Cine Noir – Entre Dois Fogos

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    Links para os textos do especial:

    http://www.devotudoaocinema.com.br/2014/08/cine-noir-amar-foi-minha-ruina.html
    http://www.devotudoaocinema.com.br/2014/09/cine-noir-um-lance-no-escuro.html
    Entre Dois Fogos (Raw Deal – 1948)
    Joe Sullivan escapa da prisão e busca vingança contra o
    mafioso Rick Coyle, um sádico piromaníaco que encomendara a sua morte. 

    Nesse filme de Anthony Mann, que considero um dos mais
    importantes do gênero, um dos conceitos elementares do Noir é subvertido,
    inserindo duas personagens femininas com motivações complexas, vividas por
    Marsha Hunt e Claire Trevor. No lugar de uma femme fatale disposta a conduzir o
    protagonista até sua ruína, deixando sempre nas sombras a inocente apaixonada
    por ele, o roteiro evita os estereótipos ao entregar a melancólica narração da
    trama, normalmente defendida pelo trágico herói, nas mãos daquela que, no que
    se espera em projetos similares, simboliza sua derrocada.

    As duas mulheres que disputam o amor do personagem, vivido
    por Dennis O’Keefe, são fortes e moralmente falhas, o que possibilita atitudes surpreendentes
    como a bravura de Ann (Hunt), a boa moça, defendendo o amado, ainda que
    acredite que ele deva se entregar às autoridades, sendo capaz também de confrontá-lo
    em uma discussão que evidencia a qualidade do texto de Leopold Atlas e John C.
    Higgins, quando ele a rotula como uma mimada privilegiada. Após ela sentir na
    pele o impulso violento, a jovem inicialmente condena sua atitude, mas acaba
    entendendo que o conceito de bom ou ruim é subjetivo, compreendendo finalmente a
    ambiguidade moral do amado.

    Esse tipo de arco narrativo não era comum no gênero, quase
    sempre limitado a uma visão de mundo simplista, ainda que esteticamente
    emoldurado em tons de cinza. E, num revés muito criativo, a ruína do herói é
    consequência de sua relação com a boa moça, não com a femme fatale, que, vale
    salientar, não possui outro interesse que não seja o amor que genuinamente
    sente por ele. A boa moça, que descobre a violência como conduta aceitável,
    acaba sendo a única corrompida na trama, algo que se espera sempre do herói.

    Mann, com o auxílio da ótima fotografia de John Alton,
    consegue estabelecer visualmente essa dinâmica ao optar por mostrar os três quase
    sempre no mesmo quadro. Vale destacar também, como elemento que ajuda na
    imersão sensorial, o teremim que o compositor Paul Sawtell utiliza para pontuar
    as narrações, criando um clima ainda mais sombrio e enigmático, quase
    fantasmagórico, nesses momentos. É incrível pensar que essa obra-prima seja tão
    pouco valorizada, considero uma das cinco melhores de todo o ciclo do gênero,
    nascida em sua melhor década.

    * A distribuidora Versátil está lançando o excelente box “Filme
    Noir”, que reúne seis importantes obras do gênero, como “A Morte Num Beijo”, “Fuga
    do Passado” e “Entre Dois Fogos”, com quase uma hora de extras. 

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    Octavio Caruso
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