quinta-feira, 24 de novembro de 2016

"A Chegada", de Denis Villeneuve


A Chegada (Arrival – 2016)
“Story of your Life”, de Ted Chiang, lançado em 2002, é um dos melhores contos de ficção científica que já li, simples em sua estrutura em primeira pessoa, mas complexo nas reflexões que propõe, com um uso de linguística que remete às investigações filosóficas de Wittgenstein. Desde adolescente sou fascinado pelo gênero, colecionava o “Isaac Asimov Magazine”, editado no Brasil pela Record, no início da década de noventa. “Contato”, de Carl Sagan, é um dos meus livros favoritos. E nem vou me alongar mais abordando minha relação com o gênero no cinema. O que importa é ressaltar que eu não duvidava que a adaptação comandada por Denis Villeneuve fosse resultar em algo impactante, o canadense é um dos maiores diretores de sua geração, mas confesso que fui surpreendido pela fidelidade ao material original, apenas expandindo o relato intimista para um escopo global, e pela extrema sensibilidade com que ele conduziu a trama.

Ao ser convocada para tentar estabelecer contato com os visitantes alienígenas, a doutora em linguística, mostrada inicialmente como uma pessoa melancólica que optou pela solidão como fuga, por medo de sofrer, encontra motivação profissional e refúgio existencial. A complexidade na expressão dos alienígenas, como o kanji japonês, através de ideogramas ricos em significados, representa um desafio amedrontador, assim como a perspectiva de futuro da mãe que precisa educar pelo exemplo, encontrando o equilíbrio entre as aspirações que nutre pela filha e o choque irreversível de estar lidando com um ser estranho e que precisa firmar sua personalidade própria, ainda que nascido de seu ventre. O delicado contato deve ser mediado sempre pelo desejo genuíno de compreensão do outro, mas, como o filme evidencia, a raça humana é propensa ao apedrejamento como resposta imediatista para qualquer pergunta mais difícil. A mãe repele o questionamento indesejado da filha, desviando a responsabilidade para o pai; os militares optam facilmente pela violência perante o medo do desconhecido. O resultado é o mesmo.

Exatamente como no conto, “A Chegada” não é sobre uma invasão alienígena, não é sobre o contato com o desconhecido mundo externo. A alegoria apenas injeta suspense, serve na realidade como veículo refinado para uma linda história de amor entre mãe e filha, uma difícil jornada interna de compreensão da dor como elemento inevitável na experiência do amadurecimento, uma declaração libertária de união entre povos, um alerta precioso para a necessidade do diálogo como antídoto contra a agressividade da intolerância, em suma, um filme que traz esperança em um momento politicamente sombrio para os norte-americanos. Somos definidos por nossas escolhas, mas caso pudéssemos optar entre sofrer a dor de um amor fadado a ter um fim horrível, ou simplesmente evitar o primeiro encontro com a pessoa, qual caminho escolheríamos? Essa é a questão que o roteiro de Eric Heisserer faz, com plena consciência de que a única resposta humanamente aceitável é a mais sádica, emoções não são forjadas em ambientes assépticos, George Lucas já provava isso em “THX 1138”. A protagonista Louise, vivida por Amy Adams, sabe que a dor do término de uma relação, por mais avassaladora que seja a ruptura, não desvaloriza os bons momentos que a antecedem, a mágica interação, a troca de carinho, a força do perdão, pegadas na areia que serão inexoravelmente apagadas pelas ondas. É discutível até que a aceitação lúcida da finitude seja o elemento que verdadeiramente engrandeça a experiência. Sem um ponto final, qualquer frase perde relevância. 
Comentários
2 Comentários

2 comentários:

  1. Parabéns pelas colocações, meu caro. Brilhante, como sempre!

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  2. Texto excelente. Ainda não assisti a este filme, mas depois deste texto, a ida ao cinema tornou-se obrigatória

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