Rompendo o Véu da Sociedade

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    Como sempre critico a homofobia e me posiciono fortemente
    contra o retrocesso promovido pela bancada evangélica na nossa política, recebo
    mensagens, até bastante respeitosas, questionando minha “opção
    sexual”. Na lógica preconceituosa dessas pessoas, somente os homossexuais
    defendem os homossexuais. A triste
    realidade é que, basta uma busca rápida virtual, para captar mensagens de ódio
    contra os homossexuais. O anonimato facilita para que a ignorância seja
    expressa sem medo, enquanto disfarçada no dia a dia.

    Na cultura brasileira o preconceito pode ser traçado desde a
    infância. Os pais contam piadas com “bichinhas” para o filho pequeno.
    O pré-adolescente acaba sendo levado a fugir de qualquer associação com aquele
    coleguinha que parece afeminado (muitas vezes, nem é homossexual). Com sorte, o
    rapaz busca informar-se, evoluindo seu intelecto e percebendo que a
    homossexualidade (assim como qualquer variação, bissexualidade, assexualidade
    etc.) não é sequer algo anormal. Ela é constatada em cerca de mil espécies
    animais. Também não é um fenômeno contemporâneo (acreditem, muitos pensam dessa
    forma: “na minha época não tinha tanto viado”), que o diga a poetisa
    Safo (nascida em 625 a.C, em Lesbos, na Grécia), que buscava inspiração em suas
    relações amorosas com as jovens gregas. Existem registros que nos remetem a
    12.000 a.C, ainda na Era Paleolítica, em pinturas de caverna. Em muitas
    culturas, a homossexualidade era algo a ser admirado, como no Japão
    pré-moderno, onde era recomendado ao adolescente que tivesse relações sexuais
    com um experiente guerreiro samurai.

    Grande parte da culpa pelo preconceito nos países latinos
    pode ser colocada nos ombros do Cristianismo, que condena a relação homoafetiva
    como sendo um pecado. O mesmo Cristianismo que historicamente reprime as mulheres,
    posicionando-as como submissas aos homens. As mulheres brasileiras que
    repreendem seus maridos em casa, que compram joias ou que acordam cedo para
    trabalhar, precisam saber que estão indo contra todos os ditames cristãos,
    sendo pecadoras do tipo mais execrável, que nunca irão para o “reino dos
    céus”. Absurdo, certo? Pois é. Mas esse mesmo radicalismo, que com relação
    às mulheres foi convenientemente esquecido pelas religiosas, continua atuando
    fortemente contra os homossexuais.

    A homossexualidade é uma característica genética. Já Freud,
    dizia que nascemos bissexuais e somos “conduzidos” à monossexualidade
    pelo desenvolvimento psicológico. Estudos continuam sendo realizados por
    cientistas do mundo todo. Com toda certeza não é uma opção. Você acorda e
    “fica” homossexual, para depois da janta escolher “ficar”
    heterossexual. Esse argumento tolo é utilizado por aqueles mais
    preconceituosos, por vezes escondendo uma arraigada negação (enrustidos) com
    uma obsessão temática. Quem, em uma sociedade ignorante e homofóbica, optaria
    conscientemente em ser o alvo de ofensas diárias? A homossexualidade não é uma
    doença, não pode ser “curada”, “reorientada” ou
    “amenizada” com tratamentos psicológicos. A desestigmatização é a
    única ação que deve ser alimentada. O respeito e o entendimento sem dogmas
    religiosos.

    Segue a longa resposta que sempre envio para aqueles que
    elegantemente questionam minha identidade sexual, os grosseiros eu nem
    respondo: “Sou destro. Escrevo com a mão direita, confortavelmente e com
    precisão. Não consigo discernir o momento na minha infância em que percebi ser
    destro. Escrever com a mão direita sempre foi algo natural. Sei que, caso
    precisasse, utilizaria a mão esquerda, mas teria que treinar bastante para que
    parecesse ser canhoto de nascimento. Entendo que a mesma dificuldade atingiria
    um canhoto que quisesse se passar por destro. Antigamente era considerado algo
    ruim ser canhoto, o que fazia com que os professores e pais prendessem as mãos
    das crianças, para forçá-las a escrever com a “mão certa”,
    forçando-as violentamente contra sua natureza. Destros, canhotos e ambidestros
    são iguais perante a grandeza e a fragilidade de ser humano. Ser destro,
    canhoto ou ambidestro, não possui relação alguma com a índole e o caráter da
    pessoa. Mas como sei que busca uma resposta simples, vulgar: Sou heterossexual,
    sinto atração por mulheres”. Normalmente não me respondem, mas
    provavelmente eles se preocuparam em ler apenas a linha final. Aqueles que se
    escravizam em seus preconceitos, não estão interessados em entender ou aceitar,
    apenas em enfileirar as vítimas em seu paredão de ódio.

    Minha Vida em Cor-de-Rosa (Ma Vie en Rose – 1997)

    Um ótimo filme que aborda o tema, que faço questão de
    recomendar: “Minha Vida em Cor-de-Rosa”. A
    primeira sequência do filme já expõe o leitmotiv que conduz a sensível trama.
    Enquanto os pais de Jerome escondem ritualisticamente em seus uniformes diários
    a ausência do calor que outrora havia em seu relacionamento, os pais de Ludovic
    se entregam à vida naturalmente e com real paixão, com o diretor de arte expondo
    claramente o contraste na paleta de cores que emolduram as cenas. O primeiro
    momento em que realmente vemos o menino, somos levados a sentir o mesmo choque
    que seus pais, pois ele está usando o vestido de princesa de sua irmã. Seu pai,
    temeroso pelo julgamento cruel da sociedade, limita sua corajosa atitude a uma
    brincadeira inconsequente. Sua mãe corre para fazê-lo retirar com água fria a
    maquiagem de seu rosto. No rosto da criança, a apatia dos que sofrem
    diariamente com a ignorância daqueles que deveriam ser mais inteligentes, por
    terem mais experiência de vida.

    Ludovic não sabe ainda que o ser humano é uma espécie muito
    pouco evoluída, escrava de crenças em seres imortais, anjos, demônios e feitos
    miraculosos, porém incapazes de simplesmente aceitar uma condição natural que
    compartilhamos com várias espécies (mais de 1.500, para ser mais exato) do
    reino animal: a homossexualidade. A religiosidade, sempre caracterizada pelo
    domínio do homem sobre a mulher, desde a lenda de Adão e Eva, vista como a
    causadora de todos os males, estabeleceu fortemente sua presença na sociedade,
    como uma triste mancha na História, formando gerações de machistas ignorantes e
    mulheres sexualmente reprimidas. A absurda noção do pecado, camuflando
    hipocritamente qualquer desejo sob um véu de pureza, que se rompe assim que o
    autoproclamado santo se tranca na solidão de seus pensamentos. A ilusão de que
    se alcança o divino pelo ato da castidade, ignorando que, caso exista, ele
    perceberia os instintos naturais que não se podem domar.

    O diretor belga Alain Berliner, com o roteirista Chris
    Vander Stappen, demonstrou extrema coragem já em seu primeiro trabalho,
    evitando os estereótipos e focando-se na inteligente afirmação de que somos
    todos iguais, diferenciando-se de muitos outros projetos de temática similar,
    que equivocadamente, ainda que superficialmente bem-intencionados, deixam
    implícito que Deus é tão gentil que até permite homossexuais no quintal de seu
    paraíso. Ludovic queria apenas externar a autoimagem que o fazia se sentir
    confortável, algo desafiador em uma sociedade onde tantos utilizam máscaras
    diárias.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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