Cine Noir – “Alma em Suplício”

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    Link para os textos do especial:

    http://www.devotudoaocinema.com.br/2013/08/a-montanha-dos-sete-abutres-1951.html

    http://www.devotudoaocinema.com.br/2014/08/cine-noir-amar-foi-minha-ruina.html

    http://www.devotudoaocinema.com.br/2014/09/cine-noir-um-lance-no-escuro.html

    http://www.devotudoaocinema.com.br/2014/10/cine-noir-entre-dois-fogos.html

    Alma em Suplício (Mildred Pierce – 1945)

    O início do filme é espetacular, com a trilha de Max Steiner
    sendo interrompida pelo som dos tiros, seguido pelo tombar do corpo do personagem
    vivido por Zachary Scott, que pronuncia o nome da misteriosa protagonista. A
    forma como o roteiro, que adapta a ótima obra dramática de James M. Cain, o
    mesmo de “Pacto de Sangue”, para a estrutura pulp do Noir, incluindo o elemento
    do assassinato e a narração em flashback, sutilmente insere dicas sobre o mistério
    em pequenas atitudes, com a bela fotografia em preto e branco do genial Ernest
    Haller, trabalhando influências do expressionismo alemão, atuando praticamente
    como um personagem, tornando as revisões ainda mais prazerosas. É valorosa a
    coragem do roteiro, indo contra a censura do código Hays, de não fugir da
    insinuação de incesto entre a jovem filha, seu padrasto e a mãe. Ainda que a
    Mildred de Joan Crawford seja uma de suas melhores atuações, empalidece perante
    a complexidade de sua contraparte literária, uma mulher capaz de intensamente amar
    e odiar a filha. A adaptação mais fiel foi realizada recentemente, numa
    produção da HBO, com Kate Winslet.

    A direção sempre precisa de Michael Curtiz, meticulosamente
    trabalhando o suspense na intenção de, como um ilusionista, fazer o público
    esquecer certos momentos, não perdeu sua contundência. Nos primeiros cinco
    minutos nós somos apresentados a uma cena de assassinato onde não vemos o
    assassino. Normalmente o foco é direcionado apenas para o preenchimento da
    lacuna detetivesca: “quem matou?”. O que torna o filme uma obra-prima no gênero
    é exatamente a audácia de inserir vários outros conflitos psicológicos na mesma
    sequência, como a verdadeira razão que leva a protagonista a tentar o suicídio,
    que serão revelados no sensacional desfecho. Claro que, devido à época em que
    foi feito, alguns dos truques de ilusão são, na realidade, manipulados de forma
    grosseira. O público da estreia não iria rever o filme diversas vezes no
    conforto de suas casas, então certos detalhes essenciais na resolução do enigma
    não eram percebidos, como a maneira com que a vítima fala o nome da
    protagonista na cena inicial, com um sentido totalmente diferente do que a
    maneira com que é falado na repetição posterior.

    Um fato triste na produção, que simboliza bem o racismo da
    época, a participação de Butterfly McQueen, que havia atuado seis anos antes no
    épico “E o Vento Levou”, como uma estereotipada empregada doméstica que se
    mostra desajeitada até para atender um telefone. O impressionante é que, mesmo
    sendo presença marcante no filme, a atriz negra não foi incluída nos créditos.

    * O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora “Classicline”.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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