“Tempo de Guerra”, de Jean-Luc Godard

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Tempo de Guerra (Les Carabiniers – 1963)

Num país imaginário, o rei declarou guerra a um país vizinho. Uma família humilde, composto pela mãe, uma filha e dois filhos, recebe uma intimação para que os rapazes comecem a lutar por seu país, com a garantia de voltarão ricos graças aos saques. A oferta é tentadora e eles partem para o front, dispostos a cometer qualquer atrocidade pelas
riquezas.

Um filme pouco lembrado de Godard, conduzido de forma direta, sem muitas experimentações, com um humor anárquico que potencializa o absurdo do tema abordado, a mentira da guerra. Costumo indicar esse trabalho da fase inicial do diretor para todos aqueles que demonstram interesse em entender o mito que o envolve.

Nele podemos enxergar o cineasta embrionário, ainda movido pelo equilíbrio entre a razão e a emoção, algo que foi perdendo ao longo de uma carreira dedicada à desconstrução crítica da linguagem. Ao escolher localizar o conflito em uma nação inexistente, evita a necessidade de recriar e contextualizar o cenário, podendo direcionar sua verve ironicamente brutal exclusivamente na imbecilização que aflora no ser humano, quando ele se encontra diante dos horrores de uma guerra. A maldade ingênua, infantil, dos soldados que se aproveitam da situação de superioridade, levantando as saias das mulheres. A ignorância daquele que acata ordens sem compreender absolutamente nada do que motivou sua convocação, movido pela ilusão fabricada por aqueles mais interessados, que sempre assistem a tudo do alto, confortáveis em suas posições de destaque, tão ilusórias quanto, sendo representadas por medalhas de latão.

Quando os dois soldados paspalhões se empolgam com a falsa notícia do fim do confronto, Godard habilmente nos mostra o negativo de uma celebração com fogos de artifício, retirando qualquer verniz de beleza na cena, ela se torna deprimente. O diretor, com esse gesto, mostra que esse não é apenas um filme antiguerra, mas, numa ousadia corajosa, uma crítica aos próprios filmes antiguerra, que, servindo ao propósito teórico de apontar os absurdos, acabam reutilizando as mesmas fórmulas imagéticas, a espetacularização do
combate, que caracterizam aqueles produtos industriais que celebram o militarismo.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

1 COMENTÁRIO

  1. se formos analisar criteriosamente concluiremos que guerra nenhuma faz sentido como canta Cazuza na música MAL NENHUM. Lembro quando Muhammad Ali ( Cassius Clay) enfrentou um dos maiores fabricantes de guerra dos tempos contemporâneos e de certa forma, mesmo sendo condenado saiu-se vitorioso. As guerras quase sempre são por dinheiro. Os governantes as fazem, os generais acatam cegamente e os soldados marcham para a morte. O pior de tudo é que as sociedades acham-nas justas.

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