Sétima Arte em Cenas – “O Espírito da Colmeia”

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    O Espírito da Colmeia” (El Espíritu de La Colmena
    – 1973
    ) surpreende por ser o primeiro trabalho de um jovem diretor,
    demonstrando incrível coragem e confiança em seu talento. Victor Erice
    trabalhava como crítico de cinema para o jornal espanhol “Nuestro Cine”
    e já havia experimentado com alguns curtas, mas nada que revelasse que ele
    seria o criador desta obra-prima de poesia visual, que continua encantando o
    público, mesmo após 40 anos de sua primeira exibição.

    No ano do filme, o regime de Franco já estava se
    deteriorando (dois anos restavam para seu fim) e a democracia já se prenunciava
    no horizonte esperançoso do povo. Como sempre ocorre em tempos de censura, a
    Arte se mostrava a única com coragem o suficiente para enfrentá-la e
    enfraquecê-la, tornando-a um alvo de piadas em várias alegorias criativas, como
    Buñuel, em “Viridiana”, de 1962. Uma nova geração de cineastas,
    motivada pelo desejo de enfrentar o regime opressor (por vezes, a única forma
    de uma sociedade sair da comodidade, se unir e buscar o aprimoramento), tomou a
    linha de frente na batalha. Entre nomes como Carlos Saura e Jose Luis Borau,
    estava o jovem Victor Erice, talvez, o que conseguiu criar a alegoria mais
    contundente e eficiente. Logo nos primeiros momentos de seu “conto de
    fadas”, um letreiro informa: “Era uma vez…”, nos conduzindo
    exatamente a 1940, onde o regime (iniciado em 1936) se instaurava na nação, com
    a censura já se mostrando de forma explícita.A colmeia representando a
    sociedade espanhola da época, que escondia por trás de uma superficial união, a
    distância abissal entre os indivíduos que a compunham. Percebam a
    arquitetura das janelas de vidro amarelo na mansão de Fernando, deixando claro
    se tratar de uma metafórica colmeia. O local apático, onde apenas a exibição
    de um improvisado cinema local, consegue trazer alguma emoção aos moradores. A
    fantasia, evocada pela presença do clássico monstro de
    “Frankenstein” (outra metáfora política) faz com que a pequena Ana (Ana
    Torrent, que faria anos depois “Cría Cuervos”) se entregue a um mundo
    de ilimitadas possibilidades criativas, onde a ilusão e a realidade frequentemente
    se misturam, tornando-se indistinguíveis, algo comum na mente de uma criança.
    O que nos leva à cena que considero a melhor da obra.

    Após sua irmã Isabel tê-la garantido que tudo o que se
    assiste nos filmes é um truque, Ana escuta um barulho e corre para ver o que
    era. No quarto próximo, sua irmã se encontra imóvel deitada no chão, com o
    ambiente demonstrando ter sido perturbado por forças externas. Ela suspende os
    braços da irmã, tentando acordá-la, mas nada surte efeito. Ana então decide
    sair do quarto e pegá-la em flagrante, quando achasse que não estivesse sendo
    vista. O que acontece na sequência, aliado ao breve momento posterior, onde a
    cama de Ana é vista ao lado de outra, demonstrando não estar sendo utilizada há
    muito tempo, são apenas alguns elementos que enriquecem as múltiplas
    interpretações possíveis, neste enigmático trabalho que serviu de inspiração
    para Guillermo Del Toro e seu “O Labirinto do Fauno”.


    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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