Introduzindo o Cinema na Vida dos seus Filhos (4 de 4)

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    Com sorte, nessa passagem de fase você já apresentou aos
    seus filhos a beleza de filmes como “A Bela e a Fera” (propondo uma comparação
    entre a versão de Jean Cocteau e a animação da Disney), “Os Goonies” e “E.T. –
    O Extraterrestre”. O pré-adolescente já entende cinema como uma arte que se
    divide em vários gêneros, cada um com sua beleza, o que irá impedir no futuro
    que ele cometa a estupidez de muitos estudantes da área. Ensine aos seus filhos
    que não existe “filme de arte”, existem filmes de propostas diferentes. Um
    excelente filme de terror é tão importante quanto um excelente drama, ou um excelente
    filme de artes marciais. Os grandes diretores sempre beberam da fonte dos
    gêneros, assim como os críticos de cinema mais respeitados. Somente os imbecis,
    os inseguros e incompetentes, segregam e incentivam discursos de ódio.

    Vamos então partir para a fase final desse especial, que vai
    de quatorze a dezoito anos. Vou sugerir algumas opções iniciais. Que tal propor
    uma tarde temática com “A Noviça Rebelde”, “A Lista de Schindler” e “Cemitério
    dos Vagalumes”? Três produções que abordam a Segunda Guerra Mundial de maneiras
    completamente diferentes, estilos distintos, musical, drama e animação. O
    pré-adolescente irá agregar os ensinamentos do professor de História às suas
    conversas no sofá de casa, enquanto apreciam esses excelentes filmes. Sugestão
    de viés para o bate-papo após a sessão do musical: Podemos assistir pelo ponto
    de vista do amargurado e sisudo capitão Von Trapp (Christopher Plummer), que
    após o falecimento de sua esposa, dedicou-se a uma vida reclusa. Seus sete
    filhos são o reflexo perfeito de sua criação distante e fria. Rebeldes e
    medrosos, sempre tentam afastar as pessoas de suas vidas. Ao conhecerem a nova
    governanta, que os trata como iguais, respeitam-na como uma amiga. O mesmo
    ocorre com o capitão, que pouco a pouco percebe a luz que irradia afastando as
    sombras de sua mansão, sempre que Maria está presente. Com ela, reaprende a
    cantar e faz por merecer a admiração dos filhos. Por esse prisma, as canções se
    tornam protestos velados, pequenas batalhas interiores, como na bela e patriótica:
    “Edelweiss”, que, em sua primeira versão, transforma o capitão amargurado no
    homem admirável que ele escolheria ser a partir daquele momento. Já em sua
    versão ao final, torna-se um grito de protesto contra os nazistas que tomavam o
    controle de sua amada nação. Numa linda analogia, próximo ao final da música, a
    voz embargada de Plummer intenciona perder a força, somente para vermos a união
    da família que invade a canção em coro, empolgando toda a plateia que responde
    em uníssono, com orgulho e emoção renovados.

    Não há melhor momento para apresentar seus filhos a “Clube
    dos Cinco”, de John Hughes, a melhor produção a abordar os conflitos internos
    da adolescência. Na história, cinco estudantes ginasiais encontram-se detidos e
    tendo que passar o Sábado juntos na sala de aula, sendo obrigados a escrever
    uma redação redimindo-os do erro. O toque de genialidade de Hughes foi fazer
    dos cinco jovens, símbolos e estereótipos de cinco características comuns e
    universais da idade. O rebelde violento, o esportista valentão, a menina
    mimada, a esquisita e onerd. Eles terão que se confrontar e descobrir que
    não são tão diferentes como imaginavam. Ao final, como forma de aliviar o
    debate, uma comédia despretensiosa: “O Rapto do Menino Dourado”, e, se
    possível, com a dublagem fantástica de Mário Jorge, que faz até as cenas mais
    fracas do original soarem incrivelmente engraçadas. Já que toquei no assunto,
    por gentileza, não estimule em seus filhos o preconceito contra a ferramenta da
    dublagem. Respeitar a dublagem é, acima de tudo, ser grato por todos os filmes
    que aprendemos a amar na infância. Incentive sempre a leitura, mas não
    simplifique o discurso. É normal apreciar a dublagem e ser um ávido leitor. Eu
    sou fluente em inglês, já fui professor, vejo os filmes em inglês no original
    (sem legenda), com legenda e dublados. Quando algum crítico tonto incitar o
    ódio nesse tema, tenha pena do pobre coitado, apenas mais um attention whore,
    interessado mais em admirar seu próprio umbigo, do que em propagar o amor pela
    sétima arte.

    Mais algumas sugestões importantes em variados gêneros: “A
    Nova Transa da Pantera Cor de Rosa” e “Um Convidado Bem Trapalhão” (excelente
    introdução aos trabalhos de Peter Sellers e Blake Edwards), “Os Pássaros” (bom
    ponto de partida para a obra de Alfred Hitchcock), “O Planeta dos Macacos”, de
    1968, e suas quatro continuações, “Tubarão”, “Era Uma Vez no Oeste” (ótima
    introdução aos trabalhos de Sergio Leone), “Matar ou Morrer” e “Os Brutos
    Também Amam”. “O Dragão Chinês” e “A Fúria do Dragão” (Bruce Lee é sempre uma
    forma agradável de apresentar os filmes de artes marciais), numa semana
    temática com: “Os Cinco Venenos de Shaolin” (dos Shaw Brothers), “Arrebentando
    em Nova York” (com Jackie Chan) e “Matrix”, mostrando como o cinema norte-americano
    absorveu o estilo. “O Massacre da Serra Elétrica” (o original, claro), numa
    dobradinha com “O Silêncio dos Inocentes”. Ao invés de mostrar para o
    adolescente “E o Vento Levou…” (que funciona exatamente como mostrar Dom
    Casmurro para crianças na escola), comece com “Os Pássaros Feridos”, “A
    Felicidade Não se Compra” e “Paraíso Infernal” (excelente introdução aos
    trabalhos de Howard Hawks).

    Que tal realizar uma sessão-dupla, com “O Rei Leão” (da
    Disney) e “Princesa Mononoke” (de Hayao Miyazaki)? Para os meninos, já está
    mais que na hora de apresentar as aventuras de James Bond. Sugiro começar
    mostrando nessa ordem: “007 Contra Goldfinger”, “Moscou Contra 007” e “007 –
    Viva e Deixe Morrer”. Caso ele goste, mostre os outros, além de incentivar que
    ele leia as obras originais de Ian Fleming. Faça uma semana temática somente
    com filmes do Woody Allen, cinco tardes imersas na obra desse gênio. Sugiro que
    inicie com esses títulos: “A Última Noite de Boris Grushenko”, “Noivo
    Neurótico, Noiva Nervosa”, “A Rosa Púrpura do Cairo”, “O Dorminhoco” e “Um
    Assaltante Bem Trapalhão”. E, já no final da “terceira fase”, como presente
    pelo empenho dos jovens, apresente a trilogia “O Poderoso Chefão”, sugerindo
    que eles busquem o complemento literário, o excelente livro de Mario Puzo. Com
    essa base que sugeri nesses quatro textos, tenha certeza, seus filhos estarão
    mais do que preparados para desbravarem esse universo fascinante do cinema. Sem
    preconceitos, sem cabresto, intensamente apaixonados.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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