“The Rocky Horror Picture Show”, de Jim Sharman

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The Rocky Horror Picture Show (1975)

“Não sonhe, seja!”

Sempre que revejo o filme eu fico surpreso com a audácia do roteiro de Richard O’Brien (que interpreta o corcunda Riff Raff), seu desprezo por todas as convenções dos gêneros que homenageia, como os filmes B de ficção científica e terror, resultando em uma experiência sensorial única. Você pode terminar a sessão sem ter entendido absolutamente nada, confuso como se tivesse sido acordado de um sonho exótico.

E acredito que seja essa sensação de desorientação que defina o projeto, mais do que a qualidade questionável de suas canções ou o subtexto que confronta o glam rock de músicos como David Bowie, com os roqueiros da década de 50, com brilhantina nos cabelos e certa ingenuidade em sua rebeldia. A cena em que Frank N’ Furter, vivido por Tim Curry, persegue o personagem de Meat Loaf com um machado, expressa sem sutileza alguma essa simbologia da “passagem de bastão”.

Eddie, com sua jaqueta de couro, topete e motocicleta, havia sido liberado de sua criogenia por acidente, deslocado nesse novo mundo, mas acaba encontrando a finitude pelas mãos de Frank. Como se já não bastasse esse desfecho sangrento para o intérprete de “Hot Patootie – Bless My Soul”, seu corpo ainda servirá de alimento no jantar. Uma curiosidade interessante é que, nessa cena, nenhum dos atores sabia que o corpo estava escondido abaixo do pano da mesa, fazendo com que eles reagissem naturalmente assustados no momento da revelação.

De certa forma, podemos enxergar essa obra como uma versão sem metáforas de praticamente todos os grandes clássicos de terror. Em “Drácula”, por exemplo, o ato de sugar o sangue servia como uma metáfora para o ato romântico. Seguindo esse raciocínio, podemos imaginar o casal extremamente ingênuo formado por Brad (Barry Bostwick) e Janet (Susan Sarandon), como sendo representativos daquela sociedade reprimida em que “Drácula” foi elaborado. Frank e seus amigos representam o elemento liberador.

Na época em que foi lançado, o preconceito aos homossexuais e sua busca por direitos era um problema social grave, assim como a repressão nas mulheres em uma sociedade machista. Imaginem vocês o impacto de cenas corajosas como a de Curry revelando-se como um “sweet transvestite” (doce travesti) ou o encontro de Janet com a marombada criatura da noite, vivida por Peter Hinwood, em que ela se mostra feliz por finalmente aceitar seus desejos.

Como não rir nas cenas em que Curry, impagável, ilude o casal para que passem a noite com ele? Ambos, após descobrirem a real identidade do visitante noturno, acabam aceitando a sedução, mas somente após Frank prometer não contar nada para aquele que está sendo traído. Nesta brincadeira, o roteiro aponta o dedo para a hipocrisia humana e questiona o conceito de imoralidade.

E, chegando ao final, percebemos que o radicalismo também cobra seu preço, quando todos os personagens acabam sendo padronizados à semelhança de seu “criador”, que alcançou um estado incontrolável de decadência. Claro, tudo isso em uma cena que remete aos musicais de Busby Berkeley, com Frank numa piscina simbolicamente se posicionando como a ligação entre Deus e o Homem, sobre uma boia salva vidas do RMS Titanic.

Ao final, Brad e Janet irão renascer livres de seus preconceitos e medos, sendo reinseridos na sociedade como bebês engatinhando com dificuldade.

Acompanhe as instruções do criminologista (Charles Gray) e faça o “Time Warp”, sempre que o mundo parecer chato demais.

Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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