Os Goonies (The Goonies – 1985)

Os Goonies encontram um misterioso mapa do tesouro e começam a seguir as pistas, entrando em um fabuloso mundo subterrâneo de passagens secretas, perigosas armadilhas e um antigo galeão pirata que esconde moedas de ouro.

Uma das primeiras coisas que notamos ao revisitar o filme nesses tempos medíocres da ditadura do politicamente correto é sua coragem. Só nos primeiros 30 minutos já somos levados às gargalhadas com pelo menos dois momentos impagáveis, que nunca teriam sobrevivido na pós-produção de um projeto infanto-juvenil mainstream atual.

A tentativa desastrada de consertar uma pequena estátua do Davi de Michelangelo quebrada, resultando em uma hilária “ereção”, o que leva uma das crianças a reclamar: “Era a parte favorita da minha mãe”. Piada fantástica que passa batida pela percepção do público infantil, num dos vários exemplos de inteligência do roteiro.

E o que dizer dos conselhos do pequeno Corey Feldman à empregada latina? Fingindo traduzir as regras da patroa, o roteiro (de Chris Columbus, baseado em história de Steven Spielberg) faz o menino defender um diálogo que menciona maconha, heroína e cocaína, escandalizando a pobre mulher. Parece bobeira, mas duvido que um produtor se arrisque da mesma forma hoje em dia. Mas não é só a coragem que engrandece esse filme. Mesmo excluindo o fator da nostalgia de quem assistiu quando criança, ele ainda se sustenta incrivelmente bem como um entretenimento emocionante, mérito especial do versátil diretor Richard Donner.

goonies 2 - "Os Goonies", de Richard Donner, na NETFLIX

Não conheço nenhum outro filme infanto-juvenil que trabalhe tão bem o tema clássico do companheirismo e do trabalho em equipe. Quando somos crianças, conceitos como honra e lealdade são prioridades. A pena é que crescemos e, em muitos casos, a ambição acaba atuando contra o caráter. O grupo que vemos compartilha uma amizade crível, ainda que ele seja encaminhado para uma odisseia fantasiosa. Ao longo do filme, nossa criança interior acaba se sentindo parte da equipe. Quem não desejou ter um pai como o do pequeno inventor Data (Ke Huy Quan), que numa cena especialmente emocionante afirma que o menino havia sido sua melhor invenção? E quem não formou na infância um grupo como os “Goonies”?

Não procurávamos tesouros de piratas, mas fazíamos de pequenos e insignificantes eventos, espetaculares aventuras. Ao final do dia, tanto eles quanto nós descobrimos que o mais importante na vida não é encontrar o “tesouro”, mas os percalços da jornada. E acima de tudo, os laços de amizade. O objetivo principal dos garotos era salvar o lar, o local onde eles compartilharam sonhos e frustrações, sorrisos e lágrimas; o símbolo máximo do amor que cada indivíduo da equipe nutre pelos amigos e pelo ideal em comum. Evitando a separação, agarram-se aos sonhos da infância, como bem representado no lindo abraço coletivo no desfecho na praia. Melancólicos, assistem à distância o símbolo de tudo o que irão gradativamente perder com a maturidade.

Normalmente os textos que abordam o filme focam no grupo de aventureiros, mas o elemento que sempre me leva de volta no tempo é Sloth (John Matuszak). O arco narrativo dele é fascinante. Inicialmente mostrado como um enigma monstruoso a ser temido, acaba se revelando um sonhador gentil. Preso e afastado de qualquer ser humano, sua única forma de interagir é pelo entretenimento que vê na televisão. Como é bonito constatar que ele veste uma camiseta do Superman, um símbolo de valores íntegros, como se o personagem fosse o responsável lúdico pela preservação de sua sanidade enquanto prisioneiro maltratado.

A arte como ferramenta que inspira e reforça o caráter. Uma criança pura em um corpo bruto e deformado, que encontrará identificação imediata no desejo exploratório das crianças. Ele se torna um herói por encontrar no sorriso sincero dos “Goonies” o reflexo da criança que ele poderia ter sido.

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Viva você também este sonho...

1 COMENTÁRIO

  1. Eu realmente me emociono lendo algum texto que destaque os pontos edificantes (e são muito) dessa obra-prima infanto-juvenil! Amizade, lealdade, união, superação, perseverança, até a descoberta do "primeiro amor/primeiro beijo"… ta tudo lá.

    E Octavio, além das duas perfeitas cenas descritas por você como ousadas e corajosas (concordo mesmo que sejam, e que hoje teriam ficado na sala de edição!!!), ainda menciono o risco de terem colocado um personagem visualmente monstruoso (como é o Sloth) para transformá-lo num bondoso e heróico personagem… se já não bastasse a camisa do Superman, como bem lembrado um símbolo do altruísmo e bondade (além de ter sido o filme anterior do Donner tb, rs), Sloth é um ponto motivador de QUEBRA DE PRECONCEITO… o feio sendo bonito por atos (Sloth), o estranho sendo aceito (ET), o deslocado sendo popular (Ferris Bueller); elementos que são valiosíssimos até hoje nos filmes infanto-juvenis, mas que foram explorados com perfeição nos filmes dos anos 80.

    Enfim, quando Mickey encontra Willie-Caolho, o choro do menino representa aquilo que a maioria das crianças acaba perdendo pelo meio do caminho: a CRENÇA NOS SEUS PRÓPRIOS SONHOS. Mickey acreditou, Mickey formou "Os Goonies" e Mickey os levou até lá… Mickey buscou seu sonho até o fim. Se os garotos ficarão juntos até a velhice, ninguém sabe, mas que essa aventura marcou o caráter de cada um deles para sempre, disso ninguém terá mais dúvida!

    Grande abraço, Octavio, e eu sempre me empolgo nessa sua seção (como pode perceber, rs).

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