Chumbo Quente – “O Último Pistoleiro”, a despedida de John Wayne

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O Último Pistoleiro (The Shootist – 1976)

John Wayne batalhava corajosamente contra um câncer no
estômago, após ter vencido anos antes o mesmo mal, tendo que remover o pulmão
esquerdo e quatro costelas. Além de ser um fumante inveterado, havia
participado em 1956 de um filme chamado “Sangue de Bárbaros” num
local próximo de onde os Estados Unidos haviam testado bombas atômicas. A alta
radioatividade presente teria envenenado grande parte da equipe técnica, que
desconhecia a periculosidade do lugar. Além de John, outros colegas desta
filmagem viriam a falecer de câncer, como Susan Hayward, Pedro Armendáriz,
Agnes Moorehead e o diretor Dick Powell, entre outros. Em 1964, o primeiro
câncer já o havia deixado extremamente debilitado, mas ele quis ir a público e
assumir sua doença. Seus agentes tentaram impedi-lo, com medo de perderem
contratos e futuros papéis no cinema, porém o guerreiro lutava em seus próprios
termos. Wayne liderou uma campanha em massa alertando a todos sobre a
necessidade de tomarem medidas preventivas. Cinco anos depois se viu livre da doença,
mas os efeitos colaterais provaram-se devastadores em um homem tão cheio de
vida.

Já com quase setenta anos e com uma carreira consagrada de
mais de cento e quarenta filmes, o velho caubói pressentia que pouco tempo lhe
restava, o mundo estava mudando rapidamente com o crepúsculo da década de
setenta se principiando no horizonte. Ele que havia sido o ídolo dos primeiros
anos da Sétima Arte, com suas aventuras escapistas que eletrizavam as matinês,
agora presenciava a reformulação do gênero Western pelas mãos competentes dos
italianos. Os chapéus e as pradarias continuavam as mesmas, mas a ideologia era
totalmente diferente. O mundo não aceitava mais as histórias coloridas e
simples de mocinhos e bandidos, os tons de cinza dominavam o velho oeste de Peckinpah
e Leone.

O belo epitáfio de Wayne veio na forma do sensível: “O
Último Pistoleiro”, com direção de Don Siegel e a
presença dos amigos de longa data: James Stewart, John Carradine e Lauren
Bacall. Era claro para toda a equipe que aquele seria o último filme dele, pois
seu estado de saúde piorava dia após dia. Havia o temor de que talvez ele nem
conseguisse terminar as gravações, porém todos estavam determinados a dar este
último presente ao “Duke”, uma chance de interpretar o papel que ele
sempre desejou. Na história, Wayne vive J.B. Books, um velho pistoleiro com
câncer que descobre ter poucos dias de vida e decide morrer da forma mais digna
possível. Ele se recusa a ceder à sua dor, deitar-se e esperar lentamente seu
último suspiro. Sua vontade é tombar em um duelo justo, ser admirado e merecer
o eterno descanso. Siegel consegue incutir na obra grande sensibilidade,
iniciando-a com trechos de filmes do jovem Wayne, utilizando estas cenas para
emoldurar a vida do icônico personagem. Mais do que um filme sobre o fictício
J.B. Books, o diretor deixa claro que se trata de uma homenagem em vida ao
maior símbolo do Western mundial, um homem que é idolatrado em seu país não
somente por suas contribuições ao cinema, mas também por sua integridade de
caráter.

Em 1979, o guerreiro não suportou mais e nos deixou. “O
Último Pistoleiro” foi sua despedida triunfal das telas. Uma das raras
vezes em que um ator teve a chance de dizer adeus para seu público e agradecer
pelo carinho. Não existe morte mais digna que esta.

“O amanhã é o elemento mais importante da vida. À meia
noite ele chega e se apresenta claramente. Perfeito, se entrega em nossas mãos,
esperançoso de que tenhamos aprendido algo com o ontem”. (John Wayne)

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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