sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Fellini no Divã


Federico Fellini expressava em sua arte algo muito pessoal. Assistindo os seus filmes conhecemos o homem por trás das câmeras, o nome por trás do mito. Diferente dos projetos biográficos, suas qualidades e boas ações são minimizadas, dando espaço aos defeitos e falhas. Suas fraquezas são expostas sem medo do julgamento. Nós nos tornamos seus analistas, enquanto o cineasta narra suas angústias deitado em um divã. Esse texto não pretende contar a vida de Fellini, pode ser visto mais como uma breve conclusão de um analista sobre um paciente. Começo citando uma cena de uma obra que não está na minha lista de favoritos, mas acho que ela sintetiza magistralmente as intenções de Fellini. Em “E La Nave Va” (1983), duas moças estão no convés de um navio admirando o sol que já desce na linha do horizonte. O diretor deixa claro para nós os materiais usados para criar aquele entardecer, você nota que as moças estão sobre um estrado de madeira, sobre um tapete de plástico enrugado cobrindo o chão. Na frente delas uma parede, com um meio disco vermelho alaranjado representando o sol, que brilha exibindo sua artificialidade, enquanto uma das moças comenta que a tarde está tão bonita que até parece de mentira.

Um de seus filmes mais belos é “A Estrada da Vida” (La Strada – 1954), onde ele se utiliza do cenário circense para mostrar o que resulta de um encontro entre a pura brutalidade, representada pelo rústico artista Zampano (vivido por Anthony Quinn) e a doçura inocente, papel que coube como uma luva nas mãos de Giulietta Masina e sua inesquecível Gelsomina. O choque entre ambos resulta em sequências que ficarão na memória do público eternamente, evidências de que a brutalidade necessita da doçura, assim como a doçura somente se faz percebida na presença da brutalidade. Um choque que representa claramente a angústia de um diretor que acreditava que teria apenas dez anos para produzir suas obras mais notáveis.

Além da angústia e desta eterna luta entre seu lado bruto e manso, podemos reconhecer em sua obra-prima “8 ½” (1963) o Fellini inseguro, que seu alter ego Guido (vivido por Marcello Mastroianni) tão bem personifica. O filme retrata a crise de criatividade de um cineasta que demonstra um esgotamento em seu estilo de vida e resolve se isolar para buscar inspiração. O próprio título nasceu desta insegurança, pois o autor já havia realizado oito projetos e não tinha a menor ideia do que iria fazer em seguida. Com a crescente pressão dos produtores, nasceu esse conceito instigante que culminou no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e homenagens como o musical “Nine”.

A sua frustração com a decadência da sociedade romana na década de sessenta o fez criar o genial “A Doce Vida” (La Dolce Vita – 1960). Mais uma vez falando pela boca de Mastroianni, o diretor abriu suas feridas e deixou-as expostas, assim como os olhos do enorme peixe que havia acabado de ser retirado do mar e que os participantes da festa hedonista (uma metáfora descarada da sociedade) correm para ver, com latente desejo sádico. No entanto, quando o personagem de Mastroianni, um jornalista de meia-idade, está para perder as esperanças no futuro, aparece uma menina angelicalmente inocente que chama por ele à distância. Como um toque de gênio, o personagem não consegue escutá-la, devido à algazarra no local.

Assim é o cinema de Fellini, uma constante busca por redenção e compreensão. Para nós, fica difícil explicar o que nos atrai em seus projetos, mas eu exemplificaria da seguinte forma: como em uma linda cena de “8 ½”, onde o protagonista que está preso em um trânsito insuportável dentro de seu carro, faz com que sua mente o leve voando por sobre a extensa formação de automóveis. Do alto e com o vento soprando seu cabelo, mal se ouve a balbúrdia de buzinas abaixo. Ele finalmente encontra a paz, mesmo que irreal. Um sentimento libertador. Ao escutarmos o relato de sua liberdade, nos sentimos capazes de, mesmo compartilhando a frágil existência humana, romper as barreiras e atravessar o trânsito da vida pelo alto.

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