Tesouros da Sétima Arte – “Aniki Bobó”

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    Aniki Bóbó (1942)

    O diretor Manoel de Oliveira já recebeu muitas críticas por sua estima pelos planos longos, presentes em praticamente todas as suas obras. Seus detratores argumentam que o cinema é a arte do movimento, não uma colagem de fotos fixas. Com bom humor, o cineasta afirma que seus planos longos não são fotos, nestes planos fixos pode haver muito movimento. Mais conhecido nos dias de hoje por sua notável longevidade (já passou dos cem anos e continua trabalhando), seu aguçado olhar cinematográfico lhe garantiu o posto de símbolo da Sétima Arte portuguesa. Dentre todos os filmes de sua carreira, o meu favorito é “Aniki Bóbó”, seu primeiro longa-metragem de ficção e injustamente muito pouco conhecido (até mesmo em seu país).

    Outro português brilhante chamado Fernando Pessoa, disse certa vez que “nenhum livro infantil deveria ser escrito para crianças”. O mesmo pode ser dito sobre o cinema. Raramente os estúdios realizam filmes direcionados ao público infantil com inteligência e requinte, pois acreditam que basta colocar um diretor incompetente na linha de frente, muita cor e um mínimo de ideias criativas para que se conquiste a atenção das crianças e o dinheiro dos adultos. Não é sempre que obras belas como o húngaro “Os Meninos da Rua Paulo” e o americano “Conta Comigo” aportam nas salas de cinema. Com “Aniki Bóbó”, Manoel de Oliveira criou um conto poético que pode ser visto como um equivalente cinematográfico da obra literária “O Pequeno Príncipe” de Saint-Exupéry, além de ser ótimo como instrumento para uma primeira apreciação de seu trabalho, por ser simples e bem objetivo. Meu conselho para os que gostarem deste: não deixem de assistir também “A Divina Comédia” (1991) e o interessante “A Caixa” (1994), para se apaixonarem de vez pelo estilo do diretor.

    A história do filme é baseada no conto “Os meninos milionários”, de João Rodrigues de Freitas e conta as aventuras de um grupo de crianças portuguesas, seus primeiros amores e frustrações. Interessante notar certa semelhança entre o olhar lírico sobre a infância de Oliveira e compará-lo ao do francês François Truffaut em seu majestoso “Os Incompreendidos”, realizado dezessete anos depois. Sinceramente creio que a obra de Oliveira influenciou a de Truffaut, sendo precursora inclusive do movimento neo-realista.

    Dentre minhas várias cenas favoritas, está uma logo no início, em que o rabugento professor da escola não percebe que um gato passeia pelo umbral da janela, fazendo com que a turma toda se agite. Tentando botar ordem no recinto, ele berra sem sucesso, somente quando esmurra sua mesa pedindo silêncio é que o gato se assusta e foge, levando as crianças a expressarem tristeza num suspirar. Outra cena cômica que ainda hoje provoca risadas é a em que o dono de uma loja (vivido pelo fantástico Nascimento Fernandes, que iniciou sua carreira atuando no Brasil), após irritar-se com uma criança que havia lhe chamado de girafa, esbofeteia seu auxiliar. Assustado o jovem lhe questiona a razão, no que o homem responde: “Não posso bater nos fregueses!”. Uma cena simples, mas com um ritmo perfeito e que se torna mais engraçada que no papel. Outra que não dura mais que alguns segundos, mas que me encanta, quando o trio de protagonistas infantis para em frente de uma vitrine da mesma loja (nomeada adequadamente como “Loja das Tentações”) e admiram uma boneca. Existe uma poesia nestes poucos segundos, que só vendo para entender.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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