Livre (Wild – 2014)
O roteiro de Nick Hornby insere os fragmentos de memória da
personagem, inteligentemente evitando o erro de querer explicar tudo,
elaborando cenas que parecem intencionar confundir a percepção do público sobre
as suas possíveis motivações emocionais, falhando apenas no excesso de
narrações e em algumas soluções visuais convencionais. Outro problema da
produção é a atuação de Reese Witherspoon, que convence nos momentos que
precedem sua jornada, como em sua interação com a mãe, vivida por Laura Dern,
mas não consegue expressar a turbulência mental, as variações psicológicas de
alguém que é levado ao extremo, deixando a impressão de que estamos assistindo
uma “Barbie no Deserto”, cujo corpo maquiado nunca se queima com o sol. Uma
versão light e inverossímil do excelente “Na Natureza Selvagem”, de Sean Penn.

O projeto foi trabalhado na medida para o reconhecimento da Academia, mas a necessidade
de colocar cada atitude em sua aventura em contexto com o passado da personagem
acaba travando qualquer conexão empática. Existem exceções, como a bela
analogia simbolizada na cena em que a jovem luta desesperadamente para ficar de
pé, aguentando o peso de sua mochila, como um bebê que aprende a andar, ela
terá que reiniciar todo o seu sistema pessoal, reaprender a enxergar a vida
utilizando seus instintos mais primais, como forma de expurgar seus erros. O
tom da cena é, de forma canhestra, cômico pastelão, mas prefiro relevar e
acreditar que existia uma ambição metafórica nela. Mas, infelizmente, o diretor
Jean-Marc Vallée opta na maior parte do tempo pela tradicional câmera que
minimiza a atriz na imensidão do cenário, talvez, por saber que seria arriscado
manter o foco no rosto dela, ficando dependente de seu talento limitado. A
intensa transformação interna que ocorre ao final existe apenas em teoria,
somente porque a personagem nos informa disso, já que não há nada no filme que
evidencie estarmos diante de alguém narrativamente mais maduro/evoluído.

Os perigos que a jovem encontra, de cobras a tentativas de estupro, são
apresentados de forma preguiçosa, sendo facilmente esquecidos pelo roteiro, e,
por conseguinte, pela personagem, com uma canção melodramática, virando a
página para um novo obstáculo, sem nunca sentirmos realmente que ela está em
perigo. A ideia de uma pessoa, sem nenhum conhecimento básico sobre
acampamento, aparentemente incapaz de fritar um ovo e esquentar água, decidir se
aventurar em uma caminhada solitária por três meses, atravessando os locais
mais inóspitos possíveis, por mais que seja a adaptação de uma autobiografia,
soa incrivelmente estúpida. Ao invés de reutilizar as tradicionais tomadas
lúdicas do amplo cenário, sequências que constam no manual de como se filmar
uma jornada de autodescobrimento, o filme poderia se aprofundar nas
consequências emocionais de cada obstáculo superado, construindo alguém
tridimensional com quem o público pudesse se identificar.

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Viva você também este sonho...

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