DISSE ME DISSE A SEU RESPEITO) E, PELA PRIMEIRA VEZ, NOVE POLÍTICOS IRÃO COMPARECER À CÂMARA SABENDO EXATAMENTE SUAS FUNÇÕES. O COLAPSO SERÁ IRREMEDIÁVEL, O MUNDO ADENTRARÁ UM PERÍODO DE TREVAS, PORTANTO, DESLIGUEM TODOS OS APARELHOS ELÉTRICOS DAS TOMADAS, PARA EVITAR PREJUÍZO QUANDO A LUZ RETORNAR. 
(pode ser que não ocorra o tal terremoto, caso algum político no dia evite piadas futebolísticas com seus secretários, o que pode causar um rasgo no espaço/tempo e pôr em risco toda essa corrente de acontecimentos).
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Afinal, como será o futuro? Podemos prevê-lo? Será que aqueles que ingerem apenas comidas orgânicas conseguirão espantosa sobrevida? Descubram com o azarado personagem vivido por Woody Allen, no filme que analiso nos próximos parágrafos (sutil, não?)...


O Dorminhoco (Sleeper – 1973)
Após iniciar com uma despretensiosa brincadeira e dirigir três produções que eram colagens de ótimas ideias cômicas, esquetes, mas sem um fio condutor forte, Allen encarava seu primeiro desafio narrativo: um projeto com pé e cabeça, além de um nariz que comandava um sistema ditatorial. Engraçado do início ao fim, o filme representa perfeitamente a fase inicial do diretor, onde ele desejava apenas levar humor ao público. Com o tempo, ele foi se tornando cada vez mais ambicioso, chegando ao ponto de procurar emular seu ídolo: Ingmar Bergman. Mas essa é uma história a ser contada em um futuro próximo (novamente a sutileza imperando).

Miles Monroe dá entrada em um hospital para uma operação simples, mas acaba acordando duzentos anos depois, em um mundo inspirado nas obras de H.G. Wells, Ray Bradbury e George Orwell. O diretor chegou a conversar com o mestre da ficção científica Isaac Asimov, avaliando a forma de abordar esse distópico mundo do futuro. Claro que esse bate papo deve ter rendido muito mais gargalhadas que reais discussões acerca do tema, já que a proposta do projeto nunca foi tratar com formalidade o fu...

AVISO: O CRIADOR DESTE TEXTO ESTÁ PROIBIDO DE UTILIZAR A PALAVRA “FUTURO” MAIS UMA VEZ, BANALIZANDO ASSIM A EXPRESSÃO.

A bela Diane Keaton interpreta Luna, uma pacifista poetisa que normalmente serve de escada para os ferinos one-liners de Allen, que aproveita a ambientação no... Séculos à frente de seu tempo, para criticar o governo de seu país, como quando se refere à “Associação Nacional do Rifle”, dizendo: “Uma organização que ajudava criminosos a conseguirem armas, para matarem cidadãos. Era chamada de serviço público”. Allen começava a demonstrar um humor mais corajoso, com gags mais elaboradas (mais do que esta com a utilização excessiva da palavra “futuro”, que deveria envergonhar o pusilânime que a imaginou).

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