Você conhece a obra do diretor japonês Seijun Suzuki?

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Com a ascensão da televisão no início da década de sessenta, toda a indústria de cinema sofreu um abalo, com os produtores buscando formas de atrair o público. Shintoho, um dos seis grandes estúdios japoneses, não aguentou a crise e abriu falência. A Toei apostou na desconstrução dos mitos com roteiros que abordavam a yakuza de forma mais violenta e cínica. A Toho conseguiu sobrevida focando na ficção científica, com Godzilla e outros monstros. Já a Nikkatsu arriscou com jovens diretores autorais, que tinham um estilo bem ousado, como Seijun Suzuki, ainda que ele tenha sido despedido alguns anos depois por realizar projetos considerados ousados demais na visão dos seus superiores. Ele, com sua rebeldia elegante ao desprezar seguir moldes narrativos, fez parte da chamada “Nova Onda” japonesa, cineastas que, assim como os franceses do mesmo período, faziam uso de novas técnicas, abusando de edição e enquadramentos antagônicos à tradição dos mestres de outrora, explorando temas espinhosos, criando alegorias críticas da sociedade do pós-guerra.

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Tóquio Violenta (Tokyo Nagaremono – 1966)

Braço direito da Yakuza resolve abandonar a carreira
criminosa com seu chefe, mas uma gangue rival não deixará que isso aconteça.

Em “Tóquio Violenta”, você percebe claramente que Suzuki obedecia regras próprias, uma espécie de Monte Hellman do cinema japonês. Ele transforma uma história simples de yakuza, subvertida em tom óbvio de paródia do gênero, em uma profusão de ideias muito criativas, buscando inspiração até mesmo nos faroestes de John Ford, reservando espaço para uma crítica ácida sobre um povo que absorvia gradativamente a cultura norte-americana, em detrimento de seus próprios valores. Na experiência de imersão ele provoca o incômodo imediato, sequências de musical inseridas numa trama policial, a abertura monocromática que conduz ao vermelho sangue de um revólver quebrado de brinquedo, os interiores de um abstrato quase inacreditável em seu minimalismo, um tiroteio que é coreografado como teatro kabuki, o uso extravagante de cores berrantes, não são poucas as cenas que farão você provavelmente querer pausar o DVD e rever. O todo não interessa ao Suzuki, o fiapo de estrutura narrativa serve de trampolim para ele brincar com a ferramenta, a psicologia dos personagens e suas motivações, nada disso importa, o destino sempre é menos interessante que a jornada. Recomendo que seja visto em sessão dupla com o moderno “Drive”, de Nicolas Winding Refn, que bebeu demais dessa fonte.

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História de Uma Prostituta (Shunpu Den – 1965)

Uma prostituta é humilhada por um oficial. Ela resolve se
vingar, usando um soldado para provocar ciúmes no oficial.

Pode causar estranheza por ser o filme menos estilizado da caixa, a refilmagem de um projeto roteirizado por Akira Kurosawa no início da década de cinquenta, um melodrama antiguerra mais convencional, mas não menos brilhante, que foca sua atenção em uma protagonista cujas ações simbolizam a rejeição dos valores sociais, expondo a hipocrisia por trás dos rituais tradicionais, uma temática que se aproxima muito dos trabalhos de Mizoguchi. É interessante perceber que a harmonia do casal, a prostituta e o soldado, encontra resistência na incapacidade dele de ir contra o absurdo código de conduta militar, alicerçado em um sentido muito equivocado de honra. A bela fotografia em preto e branco impressiona em sequências que carregam o traço autoral de Suzuki, como quando a mulher corre pelo campo de batalha para se encontrar com o amante ferido, ou no interlúdio onírico em que ela enxerga o soldado a caminho de sua salvação, em câmera lenta. O filme é a adaptação de um livro de Taijiro Tamura, mesmo autor de “Portal da Carne”, e o roteiro trabalha muito bem a filosofia dele de que o corpo é tudo o que há, o que conduz a protagonista à compreensão de que somente através do prazer consequente do contato físico, através das sensações despertadas pelo sexo, ela pode realmente conhecer um indivíduo.

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A Vida de Um Tatuado (Irezumi Ichidai – 1965)

Dois irmãos yakuza tentam ter uma vida honesta numa
cidadezinha do interior, mas não conseguem fugir do passado criminoso.

Uma das maiores inspirações para o “Kill Bill”, de Tarantino. É o que normalmente se escreve quando se aborda esse filme, que é o meu favorito do diretor. Tremenda injustiça, reduzir essa espetacular obra-prima à posição de influenciadora de um projeto menor, ainda que popular e divertido. Sem revelar muito sobre a trama, para não prejudicar a experiência daqueles que irão conhecê-la na caixa, foi a primeira vez que Suzuki recebeu um alerta de seus superiores sobre ter ido longe demais em seu estilo, o que, por si só, já seria motivo suficiente pra despertar o seu interesse e fazer com que redobre a atenção especialmente em seu magnífico desfecho. A história incita investimento emocional, algo que não é usual na filmografia dele, por isso considero um excelente ponto de partida. O segundo ato tem um ritmo inteligentemente mais lento, exatamente para estabelecer com cuidado a relação entre os irmãos, especialmente suas motivações antagônicas, o que favorece a catarse psicodélica que ocorre no terceiro ato. Sobra espaço no roteiro até mesmo para uma subtrama romântica. “A Vida de Um Tatuado” mostra Suzuki dominando o equilíbrio perfeito entre suas invencionices autorais e a necessidade de entregar um produto de valor comercial.

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Portal da Carne (Nikutai no Mon – 1964)
Após a Segunda Guerra, nas favelas de Tóquio, algumas
prostitutas adotam um código estrito de conduta.

O nível de degradação moral segue impactante como na época de sua estreia, acompanhando a rotina de um coletivo de personagens destituídos de qualquer senso de empatia no cenário deprimente do pós-guerra. Os ritos sadomasoquistas de punição para aquela que se deitar com alguém por amor, erotismo transgressor, são os responsáveis por manter alguma espécie de ordem social no decrépito esconderijo bombardeado das prostitutas. O veterano de guerra que invade o local e acaba ganhando a simpatia das mulheres, decepcionado em alto grau com a condição humana, já que viveu um período anterior mais civilizado, decide viver apenas estimulado pelos instintos primitivos básicos da fome e do sexo. A viúva que veste quimono, a única no local que também conheceu uma época mais digna, sendo forçada a vender seu corpo para sobreviver, sonhando com alguém que a possibilite a liberdade pelo casamento, acaba permitindo que um estranho gentil fique sem pagar, o que causa a revolta das colegas. Nesses dois personagens fascinantes, os resíduos de outrora travam conflito constante com a realidade opressora e desesperançada. Na utilização de efeitos de superimposição e no uso das cores berrantes, traduzindo a personalidade distinta de cada uma das prostitutas, você percebe a característica inventividade do diretor, dessa vez, mais interessado em contar sua história, do que em utilizar ela como desculpa para suas experimentações visuais.

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* Os filmes estão sendo lançados em DVD, inéditas versões restauradas, pela distribuidora “Versátil”, com a curadoria sempre competente de Fernando Brito, na caixa “A Arte de Seijun Suzuki”, que conta também com ótimas entrevistas com o diretor e membros da equipe sobre todas as obras.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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