TOP – Woody Allen (1966-1983)

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    Link para os textos do especial:

    http://www.devotudoaocinema.com.br/p/make-em-laugh.html

    12 – O Que há, Tigresa? (What´s up, Tiger Lilly? – 1966)

    Allen demonstra já em seu primeiro trabalho a sua tremenda cara
    de pau, no bom sentido, se é que existe um, ousando pegar uma sátira japonesa
    dos filmes de espionagem, em ascensão à época, graças ao James Bond de Sean
    Connery, e redublar. Logo nas primeiras cenas, vemos o diretor sentado em um
    respeitável escritório, explicando que ele havia sido convocado por Hollywood a
    fazer o filme de espionagem definitivo. Quando questionado sobre o ineditismo
    de tal façanha, a redublagem, ele responde que o mesmo já havia ocorrido outras
    vezes, como em “E o Vento Levou”. Bastam três minutos para o jovem cineasta
    mostrar seu talento. Hoje em dia é comum vermos esse artifício ser utilizado em
    programas de televisão, filmes, como o horrível “Kung-Pow – O Mestre da
    Kung-Fu-são”, e atésucessos doYoutube, como “Bátima – Feira da
    Fruta”, realizado por Antonio Camano e Fernando Pettinati, mas na década de sessenta ele foi o pioneiro dessa arte extremamente
    duvidosa.

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    11 – Sonhos Eróticos de Uma Noite de Verão (A Midsummer
    Night´s Sex Comedy – 1982)

    O roteiro foi concebido em apenas duas semanas, encomendado
    pelo estúdio no intuito de tapar o buraco que seria causado pelo atraso na
    produção de “Zelig”. A pressa é facilmente perceptível no trabalho
    concluído, com personagens pouco desenvolvidos, como o médico que é mostrado
    como uma pessoa centrada, mas que tenta se suicidar por não ter o amor de uma
    mulher que acaba de conhecer, ainda que ele possua algumas cenas muito boas, o
    seu conjunto é bastante irregular. Buscando inspiração em seu ídolo Ingmar
    Bergman, especificamente em “Sorrisos de Uma Noite de Amor”, de 1955,
    o roteiro explora o jogo de flerte entre três casais que se reúnem em um
    idílico local, para celebrar o casamento de um deles. Foi o primeiro projeto
    que contou com Mia Farrow, numa longa parceria que renderia ótimos frutos
    artísticos e um problemão na justiça. Dentre os pontos altos, destaco o
    rompante de libido de Adrian com o marido, após receber da espevitada Dulcy,
    algumas dicas de sexo (Allen: “Não podemos fazer sexo no lugar onde nos
    alimentamos, além do mais, tem um homem entoando o Pai Nosso na sala, iremos
    ficar cegos”). Simplificando sua opinião sobre a importância das relações
    sexuais, o personagem de Allen afirma: “Sexo alivia a tensão, enquanto o
    amor causa tensão”. Após o elegante Leopold contar sobre seu sonho erótico
    selvagem com Dulcy, ela assustada o questiona: “Jesus, o que você comeu
    antes de ir dormir?”. São pequenos momentos onde podemos perceber que,
    mesmo criando algo de forma apressada, Woody consegue fazer um filme de
    qualidade.

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    10 – Tudo o que VocêSempre Quis Saber Sobre Sexo, Mas
    Tinha Medo de Perguntar (Everything You Always Wanted to Know About Sex But
    Were Afraid To Ask – 1972)

    Similar ao que ocorreu com sua primeira obra, Allen não
    tinha em mente abordar esse conceito. AUnited Artistscomprou os
    direitos dolivrohomônimo, escrito em 1969, pelo popular Dr. David
    Reuben, uma espécie de Dráuzio Varella da época, só que tarado. Woody ficou
    revoltado quando Reuben foi ao tradicional programa “Tonight Show” e citou uma
    das frases cômicas dele, sem dizer a fonte. O jovem cineasta então utilizou
    toda sua verve cômica e adaptou o livro da melhor forma possível, salientando
    os aspectos mais absurdos em uma comédia deesquetes. Dentre seus sete
    segmentos, existem dois que considero obras-primas na carreira do diretor: “O
    que é sodomia?” e “O que acontece durante a ejaculação?”, expõem um roteirista
    em pleno desenvolvimento, buscando subjugar os limites e ultrapassá-los. No
    primeiro, Gene Wilder vive um médico que se apaixona por uma ovelha. O
    brilhantismo está no fato de Wilder atuar de forma séria, como se fosse um
    personagem saído dos romances de Ian McEwan. Já no segundo, Allen interpreta um
    espermatozoide que passa por uma crise existencial, poucos minutos antes de seu
    grande momento, enquanto Burt Reynolds e Tony Randall comandam o cérebro de um
    jovem que busca fazer sexo com sua parceira. Os outros segmentos são
    divertidos, porém, pouco memoráveis.

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    9 – Bananas (1971)

    O filme é bastante episódico e irregular, o que demonstra o
    quanto Woody ousou, arriscou. Ele ainda estava aparando suas próprias arestas.
    Existem cenas que considero geniais, como a tortura com opereta e aquela em que
    nosso herói organiza a fila dos rebeldes condenados à morte. Allen chama pelo
    número vinte e um, quando um cidadão no meio da fila acena eufórico seu
    bilhete. A felicidade daquele condenado é hilária, assim como a afirmação do
    revolucionário popular que é levado ao poder ditatorial, esquecendo-se de todas
    as promessas feitas anteriormente e pensando apenas em seu próprio
    enriquecimento e na escravidão de seu povo, pelo poder da ignorância controlada,
    algo que nunca acontece no mundo real, convenhamos… Certo?

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    8 – O Dorminhoco (Sleeper – 1973)

    Após iniciar com uma despretensiosa brincadeira e dirigir
    três produções que eram colagens de ótimas ideias cômicas, esquetes, sem um fio
    condutor forte, Allen encarava seu primeiro desafio narrativo: um projeto “com
    pé e cabeça”, além de um nariz que comandava um sistema ditatorial. Engraçado
    do início ao fim, o filme representa perfeitamente a fase inicial do diretor,
    onde ele desejava apenas levar humor ao público. Miles Monroe, vivido por
    Allen, dá entrada em um hospital para uma operação simples, mas acaba acordando
    duzentos anos depois, em um mundo inspirado nas obras de H.G. Wells, Ray
    Bradbury e George Orwell. O diretor chegou a conversar com o mestre da ficção
    científica Isaac Asimov, avaliando a forma de abordar esse distópico mundo do
    futuro. A bela Diane Keaton interpreta Luna, uma pacifista poetisa que
    normalmente serve de escada para os ferinos one-liners de Allen, que aproveita
    a ambientação para criticar o governo de seu país, como quando se refere à
    “Associação Nacional do Rifle”, dizendo: “Uma organização que ajudava
    criminosos a conseguirem armas, para matarem cidadãos. Era chamada de serviço
    público”. O diretor começava a demonstrar um humor mais corajoso, comgagsmais
    elaboradas.

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    7 – Memórias (Stardust Memories – 1980)

    No filme, Allen explora um dos aspectos consequenciais da
    fama, o arregimentar de um séquito de admiradores, alguns até fanáticos, que
    buscam no realizador uma satisfação de seus desejos pessoais. Seu personagem
    procura um novo caminho, um desafio artístico, experimentando em gêneros
    diferentes, mas seu público o questiona debochadamente e o rejeita. Com certeza
    se trata de um desabafo do cineasta após a recepção fria do público com seu
    projeto dos sonhos: “Interiores”. Seus fãs são interpretados pelos
    figurantes mais feios e caricatos já reunidos em um único projeto. Eles o
    abordam constantemente com argumentos absurdos, analisando suas obras fora de
    contexto e interpretando-as da forma mais equivocada (“o humorista é um
    símbolo para a homossexualidade”), interrompendo-o em situações rotineiras
    para pedir emprego para um parente ou jogando currículos em suas mãos. Até
    mesmo seres do espaço descem de suas naves para afirmarem a ele que preferem
    seus filmes cômicos de início de carreira. E é nesse filme que Woody solta
    aquela que considero sua melhor frase: “Para você sou um ateu, mas, para
    Deus, sou uma leal oposição”.

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    6 – Interiores (Interiors – 1978)

    O sucesso comercial de “Annie Hall” apenas firmou mais ainda
    na mente do diretor o desejo de demonstrar ser capaz de emular seu ídolo:
    Ingmar Bergman. Ele sempre subestimou o valor de suas próprias obras,
    comparando-as com os trabalhos que eram realizados por outros diretores mais engajados
    da época, sem perceber que a gargalhada critica com mais contundência que a
    austeridade. O caso é que o filme lida com um tema muito forte, sem nunca
    apelar para o necessário subterfúgio do alívio cômico, tornando tudo muito
    reflexivo. Em sua ânsia por impor uma profundidade na estética, que seria mais
    bem equilibrada nos posteriores “Setembro” e “A Outra”, Allen anestesia o
    espectador. O tema é bem conduzido, bela analogia é feita entre a preocupação
    da mãe com a decoração de interiores e o ruir das estruturas familiares, mas
    não cumpre com eficiência plena o seu potencial. O excelente diretor de
    fotografia Gordon Willis, elemento essencial na evolução de Allen como diretor,
    retoma a parceria iniciada no filme anterior, e que se estenderia até “A Rosa
    Púrpura do Cairo”, em 1985, garantindo longas tomadas sem cortes,
    potencializando os diálogos brilhantes do autor.

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    5 – Um Assaltante Bem Trapalhão (Take the Money and Run – 1969)

    Os dez primeiros minutos são geniais, pois ficamos
    conhecendo os primeiros passos do jovem Virgil, vivido por Allen, no mundo do crime.
    Claro que antes ele tentou uma vida simples, como um violoncelista. O problema
    era acompanhar a bandinha da rua, com o seu instrumento numa mão e, na outra,
    uma cadeira. Não havia jeito, pois a rota do crime parecia estar em seu
    destino. Após pequenos furtos, acabou sendo preso pela primeira vez. Inspirado,
    tentou fugir utilizando uma barra de sabão e sua perícia artesã. Dias depois,
    com seu perfeito revólver de sabão pintado com graxa de sapato, ele se
    aventurou a cruzar os muros que o aprisionavam. Azarado, não percebeu a
    torrencial tempestade que castigava aquele local, fazendo com que, em poucos
    segundos, para a surpresa dos policiais, seu revólver virasse uma grande bola
    de espuma. Novamente atrás das grades, aceitou ser cobaia em um experimento com
    uma revolucionária vacina, pois aquilo iria atenuar sua pena. Ninguém imaginava
    efeito colateral tão absurdo: Virgil tornou-se um rabino, de barba longa, e
    pregou belos sermões para os oficiais. Foi o primeiro “mockumentary” (falsos
    documentários) da história do cinema, um estilo que o próprio diretor revisitaria
    posteriormente em “Zelig”.

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    4 – A Última Noite de Boris Grushenko (Love and Death –
    1975)

    Nessa comédia, Woody explora os limites de sua zona de
    conforto, utilizando referências ousadas ao trabalho literário de Dostoiévski e
    Tolstói, vale lembrar que em seus trabalhos anteriores, ele havia se amparado
    mais no pastelão e no humor popular, além de começar a demonstrar seu fascínio
    por seu ídolo Ingmar Bergman, notem a forma como ele filma, logo no início, um
    russo que fala diretamente à câmera, e em específico seu filme favorito “O
    Sétimo Selo”. A grandiosidade da produção impressiona e o diretor demonstra
    total confiança em sua técnica. Diane Keaton novamente preenche a tela com seu
    carisma e beleza, vivendo a prima do protagonista. Apaixonado pela complexidade
    da jovem, que defende diálogos muito espirituosos em seu existencialismo, elemento
    novo na obra de Allen, que viria a se tornar um padrão, frustra-se ao perceber
    que ela não o vê com os mesmos olhos de arrebatador desejo. O roteiro parece
    querer demolir aquela austera seriedade que normalmente se faz presente ao
    discutir esses temas.

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    3 – Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall – 1977)

    O filme mais popular do diretor, laureado com o principal
    Oscar da Academia, além de justos reconhecimentos à atuação de Diane Keaton e
    à direção de Allen. O ápice na fase inicial de sua carreira, que começaria no
    ano seguinte a tomar caminhos mais ousados, com o inseguro autor acreditando
    cada vez mais em sua capacidade, arriscando mostrar para o público que não era
    apenas um excelente comediante, mas também um pensador existencialista, seguindo
    os passos de seu grande ídolo: o sueco Ingmar Bergman. O estilo mais sóbrio já
    demonstra a mudança de atitude logo nos créditos iniciais, título em fonte
    Windsor branca, contrastando com o fundo preto, adotando o formato que viria a
    acompanhá-lo pelas décadas seguintes. Depois de brincar com o futuro e o
    passado da sociedade, subvertendo como caricatura, Woody pela primeira vez se
    mostra como um personagem com o qual o público pode se identificar. Existe
    muito dele próprio no roteiro, tornando ainda mais interessante acompanhar seus
    relatos sobre sua infância, em especial a ótima sequência em que seus colegas
    de classe revelam o que se tornarão quando adultos, incutindo uma analogia
    simples e muito eficiente: a casa em que cresceu ao som das brigas dos pais,
    sob uma montanha-russa. Porém, meu momento favorito é quando Allen encontra um
    chato na fila do cinema, que berra sua pretensa cultura cinematográfica ao
    tentar impressionar sua namorada. Quem nunca passou por isso? Aquela pessoa que
    fala alto, por si só, um sinal de deselegância, na fila: “Todos os filmes desse
    diretor são uma droga”, quando na realidade a pessoa sequer conhece sua
    filmografia, ou “Só você mesmo para me arrastar para ver uma chatice em preto e
    branco”, da mesma empresa que trouxe até você as célebres frases: “de triste,
    já basta a vida”, e o insuperável: “putz, esses atores todos já morreram”.

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    2 – Zelig (1983)

    Em sua genialidade, Woody estrutura esse filme como um
    documentário, repetindo o estilo de “Um Assaltante Bem Trapalhão”, sobre
    Leonard Zelig, um camaleão social da década de vinte. Sem nenhum esforço, ele é
    capaz de adotar características físicas e mentais de qualquer pessoa com quem
    se relaciona. Ao lado de franceses, ele conversa fluentemente em francês, com
    direito até ao clássico bigodinho fino. Mas o que realmente fascina no roteiro
    é a forma como o personagem se adapta socialmente, como quando discute jargões
    de medicina ao lado de doutores, com total conhecimento sobre a área. A crítica
    é certeira, mostrando como as pessoas se moldam, até o caráter, no intuito de
    agradar e serem aceitas. E, claro, dignitários com os mais diversos interesses
    passam a utilizar suas palavras como alegoria para suas atividades. Zelig acaba
    se tornando na sociedade uma espécie de “Chance”, o jardineiro interpretado por
    Peter Sellers em “Muito Além do Jardim”. Mia Farrow vive uma doce doutora que
    acredita que o fenômeno seja psicológico, uma manifestação de alguém que não
    consegue se expressar, levando o roteiro a abordar também o machismo da época,
    mostrando a reação agressiva dos médicos a essa nova hipótese. O processo de
    tratamento é tão eficiente, que ele passa a conseguir até discordar de outras
    opiniões, algo impensável em sua realidade de outrora.

    67 - TOP – Woody Allen (1966-1983)

    1 – Manhattan (1979)

    O melhor trabalho de Woody como ator, essa obra representa o
    fechamento do primeiro ciclo na carreira dele, após refinar o molde com
    “Annie Hall”, e se arriscar em seu primeiro drama, com
    “Interiores”, é a junção perfeita de drama, romance e comédia, sendo pioneiro
    no que muitos chamam de “Fórmula Woody”. Desde o início, ao som de
    “Rhapsody in Blue”, de Gershwin, emoldurando imagens da cidade, até o
    excelente diálogo final entre Woody e Mariel, onde ele descobre ser menos
    maduro que ela, nós encontramos um escritor confiante e em seu auge criativo. A
    fotografia em preto e branco de Gordon Willis, que afirmou ter sido esse o seu
    melhor filme, concede ainda mais elegância ao projeto, incluindo a icônica cena
    da conversa junto à ponte Queensboro, e o uso das sombras na conversa no
    planetário. A forma como Mariel se porta, sua naturalidade ao confrontar-se com
    Diane Keaton, quando ela pergunta sobre a ocupação da jovem, que responde:
    “vou à escola”, e a sua latente admiração pelo homem mais velho, de
    gosto refinado, fazem com que um tema complicado, a diferença de idade no
    casal, soe extremamente natural. O texto é ótimo, coescrito por Marshall
    Brickman, repetindo a parceria de “O Dorminhoco” e “Annie
    Hall”.

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    Octavio Caruso
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