“Os Mercenários 3”, de Patrick Hughes

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    Os Mercenários 3 (The Expendables 3 – 2014)

    A computação gráfica é fraca, sim, faz parecer por vezes que
    estamos assistindo um filme de ação da década de noventa. É óbvia a utilização
    de tela verde nas cenas em que os personagens interagem dentro de automóveis.
    Mas essa não seria exatamente parte da proposta nostálgica do projeto, cujo
    público alvo principal é o adulto que cresceu assistindo esse entretenimento
    americano simbólico da era Reagan na década de oitenta e noventa? O que importa é se o resultado diverte e se consegue se conectar emocionalmente
    com aquela criança interna que brincava com a bandana vermelha do Rambo na
    cabeça. Criticar possíveis falhas num roteiro que é estruturado como uma
    celebração das mesmas cometidas outrora, não apenas é uma estratégia
    equivocada, como também uma declaração pública de insuportável chatice.
    Queremos uma overdose de frases de efeito, metralhadoras disparadas apoiadas na
    cintura, demonstrações de camaradagem estapafúrdias, clichês desgastados,
    momentos melodramáticos que são resolvidos com a aproximação da câmera em
    olhares de ódio que prometem vingança, tudo isso faz parte da tremenda
    brincadeira. E é isso que Stallone entrega ao público, pela terceira vez, com a
    mesma competência.

    Analisando friamente o conjunto da obra, esse pode ser até o resultado mais
    recompensador da franquia, graças ao vilão vivido por Mel Gibson, o primeiro
    que realmente vende bem o conceito da ameaça. Eric Roberts e Van Damme eram
    canastrões interpretando caricaturas, mas Gibson é um excelente ator, outro
    nível. Até mesmo as limitações da classificação etária contribuíram para que o
    humor, elemento de grande importância no subgênero, soasse mais fluido,
    retirando um pouco os excessos típicos de grindhouse dos anteriores e
    assemelhando-se mais com a violência das revistas em quadrinhos. Não eram as mortes
    sangrentas que nos atraíam naqueles filmes, mas sim a personalidade daqueles
    que as cometiam. As referências visuais continuam eficientes e, felizmente,
    nada sutis, sobrando até para “Risco Total”, de Renny Harlin. Mas o que
    considero genial nessa proposta de resgate é a forma como Stallone sabe inserir
    o contexto real no seu universo fantasioso, interagindo assim diretamente com o
    público alvo, como quando colocou Chuck Norris para brincar com sua própria
    persona no anterior.

    A indústria pode ter virado as costas para Gibson, mas Sly corajosamente bate
    de frente e coloca-o em destaque como um frio e cruel traidor amargurado.
    Antonio Banderas fez sucesso recente em uma animação, então sua introdução é
    digna de um personagem de desenho animado, um alívio cômico que funciona muito
    bem. Wesley Snipes foi manchete durante anos nas páginas policiais e acabou de
    sair da prisão, nada mais coerente que apresentá-lo sendo libertado de uma,
    fazendo disso o espetáculo que inicia o filme. E como inserir Harrison Ford no
    projeto sem, mesmo que em um breve momento, fazer com que ele reviva Han Solo,
    antes de seu retorno oficial no próximo “Star Wars”? São esses detalhes que
    tornam a experiência saborosa, fazendo com que os defeitos não pesem tanto na
    balança. Jet Li incompreensivelmente não diz a que veio, a equipe jovem tem
    pouco carisma e é utilizada descaradamente apenas como artifício narrativo,
    mas, fora isso, eu não tenho do que reclamar. O filme é como o reencontro de uma turma escolar que marcou sua
    vida, uma festa despretensiosa na qual somos convidados a esquecer as mazelas
    do mundo real e, por duas horas, entrarmos novamente em contato com a criança
    interna que se camuflava com tinta guache nas brincadeiras de guerra com os
    vizinhos.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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