“Perigosa”, de Alfred E. Green

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    Perigosa (Dangerous – 1935)

    Joyce Heath (Bette Davis) é uma atriz alcoólatra e
    autodestrutiva que abandonou os palcos prematuramente. Um rico e comprometido
    arquiteto, Don Bellows (Franchot Tone), encontra-a em um bar e a ajuda a se
    recuperar para que ela volte a trabalhar. Os dois se apaixonam e ele resolve terminar
    o seu noivado. Don também decide produzir a volta de Joyce em uma peça e se casar
    com ela após a noite de estreia. Mas Joyce tem um segredo em seu passado que
    irá afetar suas vidas para sempre.

    Pra que se tenha noção da força de Bette Davis, no auge de
    sua juventude aos vinte e sete anos, basta constatar que, sem ela, esse filme,
    dirigido por Alfred E. Green, teria se perdido nas brumas do passado. A atuação
    dela como Joyce Heath, outrora uma estrela promissora da Broadway, cujos
    caminhos foram fechados por seu descontrole emocional e pelo vício do álcool,
    faz com que relevemos os problemas de narrativa e o desfecho pouco inspirado.
    Ela engrandece a obra a cada diálogo, insinuando uma personalidade que só pode
    ser suportável enquanto está no palco, extravasando seus demônios internos, o
    que justifica o seu primeiro prêmio da Academia.

    Quando ela ataca seu
    benfeitor, vivido por Franchot Tone, ela está se autoflagelando, já que sabe
    que, com sua arte, foi a grande inspiração para as escolhas do rapaz. Ela diz: “Eu
    vivi mais em um dia, do que você em sua vida inteira”, consciente de que, ao
    invés de ódio, irá fazer nascer piedade, exatamente o que ela precisa para
    conquistar sua chance de redenção artística, claro, com o investimento financeiro
    dele, já que ninguém na indústria teria coragem de bancar alguém tão problemática. Determinada como poucas, ela é capaz de colocar sua própria vida em risco num acidente de carro,
    como o terceiro ato demonstra. Atuar, para a protagonista, não passa de terapia
    para controlar frequentemente sua raiva e mascarar sua vulnerabilidade psicológica. O roteiro
    de Laird Doyle questiona se uma atriz pode ser impecável nos palcos e
    plenamente feliz em sua vida privada. Um tema ousado e que havia sido
    trabalhado no ano anterior pelo diretor Max Ophüls, no injustamente esquecido: “La
    Signora di Tutti”.

    Na época do filme, Davis ainda não havia construído sua marcante
    imagem pública, então dá pra imaginar o impacto dessa abordagem nos
    espectadores.

    * O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora “Classicline”.

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    Octavio Caruso
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