Na Mira de 007: Parte 3 – O Auge da “Bond Mania”

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    007 Contra Goldfinger (Goldfinger, 1964)

    Shirley Bassey entrou para os anais da história cinematográfica cantando “Goldfinger”, sustentando a última nota, detalhe que marcou tanto, que foi emulado na canção seguinte por Tom Jones, e dando o último passo na criação de um mito cinematográfico. Seria a primeira vez que uma cantora daria voz ao belo crédito de abertura idealizado por Maurice Binder. A elegância na interpretação casou de forma perfeita com a abordagem proposta pelos produtores, fazendo com que a música adentrasse o universo pop da época.

    A fama de James Bond percorria a América, mas foi somente em seu terceiro filme que a franquia se consolidou atravessando os quatro continentes. O marketing utilizado foi tão poderoso que ninguém parecia imune ao apelo universal do espião. As crianças agora poderiam carregar Sean Connery desenhado em sua pose emblemática nas suas lancheiras escolares. A “Bond Mania” que tomou os americanos de assalto, somente poderia ser comparada na mesma época ao fenômeno: “The Beatles” (lembrando que Paul McCartney e o produtor George Martin iriam comandar alguns anos depois a trilha sonora de “Viva e Deixe Morrer”).

    Tudo começou quando os empreendedores produtores Albert Broccoli e Harry Saltzman contrataram o diretor Guy Hamilton para substituir Terence Young, que estava indisponível na época. O novo diretor idealizou uma sequência inicial fora do contexto do filme, algo que não era usual na indústria, com o estilo das matinês de aventura nos cinemas, abraçando a literatura pulp. A cena em que o espião sai da água com seu equipamento de mergulho e revela por baixo dele um sofisticado e impecável smoking de paletó branco com um cravo na lapela, tornou-se a personificação exata do personagem. A ideia de Hamilton tornou-se uma tendência muito explorada, de forma cada vez mais inventiva, nos sucessivos filmes da franquia. Outro símbolo de 007 que faz sua estreia neste projeto é o seu automóvel Aston Martin DB5, munido com um assento ejetável, um localizador, muitos anos antes do GPS ser criado, escondido na mala, cortinas de óleo e fumaça, metralhadoras sob os faróis e placas rotativas.

    Terence Young havia sido o responsável pela elegância e charme do protagonista, que recebia sugestões nos sets de filmagem, mas os aspectos mais fantasiosos e criativos foram idealizados por Guy Hamilton. Os fãs dos livros de Ian Fleming, que não apreciam os rumos tomados pela série durante os anos setenta, devem colocar a culpa em alguns excessos cometidos em “Goldfinger”, pois o seu enorme sucesso financeiro levou os produtores a se afastarem cada vez mais da fonte literária. Justiça seja feita, existia ainda uma preocupação em respeitar o material original na adaptação, que transpôs algumas sequências com exatidão de detalhes, como a tensa disputa entre Bond e Auric Goldfinger no campo de golfe.

    Na história, o espião é encarregado de vigiar um magnata que idolatra o ouro, chegando ao cúmulo de ter um Rolls-Royce todo feito à base do minério. Seu ambicioso plano: atacar o Fort Knox e contaminar o conteúdo do reservatório por décadas. Assim, em pouco tempo, seu ouro iria valer muito mais. O megalomaníaco vilão foi interpretado pelo ator alemão Gert Fröbe, um violinista que chegou a integrar durante um tempo o partido nazista, o que o levou a ter dificuldades em sua carreira. O caso foi atenuado devido ao salvamento de dois judeus durante a Segunda Guerra. O seu fiel (e mudo) segurança e motorista particular prova-se uma imponente ameaça, vencida pelo intelecto superior do herói, não pela força física: Oddjob e seu chapéu preto com aba de aço, capaz de dividir ao meio uma estátua. O misterioso personagem foi interpretado por um medalhista de ouro em levantamento de peso e mestre em Karatê, chamado Harold Sakata.

    A Bond Girl neste filme foi talvez a mais fria de todas: Pussy Galore (que com seu sugestivo nome atordoa o herói, numa breve e hilária cena nascida de um improviso do ator) pilota o avião particular do vilão e em nenhum momento esconde sua homossexualidade, acreditando ser imune aos galanteios do espião (claro que por pouco tempo). A atriz inglesa Honor Blackman fez fama com este papel e também estrelou a popular série “Os Vingadores”. Duas outras belas mulheres atravessam o caminho de 007 no filme, porém apenas uma teve a sorte de ser imortalizada no cânone da franquia, protagonizando uma das cenas mais incríveis da série.Shirley Eaton interpretou Jill Masterson, a secretária de Goldfinger que é assassinada da maneira mais cruel possível: por asfixia, ao ter seu corpo todo pintado com tinta dourada. A emblemática imagem estampou praticamente todos os materiais de marketing.

    A longa perseguição de carros, onde o espião mostra todo o potencial bélico de seu Aston Martin é o ponto alto do filme, com uma magistral edição de Peter Hunt, que viria a dirigir alguns anos depois “A Serviço Secreto de sua Majestade”. O projeto, pleno em criatividade e escapismo foi um sucesso de público, havendo custado 2,5 milhões e arrecadado por volta de 125 milhões: cinquenta vezes mais no mundo todo.


    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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