“Batman – O Filme”, de Tim Burton

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    Batman – O Filme (Batman – 1989)

    Analisando no contexto de sua época, essa seria a primeira
    vez que o público iria pagar para assistir uma aventura do personagem após
    décadas em que ele esteve imerso na cultura do deboche, com a série
    protagonizada por Adam West marcada indelevelmente pela exótica cena do herói
    dançando num bailinho riponga. Nos quadrinhos, a mudança de atitude já havia
    ocorrido três anos antes, com a obra-prima “O Cavaleiro das Trevas”, de Frank
    Miller, inspirada na trama de “Impacto Fulminante”, único filme de Dirty
    Harry dirigido por Clint Eastwood. E, para combinar com essa radical mudança de
    atitude, os produtores demonstraram coragem ao selecionar o jovem Tim Burton
    para a tarefa de comandar essa lúdica ressurreição. Um realizador cujo
    currículo se resumia a curtas-metragens melancolicamente góticos e comédias com
    protagonistas absurdamente histriônicos.

    Foram vários os fatores que ajudaram no sucesso, como a
    fantástica trilha sonora de Danny Elfman e o impecável trabalho de marketing em
    seu lançamento, mas o grande mérito no sucesso desse projeto é do roteiro
    escrito por Sam Hamm, que pegou um rascunho equivocado onde a origem do
    personagem era recontada sem personalidade, tendo como molde a fórmula para o
    clássico “Superman”, jogou fora e começou do zero uma narrativa calcada em
    flashbacks. Mas nada disso seria possível sem a contribuição de um apaixonado pela
    Nona Arte, Michael Uslan, que, em 1971, havia convencido a Universidade de
    Indiana a deixá-lo ensinar no primeiro curso focado em revistas em quadrinhos.
    Seu amor era tamanho, que ele comprou os direitos para uma adaptação
    cinematográfica no final daquela década, com a promessa de que iria ser o
    responsável pela tradução mais fiel, sombria, o olhar definitivo sobre o
    homem-morcego. O projeto acabaria no colo dos executivos da Warner.

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    O mais incrível ocorreu quando o mundo descobriu que um
    comediante baixinho, Michael Keaton, que, no máximo, seria imaginado pelos fãs como
    coadjuvante, capanga do vilão, tinha sido escolhido para viver Bruce Wayne. E,
    por mais que hoje em dia a mídia tente comparar a recepção negativa dele com a
    de Ben Affleck, não há forma lúcida de comparar essas duas rejeições. Affleck é
    um ator mediano, mas é muito respeitado como diretor e representa dinheiro
    certo na bilheteria, enquanto Keaton simplesmente não era respeitado, sequer
    conhecido, pela grande maioria dos fãs na época. E o estúdio precisava desesperadamente
    que essa garotada abrisse a carteira nas primeiras semanas de exibição. São
    dois casos muito diferentes.

    A ideia do diretor era arriscada, mas fazia sentido, já que
    o vigilante mascarado deixava de ser o fruto de um intenso treinamento, para
    ser a projeção psicológica dos impulsos primitivos de um homem de meia-idade franzino,
    incapaz de meter medo em qualquer pessoa. Essa projeção fica clara, em seu viés
    sexual, nos encontros com Vicki Vale, vivida pela estonteante Kim Basinger. A
    câmera parece gostar de salientar o fato de que aquela deusa da beleza nunca
    iria prestar atenção nele, caso não enxergasse inconscientemente aquele
    impulso. Não é coincidência o fato de que o ator que vive Alexander Knox,
    Robert Wuhl, constantemente flertando com ela, seja fisicamente muito parecido
    com Keaton. Knox é tratado exatamente como Wayne seria, caso ele não fosse
    internamente motivado por aquele impulso. Ela percebe no milionário, muito
    antes de suspeitar de sua identidade secreta, aquele brilho no olhar de quem,
    ainda que grandioso, se permite minimizar, desaparecer na multidão.

    O Coringa, vivido brilhantemente por Jack Nicholson, como
    símbolo do caos, não somente externo, desorientando os cidadãos de Gotham ao
    fazê-los enxergar sua ganância, mas também interno, tendo sido o catalisador da
    ruptura emocional no garoto que outrora assistiu os pais sendo assassinados por
    ele. A decisão de modificar o arco narrativo do personagem foi eficiente no
    sentido de, inserindo ele no trauma do herói, possibilitar uma complexidade
    maior no conflito entre os dois. Quando Batman, a projeção do superego de
    Wayne, esmurra o rosto do palhaço, podemos enxergar aquele menino levantar da
    poça de sangue e investir com toda sua raiva no pistoleiro. Ele tem a chance de
    finalmente revidar, obliterando para sempre aquela sensação terrível de
    impunidade que o motivou até aquele momento, quiçá sagrado, não por
    coincidência, ambientado em uma catedral.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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