Woody Allen – Manhattan

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    Essa noite tive um sonho dos mais esquisitos e quero
    compartilhá-lo com meus queridos leitores. Um homem vestido de mestre-sala de
    escola de samba pulava amarelinha no meio da rua, enquanto o sinal de trânsito
    estava vermelho. Ao primeiro sinal das buzinas dos impacientes motoristas, ele
    se desculpava com extrema mesura e caminhava ao encontro de uma anã vestida de
    freira, que o abraçava feliz, como se não o visse há meses. Na quarta vez que
    o mesmo ritual ocorreu, o homem veio em minha direção antes de retornar para o
    centro da rua. Com uma expressão de incrível seriedade, ele me perguntou se eu
    não estava nem um pouco abalado com aquela cena. Eu respondi que nunca tinha
    visto nada parecido com aquilo, que parecia um sonho bizarro e sem nenhum
    sentido. Ele sorriu, pousou as mãos em meus ombros e, olhando fundo em meus
    olhos, disse: “O melhor que pode fazer é ficar olhando?”.

    Então, como se fossem canais sendo trocados rapidamente pelo
    controle remoto da televisão, várias imagens tomaram forma. Eu consegui reter
    relances, como três freiras anãs, inclusive, aquela que abraçava o mestre-sala, saltando aLa Quebradade Acapulco, e uma mulher chorando a morte de
    alguém em um programa de TV, mas abrindo um sorriso segundos depois, enquanto
    vendia uma máquina dewaffle. Estava agora em outro ambiente, um tipo de
    realidade alternativa, onde artistas bons e talentosos não tinham espaço na
    mídia, mas onde personagens grosseiramente burlescos dançavam seminus, e
    criminosos compravam os horários nobres da programação televisiva. Eu assistia
    debates sobre mauricinhos estúpidos que haviam saído de uma mansão, onde
    sofriam confinados, dançando no ar-condicionado. No momento em que começaram a
    tocar as músicas mais populares, percebi que nelas os cantores citavam seus
    próprios nomes como parte das letras, que, de tão simplórias, não requisitavam
    sequer o curso primário de seus fãs. Não suportei mais e abri os olhos. Ainda
    bem que era só um pesadelo.

    Após uma noite conturbada dessas, não havia nada melhor para
    me acalmar, que me focar em meus treinos com o clarinete. Estou praticando
    diariamente há uns oito meses e já consigo assoprar e trocar os dedos nos
    orifícios ao mesmo tempo. Quem sabe meus netos ainda me escutem tocando “Parabéns
    para Você”. É mais provável que eu desista nos próximos meses e acabe
    optando por algo mais desafiador, como um oboé, ou, quiçá, uma flauta-doce. Quem
    sabe eu deva desistir de minha carreira no jazz e aceitar o triste fato de que
    não possuo nenhuma coordenação motora, partindo para a carreira mais rentável
    do país: pastor evangélico. Foi exatamente o que tentei nessa tarde.

    Não existe nada melhor, pois você pode fazer o que quiser,
    dizer o que quiser, não importa quem esteja ofendendo, ganhar espaço na televisão
    e, se completar a meta mensal, ganha uma excelente comissão. Comecei a pregar
    nas ruas, para checar meu poder de persuasão e saber se valeria a pena o
    investimento. Não é difícil, basta não ter vergonha na cara, elevar a voz e torná-la
    levemente cantada, lendo trechos aleatórios da Bíblia, fora de contexto, e sempre
    enfatizando a necessidade da oferta. Não demorou nem dez minutos para um jovem
    me abordar. Ele disse que estava decepcionado com todas as crenças. O que mais
    o havia desanimado era uma recente experiência com uma regressão. O jovem
    acreditava firmemente que havia sido um valoroso centurião romano em vidas
    passadas, mas descobriu que sua participação mais digna de menção havia sido na
    sua encarnação anterior, como figurante na novela “Selva de Pedra”. Consegui
    com inelutável lábia, fazê-lo acreditar que um salmo, escolhido a esmo, de um
    dos apóstolos, cabia perfeitamente naquele seu problema, pouco antes de
    perguntar se ele iria fazer sua oferta em dinheiro ou cartão.

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    Voltando para casa, tarde da noite, após meu dia de serviço
    comocoverde pastor evangélico, passei por uma rua que me chamou a
    atenção. Sentada na beira da calçada, uma freira anã contava suas moedas,
    enquanto, à sua frente, um homem vestido de mestre-sala de escola de samba,
    gesticulava pedindo paciência aos carros que buzinavam. Ele iniciou seus
    pulinhos seguindo riscos imaginários no asfalto, enquanto eu, envergonhado, corria pela sombra e buscava chegar logo em casa. Já pensou se eles me vissem e
    imaginassem o que eu tinha feito naquela tarde? Tudo, menos isso!

    VOCÊ PRECISA TER UM POUCO DE FÉ NAS PESSOAS, CARO ESCRIBA.
    UM HOMEM CARISMÁTICO PODIA INFLUENCIAR UMA NAÇÃO A FAZER COISAS HORRÍVEIS NO
    PASSADO, MAS VIVEMOS HOJE NA ERA DA INFORMAÇÃO GLOBALIZADA. A PESSOA PRECISA
    SER MUITO ESTÚPIDA PARA CAIR EM CONTOS DO VIGÁRIO… – ASS: SALES, O INGÊNUO,
    PRIMO POBRE DE SILAS, O ESPERTO

    Manhattan (1979)

    Um escritor de meia-idade divorciado (Woody Allen) se sente
    em uma situação constrangedora onde sua ex-mulher o largou para ficar com outra
    mulher e, além disso, está para publicar um livro, no qual revela assuntos
    muito particulares do relacionamento deles. Neste período ele está apaixonado
    por uma jovem de 17 anos (Mariel Hemingway), que corresponde a este amor. No
    entanto, ele sente-se atraído por uma pessoa mais madura, a amante do seu
    melhor amigo, que é casado.

    O melhor trabalho de Woody como ator. Essa obra representa o fechamento do primeiro ciclo na
    carreira de Allen, após alcançar o molde perfeito com “Annie Hall” e se arriscar em seu
    primeiro drama, com “Interiores”. “Manhattan” é a junção
    perfeita de drama, romance e comédia, sendo o pioneiro no que muitos chamam de
    “Fórmula Woody”. Desde o início, ao som de “Rhapsody in Blue”, de Gershwin, emoldurando imagens da cidade, até o excelente diálogo final
    entre Woody e Mariel, onde ele descobre ser menos maduro que ela, encontramos
    um escritor confiante e em seu auge criativo. A fotografia em preto e branco de
    Gordon Willis, que afirmou ter sido este o seu melhor filme, concede ainda mais
    elegância ao projeto, incluindo a icônica cena da conversa junto à ponte
    Queensboro e o uso das sombras na conversa no planetário. A forma como Mariel
    se porta, sua naturalidade ao confrontar-se com Diane Keaton, quando ela
    pergunta sobre a ocupação da jovem, que responde: “vou à escola”, e sua
    latente admiração pelo homem mais velho e de gosto refinado, fazem com que um
    tema complicado, a diferença de idade no casal, soe extremamente natural. O texto
    é ótimo, coescrito por Marshall Brickman, repetindo a parceria de “O
    Dorminhoco” e “Annie Hall”, mas quem rouba o show é Mariel (e
    quando Meryl Streep está no mesmo elenco, isso é dizer muito).

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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