O resgate do lúdico infantil em “A Lenda”, de Ridley Scott

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A Lenda (Legend – 1985)

Jack (Tom Cruise) é o morador de uma floresta encantada, habitada também por seres feéricos, como elfos e unicórnios, além das fadas, que tem de libertar a Princesa Lily (Mia Sara) do Senhor das Trevas (Tim Curry), sob a ameaça de todo o mundo tornar-se um lugar gelado.

O diretor Ridley Scott havia acabado de conquistar a atenção do mundo com seus dois excelentes trabalhos anteriores (“Alien – O Oitavo Passageiro” e “Blade Runner – O Caçador de Androides”), quando decidiu mudar completamente o rumo de sua carreira e investir em um tema que desafiou as expectativas dos espectadores. Um filme que captasse o inconsciente coletivo das memórias lúdicas das crianças, procurando traduzir em imagens o
vasto e fértil terreno da fantasia, nosso primeiro contato com o mundo, através das histórias contadas pelos nossos pais.

Ele buscou inspiração na melhor referência possível: o excelente “A Bela e a Fera” (1946), de Jean Cocteau. Uma sessão prévia recebida com pouco entusiasmo, fez com que o diretor decidisse retalhar o projeto, que teria em torno de 150 minutos, para uma duração final de 98 minutos. A introdução do personagem de Tom Cruise, por exemplo, deixa implícito que havia alguma cena anterior que a sustentaria melhor. Mesmo com estes problemas, ainda existe material suficiente para identificar a competência de seu realizador, como no primeiro encontro entre Lily e o Senhor das Trevas (logo após a ótima cena em que ele atravessa o espelho), em que a utilização de cortes rápidos, mostrando os rostos dos dois, consegue passar para o espectador a sensação de pavor da protagonista. A cena
inicial, ainda que simples, apresenta uma metáfora visual que revela a proposta da obra: a luz azul do luar, tentando atravessar pelas árvores da floresta negra. Vale destacar também a bela trilha sonora de Jerry Goldsmith (que na versão americana foi substituído pelo grupo “Tangerine Dream”, em uma decisão equivocada dos produtores, visando o público adolescente), que se inspirou claramente em Debussy e Ravel, emoldurando com perfeição as cenas.

Quando passava na “Sessão da Tarde”, eu era criança e me lembro de ficar com medo da caracterização do vilão e sentir uma paixonite pela bela Mia Sara (na época da filmagem, com apenas 15 anos), mas o papo que rolava no dia seguinte na escola era sobre a cara de pau da Xuxa (na época culpávamos ela, quando na realidade ela apenas “atuou”; o
roteiro foi de Anna Penido, David Sonnenschein e Antônio Calmon), que plagiou
descaradamente este filme e o “Labirinto” (outro VHS que não saía do aparelho de vídeo, com o David Bowie e a Jennifer Connelly), no seu horroroso “Super Xuxa Contra Baixo Astral”.

Um fracasso de bilheteria, que os críticos repudiaram, mas que ainda hoje se mantém em várias listas de fãs do gênero. Existe algo nele, um encanto que o faz resistir em meio a tantas obras de fantasia modernas. Seria o excelente trabalho protético de Rob Bottin (com destaque para a criatura Meg Mucklebones)? Talvez. Mas o que me leva de volta a ele não é qualquer detalhe técnico. O sentimento perfeitamente traduzido na cena final, que se estende pelo início dos créditos. A despedida do povo da floresta, direcionada para os espectadores. Unicórnios, o elfo Gump (vivido por David Bennent, do maravilhoso “O Tambor”) e os anões, agradecendo à nossa pureza por sua existência.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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