“Amantes Eternos”, de Jim Jarmusch

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Amantes Eternos (Only Lovers Left Alive – 2013)

Chega a ser divertido imaginar a reação da garotada que for procurar esse filme acreditando ser mais um na linha de produção industrial sobre vampiros, aliás, uma palavra que não é citada sequer uma vez. Como o roteiro deixa transparecer em suas ricas referências literárias, estamos conhecendo os desiludidos pontos de vista de dois seres evoluídos sobre a mediocridade da sociedade contemporânea, formada por verdadeiros zumbis que, a despeito de seus brinquedos eletrônicos ultramodernos, continuam estúpidos nas questões que realmente importam, considerando mais importante em seu cotidiano
as desventuras de personagens midiáticos medíocres que os impressionantes avanços da ciência.

A ideia de iniciar o filme com um vinil sendo operado em um antigo toca-discos salienta o desejo inconsciente de Adam (Hiddleston), que remete visualmente e ideologicamente ao protagonista Sonho de Sandman, pelo resgate emocional de uma época menos fútil, mais romântica. Como o Stephen Dedalus do escritor James Joyce, nome adotado em uma viagem de avião, ele é um solitário extremamente culto que aprecia a boa música, em busca eterna por entender a complexidade de sua existência. Como ele afirma debochadamente, coerentemente emoldurado por seu ambiente vintage, esses mortos-vivos ainda implicam com Darwin, assim como os antepassados deles rejeitaram e demonizaram Copérnico, Galileu e Newton. Só as roupas e os cortes de cabelo mudaram.

Aqueles zumbis que poluem o mundo exterior à luz do dia continuam apegados a crenças religiosas que os colocam em guerra, fazendo-os odiarem outrem por motivos tolos, poluindo também o próprio organismo, infectando o sangue com estilos de vida desregrados. Esse elemento precioso degustado pelo casal noturno que parece nunca pentear os cabelos, como se brindassem à triste e irremediável extinção desses terráqueos incompetentes, zumbis imediatistas que sequer valorizam os esforços daqueles que ousaram confrontar o conformismo.

As “pessoas da sala de jantar”, como dizia a música dos Mutantes, que se preocupam
apenas com a aparência/imagem, sendo analisados por um casal de amantes, “Adão e Eva”, que testemunharam várias páginas da História humana, atravessando séculos e culturas diferentes, surpresos com a constatação do quanto nós involuímos.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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