Cine Samurai – “A Fortaleza Escondida”, de Akira Kurosawa

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A Fortaleza Escondida (Kakushi-toride no San-akunin – 1958)

Japão, século XVI. Um general escolta a bela princesa de um
clã derrotado por território inimigo. Em sua viagem, cruzam com dois medrosos
fazendeiros. É o início de uma série de incríveis aventuras.

“Um filme verdadeiramente bom é fácil de entender”.
(Kurosawa)

 

Quando se fala nesse filme, quase sempre é pelo viés da
comparação com o épico espacial de George Lucas e, com menor frequência, seu
prelúdio lançado em 1999, mas, apesar dele oficialmente afirmar ter se
inspirado num detalhe ou outro, apenas com um olhar até pouco atento, fica
bastante óbvio perceber que a referência era dominante na estrutura de seus
roteiros. Eu prefiro me ater unicamente à beleza desse trabalho. A frase citada
em destaque acima simboliza a proposta cinematográfica de Akira Kurosawa. E,
nessa obra, talvez ele tenha conquistado a simplicidade máxima, com uma trama
cuja essência é universal, além de um perfeito equilíbrio entre o alívio cômico,
o senso de aventura e as cenas de ação.

Os incomuns heróis da aventura são dois desajeitados que
ambicionam apenas o enriquecimento, como uma versão ainda mais patética da
dupla Takezo e Matahachi, do clássico literário “Musashi”. Eles acabarão
cruzando o caminho de um general samurai, vivido por Mifune com a competência
usual. O roteiro acaba se enveredando pela comédia, quando uma jovem princesa entra
nessa equação, equivocadamente tida como surda e muda pelos dois amigos. O
interessante é ver a transformação dela, de garota mimada à guerreira, graças ao
convívio diário com a coragem de seus protetores. É linda a cena que superimpõe
a bandeira de seu clã, no rosto da jovem em prantos, que acaba de entender a
gravidade de sua responsabilidade. A metáfora mais interessante reside no
conceito da aparência. O ouro que passa despercebido se escondendo dentro dos
galhos, a nobreza heroica escondida pelos trapos que vestem os protagonistas,
comuns e desleixados no exterior, podem passar por coisas sem valor algum.

O diretor estava criativamente empolgado, pois estaria
utilizando pela primeira vez, já com extrema segurança, o sistema TohoScope, resposta
japonesa ao CinemaScope americano, uma desculpa agradável para que ele
experimentasse colocar os atores nas extremidades da tela sempre que possível. O
artifício foi utilizado com maestria pelo diretor de fotografia Kazuo Yamasaki,
que podia não ser muito bom em panning shots, mas emoldurou algumas das
sequências mais belas no cinema samurai, como a inicial onde somos
surpreendidos pela ameaça que faz tombar um guerreiro e, principalmente, a
intensa batalha com Toshiro Mifune brandindo sua espada, montado no cavalo, enquanto
persegue o oponente que galopa à distância.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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