“O Espelho”, de Andrei Tarkóvski

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    O Espelho (Zerkalo – 1975)

    Poucos filmes são tão herméticos, um fascinante amontoado
    das memórias do diretor, a sua expressão mais pura de poesia filmada. Tarkóvski
    utiliza os mesmos atores ao retratar fases distintas da vida do moribundo
    narrador, com generosa inserção de interlúdios emoldurados por poemas de seu
    pai, recitados pelo próprio. Os fragmentos apresentados representam sempre a maneira
    como essas recordações são despertadas na mente do homem, o que possibilita
    cenas intensamente surrealistas, como o vento que trespassa a relva em harmonia
    com os movimentos de um enigmático visitante, a utilização da água como símbolo
    indomável do tempo, ou, de forma mais sutil, um incêndio que sinaliza o
    elemento do divino na natureza, compondo uma jornada proustiana, sem
    concessões, no inconsciente fragilizado de alguém que busca respostas em seu
    passado distante.

    No início, vemos o filho do protagonista, o seu legado, vendo
    na televisão uma hipnóloga tentando eliminar a gagueira de um jovem, um momento
    que parece a execução de uma mágica. Na parede, propositalmente, a sombra do
    microfone que capta o som da cena, a afirmação da teatralidade essencial naquele
    processo de sugestão mental, ou, indo mais além, uma afirmação da teatralidade na
    vida. A superação do bloqueio do garoto, uma alegoria para a coragem
    conquistada pelo diretor, com grande sensibilidade, de revisitar e compartilhar
    com seu público as suas experiências pessoais, inclusive, confessando erros
    cometidos. A desconstrução meticulosa de sua existência, perscrutando arrependimentos
    e angústias, como forma de tentar compreendê-la melhor. O mais incrível é constatar
    como podemos nos identificar, em variados níveis, com o resultado dessa autoanálise
    do realizador. Acho arrebatadora a transição da imagem da mãe dele no filme,
    vivida por Margarita Terekhova, para o rosto envelhecido da mãe real do diretor
    no espelho. Em breves segundos silenciosos, ele transmite uma sensação inexplicável
    de nostalgia que toca, sem dúvida, até o espectador mais desinteressado.

    O esforço pela compreensão da narrativa em um primeiro
    contato, equívoco compreensível, pode minimizar o impacto de uma obra que
    merece ser degustada em algumas revisões. Somente na terceira sessão,
    especificamente para a elaboração desse texto, é que pude enxergar a emoção contida
    no desfecho. Alguns detalhes ganham mais significado, como o sentimento da
    solidão representado pela rápida evaporação do líquido deixado na mesa pela
    xícara de chá quente, na cena protagonizada pelo filho dele, quase sempre
    mostrado sofrendo calado o abandono, como na perturbadora cena em que o menino
    se encara no espelho, enquanto aguarda o retorno da mãe. Ele descobre que sua
    essência psicológica, a formação de seu indivíduo, foi forjada, para o bem e
    para o mal, no conflito de experiências de seu distante pai e de sua passiva mãe,
    encontrando, inicialmente, tremenda resistência no ato de revisitar a infância,
    simbolizada pela casa cuja porta principal está sempre trancada. Ele só
    consegue se enxergar através dessa arqueologia parental. Alexei, como nós,
    tenta identificar sua face original, sem as cicatrizes deixadas pelo tempo, no
    espelho de suas memórias.

    * O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora “Versátil”,
    na caixa “A Arte de Andrei Tarkóvski”, que inclui também: “A Infância de Ivan”,
    “Nostalgia” e “Tempo de Viagem”, além de documentários analisando as obras.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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