“O Evangelho Segundo São Mateus”, de Pasolini

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    O Evangelho Segundo São Mateus (Il Vangelo SecondoMatteo
    – 1964)

    A mulher que chora desesperada ao testemunhar a crucificação
    do filho, na cena mais bonita do filme, é a mãe do diretor Pier Paolo Pasolini.
    Seu filho caçula na vida real, um jovem idealista, havia sido assassinado em
    1945 por titistas num conflito entre dois grupos de partigiani. O registro
    eterno de sua dor somente mantém sua contundência visual por resgatar uma
    emoção real. E o sentimento genuíno é abraçado pela usual opção do
    poeta/diretor pelo naturalismo, utilizando pessoas do povo no elenco, cujos
    rostos castigados são procurados pela câmera com o afã de um arqueólogo, como
    que buscando extrair de cada vinco a intenção que nenhuma linha de roteiro
    poderia criar.

    O Jesus de Pasolini, convicto ateu, perturba os líderes de
    sua época, destruindo-os em longas batalhas argumentativas. Ele é corajoso,
    firme, porém terno, mas sempre consciente da força de seus atos. Em uma mudança
    de atitude radical, quando comparado a outros filmes no mesmo tema, o
    protagonista vivido pelo espanhol Enrique Irazoqui é um revolucionário
    desarmado que faz tremer mais por suas palavras do que por seus feitos
    miraculosos, que são filmados até com indiferença, como se ele os utilizasse
    apenas para capturar a atenção daquele povo ignorante, na esperança de fazê-los
    entender sua mensagem. E esse conceito realista se reflete no cenário escolhido
    pela produção. Quando analisamos o contexto do cinema italiano da época, com o
    sucesso dos extravagantes épicos “sandália e espada” realizados nos estúdios da
    Cinecittà, torna-se ainda mais ousada a opção do diretor por caminhar na
    contramão, apostando em um projeto rodado todo em locações reais, onde a dura ação
    do tempo cria um espetáculo visual de ruínas em labirínticas cidades.

    O sermão da montanha, visualizado numa série de jump cuts, atravessando
    noite e dia, chuva e sol, nunca foi retratado de forma tão ideologicamente impactante.
    E impactar era o desejo principal do diretor, que escolheu unir em sua trilha
    sonora hinos tradicionais gospel, como “Sometimes i feel like a motherless
    child
    ” (algumas vezes me sinto como um órfão), com instrumentos tribais
    africanos, na versão da Missa Latina. É interessante perceber o impacto que o breve
    encontro com o Papa João XXIII, dois anos antes, surtiu no autor ateu, que
    acabou dedicando a obra ao líder religioso. Sua escolha por manter fidelidade
    total ao texto do evangelho é parte da crítica que ele insere, já que isso realça
    em vários momentos o quão metafóricos são alguns dos eventos relatados. O
    roteiro evidencia o aspecto anárquico do homem que a História manipulou com
    interesses escusos. Ele expõe em seus discursos uma antítese do que os sacerdotes
    vêm realizando em seu nome ao longo dos séculos, com clara denúncia aos males
    de uma vida controlada por dogmas.

    ***

    O filme está sendo lançado pela distribuidora “Versátil” em
    DVD e Blu-ray, com imagens restauradas e extras espetaculares, como dois
    documentários sobre o diretor. Filme essencial na coleção de todo cinéfilo que
    se preze.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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