Trilogia do Silêncio: “Luz de Inverno”

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    Luz de Inverno (Nattvardsgästerna – 1962)

    Os primeiros quinze minutos apresentam de forma lenta (com
    humor até) os rituais que são levados em prática durante uma missa católica. O
    homem que a conduz (Gunnar Björnstrand) não consegue esconder na autoridade de
    sua batina o profundo desequilíbrio emocional que está sentindo. Tendo como
    testemunha silenciosa uma imagem de Jesus crucificado (propositalmente em uma
    versão imageticamente angustiante), seu corpo refaz mecanicamente os movimentos
    que decorou nos anos de prática, seus lábios ditam sem emoção as palavras que
    compõem um roteiro apático, mas seu rosto deixa transparecer o questionamento
    essencial, porém trágico para alguém em sua posição: qual a razão para tudo
    isto?

    O cansado pianista lê um livro enquanto não se faz requisitada
    sua presença na cerimônia. Cada pilar desta construção ideológica parece estar
    ruindo rapidamente. Um pescador simples (vivido por Max Von Sydow) busca seu
    líder espiritual procurando conforto, amedrontado pela possibilidade de um
    apocalipse (ele leu no jornal que a China possui armas nucleares), mas encontra
    apenas um fantoche vazio, preso em seu próprio estafante ritual, sem
    expectativa de redenção. O pobre pescador intenciona acabar com sua vida, mas o
    padre (em uma conversa com ele) percebe que já cometeu um suicídio em vida,
    entregando-se à amargura e crenças que não o satisfazem.

    O título em sua tradução correta evidencia a objetividade de
    Bergman: “Holy Communion” (Comunhão Sagrada), enquanto o desfecho
    demonstra sua ideologia. Como um ateu questionador, respeitava a necessidade
    daqueles que abdicam de uma existência de exploração, escolhendo o confortante
    hábito inerente aos rituais religiosos (o ateu não rejeita o conceito de
    “Deus”, apenas rejeita aqueles que lucram financeira ou politicamente,
    buscando intermediar uma relação que não necessita de templos ou oferendas). O
    padre ao final continua realizando aquele ritual (com o auxílio do cansado
    pianista e do amável corcunda encarregado de acender as velas e tocar os sinos),
    mesmo não acreditando em uma palavra do que diz, enfrentando uma igreja vazia.
    Sua motivação (retornando o tema do filme anterior) é disseminar o amor, pois
    “uma pessoa envolta por amor é também envolta por Deus”.


    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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