Na Mira de 007: Parte 23 – Que o Céu Desabe Sobre o Passado… Rumo à Eternidade.

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    007 – Operação Skyfall (Skyfall – 2012)

    Os produtores souberam trabalhar este projeto como uma justa
    homenagem aos cinquenta anos de sucesso, mas acima disto, uma redenção digna de
    constar nos anais da história da Sétima Arte. Manter-se no jogo cruel e
    burocrático desta indústria por tantas décadas, sobrevivendo a mudanças de
    comportamento da sociedade, com tanta jovialidade e frescor, não é algo fácil. Além dos vários problemas ocorridos no anterior, que sofreu
    com a greve de roteiristas, havia ainda a falência da MGM (como é bonito
    assistir o leão rugindo logo no início, como se resistisse a perecer) e o
    descrédito de muitos, que debochadamente diziam que o personagem deIan
    Flemingestava irreconhecível em obras boas de ação, mas que continham
    mais elementos de Jason Bourne. “007 – Operação Skyfall” não é
    somente um excelente filme dentro da franquia, mas também um atestado de
    competência empresarial.Barbara Broccoli, com o auxílio de Michael Wilson, carrega o legado de seu pai com elegância. Após dois projetos de origem, onde
    apresentava o protagonista como uma ferramenta bruta a ser desenvolvida,
    entrega desta vez o James Bond idealizado por Fleming e “Cubby”, seu
    pai. Respeitando ambas as fontes, presenciamos os elementos distinguíveis em
    sua versão literária e cinematográfica (lembraram até mesmo de incluir uma
    lembrança àqueles one-liners bem-humorados, que sempre apareciam
    após os feitos mais absurdos do herói, como o homem que sempre olhava assustado
    para sua garrafa, nas obras com Roger Moore), como a presença de animais
    exóticos, vilões com objetivos megalomaníacos e seus esconderijos criativos.

    Daniel Craigestá totalmente confortável no personagem,
    que desta vez enfrenta a si mesmo, física e mentalmente. Levado a buscar em seu
    passado, que sempre buscou esquecer, a força que necessita para continuar
    realizando seu trabalho, mesmo que o governo de seu país o considere uma
    relíquia dispensável em um mundo onde um jovem de pijamas em seu laptop pode
    ser mais eficiente que ele. Skyfall é a propriedade de sua família na Escócia,
    local rústico cheio de passagens secretas. Em uma delas reside a essência
    inocente daquela criança de outrora, elemento captado com sensibilidade nos
    créditos de abertura, mostrando o olhar do personagem escondido atrás dos
    escombros, como que se escondendo. Simbolicamente representa o único elo entre
    o garoto medroso que ele um dia foi e o homem audacioso que precisa ser.
    “M” (Judi Dench) é presenteada pelo roteiro deNeal Purvis,Robert
    WadeeJohn Logan, com algo que provavelmente será tido daqui a
    vários anos, como a ideia mais criativa da franquia. Ela já representava a
    figura materna, desde os filmes com Pierce Brosnan, mas no alto de seus quase
    oitenta anos, tornou-se aBond Girlmais importante da franquia, inclusive, se envolvendo na ação. Além de ser uma bela homenagem à atriz, também se
    mostra eficiente no cânone cinematográfico do personagem, pois Bond precisava
    desatar os laços que o prendiam psicologicamente ao seu passado (Skyfall e a
    excelente inclusão do clássico Aston Martin DB5) e à sua “mãe”, para
    somente então personificar plenamente o 007 que o mundo conheceu em “Dr.
    No”. O desfecho coerentemente fecha esse círculo.

    A direção deSam Mendesé elegante e
    inteligentemente autoral, mas sem nunca esquecer que precisa entregar o que os
    jovens fãs buscam, mas também abraçar aqueles que assistiram Sean Connery no
    cinema. Ele conduz os acontecimentos com o herói, potencializando o medo em
    suas variadas formas: medo de ser substituído, medo de ser superado, medo da
    solidão. Como consequência, humaniza-o sem descaracterizá-lo. O vilão Raoul
    Silva, vivido brilhantemente porJavier Bardem, busca vingança contra
    “M”, ela o abandonou quando era um agente do MI6, mas, na realidade, sofre mais pelo ciúme do carinho que ela nutre por Bond. Ao fazê-lo claramente
    homossexual, ainda que, felizmente, fugindo da estereotipação, o roteiro
    entrega diálogos inesperados e engraçados, como quando ele tenta seduzir o
    herói, que está amarrado em uma cadeira.Ralph Fiennes(Gareth
    Mallory, o “M” que nos acostumamos a ver sendo interpretado por
    Bernard Lee, só que numa versão mais jovem),Naomie Harris(umaEve
    Moneypenny muito mais interessante, tendo estabelecido uma real química com o
    herói, algo que torna o usual jogo de sedução entre os dois, muito mais
    verossímil) eBen Whishaw(um “Q” adolescente,
    possibilitando um relacionamento de irmão mais novo com 007)
    completam a gênese da criação de Fleming, preenchendo lacunas que até os fãs
    mais esperançosos não acreditavam que seriam preenchidas. A homenagem só não
    fica perfeita, pois é claramente perceptível, até na forma escolhida para
    introduzi-lo na cena, que o personagem vivido porAlbert Finneyno
    terceiro ato foi idealizado para ser interpretado por Sean Connery, ou outro
    ator que encarnou o espião, o que chega a fazer o espectador se frustrar ao
    ser revelado outro intérprete, que mesmo sendo excelente e renomado, não parece
    adequado.

    A trilha sonora deThomas Newmanreforça o retorno
    ao passado e a elegância inerente ao personagem. A bela canção-título, uma
    excelente interpretação deAdele, traduz com perfeição o tom da trama, aquilo
    que realmente está em jogo, a relação entre Bond e “M”(“…
    você pode ter o meu número, o meu nome, mas nunca terá meu coração… eu sei
    que nunca me imporia, sem a segurança de seu abraço carinhoso, afastando-me do
    perigo… deixe que o mundo acabe, enfrentaremos juntos”
    ). Felizmente, Daniel
    Kleinmanestá de volta, construindo a cena de créditos mais corajosa desde
    os anos em que Maurice Binder orquestrava as belas silhuetas femininas. A
    produção foi um tremendo sucesso de crítica e público, o primeiro na franquia a
    superar a marca de um bilhão de dólares pelo mundo, provando que o carisma do
    personagem ainda é capaz de emocionar um público cada vez mais anestesiado.
    James Bond nunca será obsoleto.

    O personagem, enfim, retornou aos moldes, abraçou novamente
    sua fórmula vitoriosa. E sabem o que é mais impressionante? Após cinquenta anos
    e tantos obstáculos vencidos, ele prova que a melhor maneira de atuar ainda é à
    moda antiga.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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