sábado, 9 de julho de 2016

Rebobinando o VHS - A primeira vez em que exerci a função de crítico

Link para os textos do especial "Rebobinando o VHS":



Esse caso aconteceu no início dos anos noventa, época em que eu acompanhava meu pai religiosamente todas as Sextas-Feiras numa peregrinação até a RG Vídeolocadora de Vila Isabel (RJ), do meu amigo Ricardo, o momento mais aguardado por mim na semana. Ao fundo da galeria, a luz forte da loja surtia efeito hipnótico nos meus olhos de cinéfilo apaixonado, o frio na barriga de saber que eu estava a poucos passos de adentrar aquele universo incrível de filmes com ar-condicionado e balinhas no balcão. Com a Revista SET do mês debaixo do braço, já com os títulos que me interessavam assinalados, eu largava a mão do meu pai e inconscientemente pedia para que ele viesse me buscar no dia seguinte. 

Abrindo um parêntese, pra você ter ideia do nível de amor que eu sentia por aquele ambiente, era comum eu sonhar que havia sido esquecido dentro da loja depois do fechamento, já que eu ficava silencioso lendo as contracapas das fitas por muito tempo. Claro que nos sonhos a luz elétrica era mantida acesa por toda a madrugada, para que eu pudesse ver sem pagar todo o acervo. Fecho o parêntese exatamente no momento em que minha mente me conduz às costas de um cliente que frequentava o local apenas para jogar videogame. O jogo é “Batman – Return of The Joker”, que havia acabado de ser lançado para o Nintendinho 8 Bits, o aparelho que eu conhecia como o meu bom e velho Phantom System. Eu fiquei impressionado com os gráficos, mas não era o único, o desempenho do rapaz no jogo promoveu uma aglomeração de clientes atrás de sua poltrona. Um barulho na porta de entrada desviou minha atenção, uma família estava entrando, pai, mãe e dois filhos pequenos, mais ou menos da minha idade. O pai puxou papo com o atendente, enquanto a mãe se encaminhou para a seção de drama. Resumindo a história, os lançamentos que ele procurava não estavam na loja, mas o atendente avisou que estavam agendados pra retornar naquele dia. O homem não pensou duas vezes, apoiou o braço no balcão e viu naquele empecilho uma oportunidade para discutir cinema. Que saudade da época em que as pessoas se olhavam nos olhos em longas conversas com estranhos em locais públicos. Como eu me recuso a adotar a moda moderna do whatsapp, sequer tenho um smartphone, como uma relíquia empoeirada, eu sou obrigado a testemunhar diariamente em todos os ambientes um coletivo de robôs de cabeças baixas. 

Volto ao passado com a pergunta que me é feita pela mãe, curiosa com meu interesse por filmes de terror. Ao ver dois estojos do gênero em meus braços, provavelmente um dos títulos era algum “A Hora do Pesadelo”, a mulher sorridente disse que não deixava os filhos dela sequer chegarem perto daquela seção. E, de forma inconsciente, exerci a função de crítico, provavelmente pela primeira vez na minha vida para alguém que não era um parente próximo, lutando contra a introversão, explicando para aquela senhora a importância daqueles filmes. Os meninos se aproximaram e ela não parecia entediada com o meu falatório, o sorriso dela acabou me incentivando. Meu pai, como de costume, sentado à distância, aguardando o término do meu infantil garimpo, deve ter achado interessante aquele fenômeno: o tímido Tavinho falando em público. Eu sugeri a ela que os filhos vissem “As Criaturas Atrás das Paredes”, se não me falha a memória, que eu tinha alugado na semana anterior. Não sei se foi um gesto de educação dela, ou se realmente meus argumentos foram transformadores, mas a mulher acabou levando alguns títulos no gênero, pedindo minhas indicações. Eu me senti o cara mais importante no local, já estava praticamente pedindo comissão pra gerência. 

Ao sair, nem fiquei chateado de não ter encontrado a maioria dos títulos que procurava, a sensação de dever cumprido superava o número menor de estojos pretos na sacola. 

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