Tesouros da Sétima Arte – “Viagem ao Fim do Mundo”

    0

    Link para os textos do especial:

    http://www.devotudoaocinema.com.br/p/tesouros-da-setima-arte.html

    Viagem ao Fim do Mundo (1968)

    Enquanto aguarda a chamada para o embarque em seu avião, um
    rapaz procura na banca de jornal uma leitura para a viagem. Descobre uma edição
    de bolso das “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis. Unindo à curiosa equação uma forte inspiração nas obras da
    filósofa francesa Simone Weil, simbolizada nos monólogos existencialistas de
    uma freira sobre a hipocrisia da religião, inclusive, como ferramenta política,
    ponto extremamente atual em uma sociedade onde um candidato que se declare ateu
    não ganharia votos, o filme do diretor Fernando Coni Campos, ainda que faça
    parte do movimento do Cinema Novo, pode ser visto como antítese da linguagem de
    sofisticada rebeldia nas obras de Glauber Rocha, já que seu experimentalismo
    não parece buscar inspiração na melancólica poesia do neorrealismo italiano ou
    nas calculadas digressões da nouvelle vague francesa, estando mais próximo do
    cinema de Eisenstein e Dziga Vertov.

    É espetacular a sequência que inicia com um resgate
    jornalístico do impacto dos ditadores no mundo, seguido por “A bomba está para
    explodir na praça enquanto a banda passa”, canção de Roberto Rei, cantor hoje
    esquecido e que no movimento da Jovem Guarda ousou enfrentar o regime militar, passando
    pelo discurso de que não existe mais divisão no mundo entre comunismo e
    capitalismo, ao som de “Guantanamera”, com o leitor de Machado enfrentando
    Pandora, a personificação da natureza, vivida pela bela Annik Malvil,
    responsável no livro por mostrar que o delírio do protagonista Brás Cubas é um
    movimento inexorável rumo ao caos. Outro momento que vale destacar é a
    brincadeira metalinguística que insere uma personagem que se autointitula um erro
    de continuidade.

    A estrutura fragmentada desrespeita todas as normas, intercalando
    charges com Tropicalismo, sobrepondo desenhos de astronautas americanos no
    espaço com propagandas de sapatos masculinos, uma montagem que provoca
    exatamente por ser totalmente desinteressada em definir qualquer mensagem,
    qualquer verdade absoluta. Não há em Coni a preocupação de agradar o público,
    muito pelo contrário, ele ironiza o desejo do espectador pela narrativa linear.
    “O maior defeito deste filme és tu, espectador”.

    RECOMENDAMOS


    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

    DEIXE UMA RESPOSTA

    Please enter your comment!
    Please enter your name here