segunda-feira, 6 de março de 2017

"Máquina Mortífera" e "Máquina Mortífera 2", de Richard Donner


O quarto filme foi decepcionante, exagerando nos elementos cômicos que já haviam prejudicado o terceiro, mas os dois primeiros seguem eficientes em revisão. A explosiva união de Shane Black, Richard Donner, Mel Gibson, Danny Glover e Joe Pesci, o ápice do cinema de ação norte-americano dos anos oitenta. 


Máquina Mortífera (Lethal Weapon - 1987)
O segredo do sucesso do roteiro está na criação de um protagonista à beira de um colapso mental, um homem que perdeu a esposa em um acidente de carro, alguém que lida diariamente com a pulsão suicida, o policial Martin Riggs (Mel Gibson). Ele foi se tornando mais socialmente aceitável nas sequências, mas no original ele está pedindo para ser liquidado por seus oponentes. A ideia do criador dos personagens, o roteirista Shane Black, conduzia Riggs para a morte no desfecho do segundo, porém, por compreensíveis razões financeiras, os produtores se recusaram e o autor se afastou do projeto. É inesquecível a clássica cena em que o policial tenta persuadir um suicida a desistir do ato pulando junto com ele do alto do prédio, o que conduz à sequência mais forte da franquia, uma aula de atuação de Gibson, provando para o colega que ele é realmente capaz de tirar a própria vida, que as suas atitudes radicais não eram uma forma de conseguir pensão da instituição, uma maneira genial do roteiro quebrar as expectativas do público.

A trilha traz Michael Kamen, Eric Clapton e David Sanborn, uma identidade sonora de personalidade, você escuta um riff e a sua memória afetiva já te leva para aquele momento no tempo. Eu vi pela primeira vez aos seis anos, em VHS, na casa de um tio, mas só fui apreciar de verdade na época do lançamento do segundo nas locadoras de vídeo. A estreia do segundo teve ampla cobertura nas revistas SET, Cinemin e Vídeo News, acompanhei com mais consciência cinéfila. O terceiro foi marcante, gravei na exibição do primeiro “Tela Quente” do ano, devo ter visto umas cinco vezes só naquela semana. É curioso constatar que o aspecto humano que move a franquia prevalece sobre a violência, as crianças da década de oitenta se apaixonavam por esses filmes, puras e sensíveis, captando esse coração nas tramas. É, acima de tudo, uma história de amizade, cumplicidade e amor pelo conceito de família. A questão racial nunca é levantada, outro ponto importante, já que o projeto similar: "48 Horas", lançado anos antes, era alicerçado nos estereótipos, Eddie Murphy vivia o criminoso falastrão, o malandro de rua. 

Os heróis do gênero à época simbolizavam o positivismo bélico da era Reagan, corpos esculpidos, máquinas perfeitas de destruição. “Máquina Mortífera” introduzia nesse contexto um louco e um parceiro cinquentão cansado, aposentado, um certinho homem de família, Roger Murtaugh (Danny Glover). O encontro desses dois opostos garantia o charme que até hoje a indústria tenta, sem sucesso, igualar. A essência emocional também era diferente de tudo que estava sendo produzido, a importância da família, representada na subtrama de vingança de Michael Hunsacker (Tom Atkins), após o assassinato da filha, ou no instinto protetor de Murtaugh com sua filha mais velha, mas, especialmente, na relação que se estabelece entre Riggs e Murtaugh, a forma como o veterano o acolhe em seu lar. Outro fator importante que não foi superado nas continuações é a figura do vilão Joshua, a imponência visual de Gary Busey, a briga noturna na chuva iluminada pelo holofote de um helicóptero, cena responsável por apresentar o Jiu-Jitsu brasileiro ao mundo.


Máquina Mortífera 2 (Lethal Weapon 2 - 1989)
Evitando repetir o tema do primeiro, o combate às drogas, o roteiro aposta em diplomatas sul-africanos que utilizavam sua imunidade para cometer crimes, com Riggs e Murtaugh sendo enviados para uma missão aparentemente simples, manter a segurança de Leo Getz (Joe Pesci), um contabilista especializado em lavar dinheiro para a máfia. O personagem se tornaria um alívio cômico irritante no terceiro e no quarto, mas ele está na medida no segundo, hilário! Novamente, o filme não disfarça isso, a trama serve apenas como desculpa elegante para que a relação da dupla se desenvolva em sequências maravilhosas como a estreia da filha de Murtaugh em uma propaganda televisiva de preservativo, ou a impagável bomba no vaso sanitário. O tom do humor é potencializado, o texto, mérito de Jeffrey Boam, nunca esteve tão esperto, ágil, tão bom que parece que foi improvisado no ato da gravação. Patsy Kensit é tão linda, que é perdoável sua pouca habilidade na função e a existência desnecessária de uma subtrama romântica para Riggs, algo que apenas quebra o ritmo da ação, repetindo preguiçosamente a motivação da vingança, forçando a barra ao estabelecer conexão entre os vilões e a morte de sua esposa, e, por conseguinte, conduzindo para a cena mais absurda, a destruição de uma casa de palafitas por um automóvel. A trilha sonora entrega “Cheer Down”, composição de George Harrison, altíssima qualidade que se manteria no filme seguinte, com “It’s Probably Me”, de Sting, Eric Clapton e Michael Kamen. “Máquina Mortífera 2” é diversão genuína, uma das melhores sequências da história do cinema. 

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