“Mamma Roma”, de Pasolini

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    Mamma Roma (1962)

    A inesquecível Anna Magnani vive Mamma Roma, uma prostituta
    que sonha em mudar de vida e de classe social, para poder voltar a viver com
    Ettore, seu filho adolescente. Para isso, ela decide economizar dinheiro.
    Infelizmente, a realidade coloca muitos obstáculos em seu caminho.

    O ciclo do Neo-Realismo italiano já estava em uma fase
    transitória, quando Anna Magnani, considerando genial o filme de estreia de
    Pasolini: “Accattone – Desajuste Social”, decidiu entrar em contato com o diretor e
    mostrar seu interesse em protagonizar seu próximo projeto. Em seu segundo
    filme, já com total controle criativo, o poeta italiano demonstrou tremenda
    confiança e competência. A interpretação histriônica de Magnani concede o poder
    emocional, fornecendo a moldura perfeita para que Pasolini exercite seu já
    reconhecível (à época) estilo visual, unido à sua verve literária. Nos primeiros
    minutos podemos perceber que, ainda que a obra seja dedicada a Roberto
    Rosselini, sua intenção não é servir somente como pano de fundo para algum
    discurso social trágico (essência do ciclo), mas também fazer uma espécie de
    sátira utilizando o destemor e a intempestividade da protagonista. Diferente da
    Itália de “Roma, Cidade Aberta”, onde o povo valoroso e trabalhador se via
    compelido à miséria pelo ditador alemão, não há mártires no cenário de “Mamma
    Roma”.

    A visão pessimista/realista de Pasolini faz lembrar seu roteiro para
    “Noites de Cabíria”, filmado por Fellini. Não há redenção satisfatória numa
    terra onde você aceita a corrupção da alma, sobrevivendo de forma medíocre à
    gradual destruição de seu caráter, ou é abatido por tentar genuinamente
    modificar o triste panorama. Vale ressaltar a participação de Lamberto
    Maggiorani (do maravilhoso “Ladrões de Bicicleta”, de Vittorio De Sica) no ato
    final, numa esperta homenagem, sendo novamente vítima de um roubo. Muito mais
    cínico que Rosselini, que terminava “Roma, Cidade Aberta” com uma insinuação de
    esperança, Pasolini escolhe finalizar a trama com um sutil recado nas
    entrelinhas de sua “Pietá”, evidenciando que o fim da guerra pode ter eliminado
    o regime ditatorial, mas não tornou os italianos mais fortes e preparados para
    a vida em liberdade. Não há mais nazistas, os opressores agora nascem da índole
    distorcida dos próprios filhos da terra.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

    1 COMENTÁRIO

    1. Não gosto de opinar o que ainda não vi mas lendo a snopce ja sei que vou gostar.
      Sua descrição ajuda e muito .
      Falta mais divulgação em Português?Achei algumas curiosidades podem aguçar a curiosidade de quem como eu anda em busca de mais conhecimento.
      Deixo aqui esperando que alguém leia.
      Este filme é um grande objeto de estudo para muitos pesquisadores do cinema, pelo fato de que seus planos e ângulações são fortemente inspirados em afrescos de Giotto, Caravaggio e outros grandes artistas plásticos.

      Nos estudos, os pesquisadores abordam a influência das artes plásticas no cinema e na constituição de sua linguagem.
      Leiam a critica de Octavio Caruso.
      Vale conferir!

      Í

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