“Fomos os Sacrificados”, de John Ford

    0

    Fomos os Sacrificados (They Were Expendable – 1945)

    Logo após o ataque a Pearl Harbor, um esquadrão da Marinha é
    enviado à Península de Bataan, onde tropas japonesas estão prontas para uma
    sangrenta batalha.

    O diretor estava inicialmente relutante em aceitar o
    projeto, mas, com a insistência do roteirista e amigo Frank Wead, ele foi
    liberado de seu serviço na guerra, com um acordo que o remuneraria em quantia
    suficiente para que ele investisse em um centro recreativo, chamado “Field
    Photo Farm”, para seus colegas que também registravam a batalha, um local que
    serviria para celebrar os falecidos e promover a amizade dos familiares. O
    objetivo era tentar atingir um nível de realismo documental nas sequências de
    conflito, elemento que engrandece ainda mais o resultado.

    A mensagem de coragem é óbvia, porém, tratada de forma mais
    poética que muitos similares do período, com uma estrutura que favorece a imersão
    do espectador. O interesse do roteiro não se limita às vitórias e derrotas, como
    a dispensabilidade no título original já insinua, mas, sim, com o mesmo
    carinho, registrar eventos simples e sem relevância à trama principal, desenvolvendo
    com tranquilidade o relacionamento entre os soldados, facilitando a empatia com
    esses personagens. O processo de trabalho com os atores ajudou uma das melhores
    cenas do filme, uma crítica bem-humorada ao tolo valor dado às medalhas de
    mérito na hierarquia militar. Ford insistiu, diariamente, para que o ator
    Marshall Thompson, novato no estúdio MGM, dissesse sua fala, rápida e simples,
    informando os colegas sobre o recebimento de uma medalha. O resultado foi
    perfeito, o rapaz, já enfastiado, entrega a fala de forma mecânica,
    antinatural, exatamente como o diretor queria. O contraste dessa intenção com a
    reação debochada dos soldados, totalmente desinteressados, ignorando o colega,
    transforma um momento pequeno em verdadeira obra-prima. Como dar importância a
    algo tão tolo, enquanto a vida humana é tratada como algo sem importância
    alguma?

    Outra sequência que considero especialmente marcante, o
    jantar improvisado dos soldados, recepcionando a adorável Donna Reed, que vive
    uma enfermeira que se apaixona pelo personagem de John Wayne. Com generoso uso
    do silêncio, podemos perceber a emoção tomando conta da jovem, impressionada
    com o impacto de sua presença naquele pequeno grupo. Os jovens se tornam
    crianças com saudade de suas mães, com suas falas agradecidas evidenciando a
    carência afetiva daqueles pobres iludidos, manipulados pela máquina de
    propaganda da guerra.

    * O filme está sendo lançado, em versão restaurada em DVD, pela distribuidora “Versátil”, na caixa “A Segunda Guerra no Cinema”, que contém também: “48 Horas!”, “Também Somos Seres Humanos”, “Proibido!”, “Amargo Triunfo” e “Mercenários Sem Glória”.

    RECOMENDAMOS


    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

    DEIXE UMA RESPOSTA

    Please enter your comment!
    Please enter your name here