“Patch Adams – O Amor é Contagioso”, o poder curador do riso

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Patch Adams – O Amor é Contagioso (Patch Adams – 1998)

Que tem a morte de errado?

Por que temos esse medo mortal?

Por que não tratamos a morte com humanidade, dignidade, decência e até com
humor?

A morte não é o inimigo.

Se quiserem enfrentar um mal, enfrentem o mal da indiferença.

Não é um ótimo filme, tampouco sua atuação nele é acima da média, mas a mensagem que ele transmite foi muito importante em minha formação. Eu tinha por volta de
quatorze anos quando assisti pela primeira vez, estava sofrendo o auge do bullying na escola diariamente, buscando motivos para continuar acreditando que valia a pena seguir em frente. Eu era apenas o rato de biblioteca e sebo, aquele esquisito magricela que passava tardes inteiras na seção de clássicos das locadoras de vídeo.

Nas aulas de redação eu extravasava minhas angústias, enquanto todos os colegas se focavam nos simplórios temas pedidos pela professora, escrevendo o mínimo de linhas requisitado no exercício, eu desafiava a professora aprofundando os temas, normalmente criando enredos de fantasia ou suspense com personagens, praticamente contos, sempre excedendo as linhas e deixando minha imaginação voar pela página de trás em branco. O que me interessava não era a nota, mas o pequeno texto que a professora escreveria ao
lado da nota, com sua opinião sobre ele. Eu, inconscientemente, exercitava aquilo que amo fazer até hoje. E, dentre tudo que escrevi nessas redações, acho que nada foi mais repetido que os trechos do discurso final do personagem Patch Adams no filme, quando ele enfrenta o Conselho de Medicina com seus argumentos sobre o valor inestimável de se tratar o paciente, nunca tratar a doença. Isto serve para tudo na vida.

Eu me emocionava quando o discurso é interrompido para a entrada do grupo de pais e filhos que tiveram a dor de suas vidas amenizadas pela terapia do riso praticada pelo personagem. A gratidão nos olhos deles, a lágrima que insinua rolar no rosto de Adams, pode ser um recurso narrativo demagógico, mas funcionava tremendamente bem para um estudante adolescente que tentava encontrar razões para entender em sua rotina diária a violência como resposta à afabilidade. Quando Williams defendia o amor de seu personagem pela função que exercia, enfrentando uma classe que não o considerava digno de coabitar o mesmo ambiente, eu me identificava e tremia por dentro. Ele, em dado momento, recebia o olhar carinhoso de aceitação do único professor que o respeitava. Todos nós temos na vida alguém assim, que coloca a mão no fogo por nossas convicções e aposta em nossos sonhos, mesmo quando parecem ser impossíveis. Alguém como o coronel cego vivido por Al Pacino em “Perfume de Mulher”, que afirma sua confiança no futuro glorioso do jovem vivido por Chris O’Donnell. É um elemento facilmente identificável.

E o que mais me agradava no filme era constatar que, ao hilário final, Patch continuava sendo um rebelde. Ele não se adequou à mediocridade, mas sim a subjugou implacavelmente. Era o estímulo que eu precisava. A humilhação constante podia ferir a alma, mas não me impediria de estudar, não me impediria de sonhar. Esse é o meu trecho favorito, daquele que muitos consideram um filme medíocre, sem valor algum. O clássico “Carpe Diem” de “Sociedade dos Poetas Mortos” viria em minha vida anos depois, com o mesmo impacto emocional motivacional. Então eu posso dizer que Robin Williams participou efetivamente de, pelo menos, dois momentos importantes em minha formação. Ele foi um dos que me fizeram rir em uma época em que o humor não era uma constante. Não há como não ser grato por isso. Descanse em paz, Robin.

E hoje, seja qual for sua decisão, juro que vou

chegar a ser o melhor médico de todo o mundo.

Vocês podem impedir minha formatura.

Podem me negar o título e a bata branca.

Mas não podem dominar meu espírito, nem evitar que eu aprenda.

Não podem me impedir de estudar.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

2 COMENTÁRIOS

  1. Ainda considero esse filme injustiçado! Mais um ótimo texto, parabéns! Também sou grato ao Willians por tornar a vida mais bonita em vários detalhes.

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