“Verdades e Mentiras”, a obra-prima de Orson Welles

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Verdades e Mentiras (F For Fake – 1973)

Um especialista que afirma ser autêntica uma pintura falsificada
não é um falso entendedor, muito menos uma vítima enganada, mas, sim, alguém
como você e eu, um ser humano carente de aprovação, que necessita se sentir
parte de algo importante. O que importa pra ele é ter o controle sobre a
autoria da arte de outrem, definir o que é bom ou ruim. A verdade, como Orson Welles
cita no filme, é a escova de dente te aguardando no banheiro. Ninguém se
inspira com a verdade. O que faz a experiência da vida ser interessante é a
farsa, os rituais rebuscados que complicam o que é simples. Não queremos a
verdade, nos revoltamos contra ela. O efeito placebo das medicações, o efeito
da fé para os religiosos. Guerras são criadas e alimentadas com base em
mentiras. Queremos acreditar que o posicionamento das estrelas na hora de nosso
nascimento possui alguma relevância em nosso comportamento, olhamos para o céu
com o mesmo fascínio dos antigos, admirando o comum, na esperança inconsciente
de encontrarmos o extraordinário. Welles confirmou isso em sua polêmica narração
de rádio sobre a invasão marciana, algo que apavorou famílias inteiras. E, com
base nessa reflexão sobre verdades e mentiras, ele criou esse excelente filme-ensaio.

Quando jovem, ele fingiu ter experiência como diretor de
teatro, para conseguir sua primeira oportunidade no mercado, e brinca que
poderia ter ido pra cadeia após o tumulto causado por sua narração de “A Guerra
dos Mundos”, porém, acabou sendo mandado pra Hollywood, recebendo sinal verde
para a produção de “Cidadão Kane”. Ninguém melhor que ele, um apaixonado por
ilusionismo, tendo aprendido seus primeiros truques com Houdini, para falar
sobre o falsificador de pinturas húngaro Elmyr de Hory, usado por seu biógrafo,
Clifford Irving, que forjou uma conversação gravada com o recluso Howard
Hughes, utilizando esse material como base para um livro. Orson também
falsifica a reportagem sobre Hughes, exibida no filme como um registro real, chegando
a utilizar um membro de sua equipe técnica interpretando o apresentador do telejornal.
Três falsificadores muito competentes, três áreas artísticas: cinema, pintura e
literatura. Mas a proposta não se resume a essa análise, vai muito além,
discutindo a própria definição de autoralidade, questionando, em uma das
sequências mais filosoficamente profundas no terceiro ato, a importância exagerada
dada ao autor, o valor exagerado dado ao nome. Quando tudo for eventualmente
consumido pelas guerras, ou pelo desgaste natural do tempo, a fraude e o
autêntico irão perecer da mesma forma. O ser humano morrerá, e, sem o olho
humano para validar a arte, da mais bela peça original até a mais desleixada
cópia, tudo será lixo, tudo será nada. Celebremos então a beleza das catedrais,
ainda que não saibamos os nomes daqueles que as construíram. A arte é mais
importante que o artista.

A forma que ele utiliza pra passar a mensagem, com uma
montagem caoticamente ousada e coerente com o tom piadista do discurso, acaba
nos colocando como plateia de um show de prestidigitação, constantemente sendo
guiados para focar a atenção na mão errada, enquanto o diretor, abusando de sua
competente oratória, brinca com as expectativas. A conclusão se dá após a
primeira hora da produção, com uma reencenação do encontro entre sua musa Oja
Kodar, o avô moribundo dela e o pintor Pablo Picasso. É o clímax de um truque
de mágica que esconde, em seu cerne, uma resposta aos textos da crítica Pauline
Kael, que, no ano anterior, havia questionado a autoralidade de “Cidadão Kane”,
diminuindo a participação de Welles em sua criação. Ele provou estar certo, mas
o impacto da controvérsia na imagem dele enquanto artista foi prejudicial. Kael,
a crítica de arte, uma especialista, alguém que precisa acreditar deter o poder
de afirmar o que possui valor e o que não tem valor algum. Ela vive da farsa,
tanto quanto os outros personagens do filme, assim como você e eu.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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