A Gênese de Stanley Kubrick



Medo e Desejo (Fear and Desire – 1953)

Quatro soldados sobrevivem à queda de seu avião e se
encontram em uma floresta a seis milhas atrás das linhas inimigas. O grupo,
liderado pelo tenente Corby, tem um plano – fazer seu caminho para um rio
próximo, construir uma jangada e, em seguida, à noite, flutuar de volta para
território amigo. Seus planos para voltar com segurança são desviados por uma
jovem mulher que se depara com eles.

Com exceção de “Lolita”, o único que pode ser considerado
irregular, a filmografia de Stanley Kubrick é impressionantemente formada por
obras-primas em variados gêneros. Esse primeiro trabalho, financiado pelo
próprio diretor, acumulando funções como forma de driblar as limitações
orçamentárias, já demonstra incrível domínio de câmera, além de uma preocupação
pouco usual com o subtexto filosófico que move a narrativa, explorando com
lirismo os sentimentos dos soldados que lutam para que a loucura não os domine,
mérito do roteiro de Howard Sackler. Há também influência de Eisenstein na
forma como ele trabalha as elipses visuais em uma sequência de ataque. Também é
válido citar a curiosa reutilização de atores em lados opostos na batalha, algo
que pode não ser percebido numa primeira sessão, mas agrega camadas de
interpretação em revisão. Essa abordagem sobre as consequências desumanizantes de uma guerra voltaria a ser trabalhada pelo diretor, com maior eficiência, em “Nascido Para Matar”, mas é preciso salientar a coragem desse comentário social defendido com segurança por um cineasta de pouco mais de vinte anos de idade, no período em que o mundo ainda estava se recuperando da Segunda Guerra Mundial, com direito a uma insinuação de estupro que desafiava os censores. A atmosfera que remete aos episódios de “Além da Imaginação”, esforço consciente de retratar a estupidez do conflito como algo surreal, transforma a floresta em algo quase sobrenatural, um purgatório onde os personagens andam em círculos, sem esperança de redenção.



A Morte Passou Perto (Killer’s Kiss – 1955)

Em Nova York um lutador de boxe conhece uma dançarina quando
esta é atacada por seu patrão e amante. Este acontecimento acaba provocando o
envolvimento dos dois, mas o amante preterido, dominado pelo ciúme e pelo ódio,
manda matar seu rival. Entretanto, em virtude de um equívoco, os capangas matam
o empresário do lutador. O casal, vendo que corre perigo, tenta deixar a cidade
para sempre.



Também financiado na garra, com ajuda do dinheiro emprestado de um
tio, essa segunda produção pode parecer convencional na superfície, menos
ambiciosa em suas ideias que a anterior, mas um olhar atento encontra um jovem
audacioso tentando deixar sua marca. A estrutura é a do noir, desconstruído ao
optar por um final feliz, contado em flashback com utilização generosa de
monólogos internos, cortesia de Sackler, emoldurando um triângulo amoroso
aparentemente simples, entre um boxeador, uma prostituta e seu cafetão. Kubrick
substitui a alegoria de “Medo e Desejo” por uma visão mais realista, quase
patética, desses personagens inseridos em uma sociedade corrompida. Em uma
incrível sequência de boxe, dá pra perceber a fonte em que Scorsese bebeu para
o seu “Touro Indomável”, com uso de câmera na mão em ângulos expressionistas e
priorizando o som da respiração dos lutadores. Mais adiante, numa criativa cena
de sonho onde a câmera atravessa rapidamente uma rua, a imagem em negativo
antecipa um recurso que o diretor utilizaria em “2001 – Uma Odisseia no Espaço”,
na famosa sequência do túnel espacial. Mas nenhum momento deixa mais clara a
audácia de Kubrick que o longo conflito final entre o boxeador e o cafetão, testemunhado
por vários manequins femininos em um depósito. Na selvageria dos dois, chegam a
utilizar aquelas bonecas como arma, uma interessante metáfora visual, eles
lutam de forma inconsequente, até desajeitada, pelo domínio daquela passiva mulher-objeto.


O Grande Golpe (The Killing – 1956)
Quando o ex-presidiário Johnny Clay (Sterling Hayden) diz
que tem um grande plano, todos querem participar. Especialmente quando o plano
é roubar 2 milhões de dólares em um esquema “ninguém vai se
machucar”. Mas, apesar do planejamento cuidadoso, Clay e seus homens se
esqueceram de uma coisa: Sherry Peatty (Marie Windsor), uma garota ambiciosa e
traiçoeira que está planejando um grande golpe só seu.

Após dois projetos de guerrilha com estéticas muito
originais, esse ótimo filme de assalto mostra um diretor mais domado, com tudo
calculado, buscando a apreciação do público mainstream, uma atitude que
culminaria no épico “Spartacus”, excelente produto comercial, mas longe dos
experimentos mais autorais que ele retomaria com “Dr. Fantástico”. Trabalhando
pela primeira vez com financiamento profissional, um orçamento mais digno, o
que possibilitou a entrada de um diretor de fotografia, o competente Lucien
Ballard, o jovem conseguiu escalar atores experientes, como Sterling Hayden e
Elisha Cook. O desfecho inesquecível, que não ousarei revelar para não estragar a experiência de quem ainda não viu, só tem aquele
impacto maravilhoso graças à impecável construção de clima desde a primeira cena, um
suspense que só é eficiente porque o roteiro estabelece personagens
verdadeiramente interessantes, ainda que nada carismáticos. O próprio protagonista, vivido por Hayden, parece ser incapaz de expressar qualquer emoção. Por outro lado, temos George (Cook), a representação da fragilidade humana, um patético marido que é atraído ao crime como forma de tentar reconquistar a admiração da esposa, um respeito que nunca existiu na relação. Na execução do
plano do grupo, Kubrick esmerilha ao ousar trilhar um caminho não linear, sobrepondo ações dos ladrões no que se torna um
quebra-cabeça instigante, atitude que até mesmo no cinema moderno poderia ser considerada arriscada demais por muitos produtores. A coragem que o cineasta já apresentava em seu primeiro trabalho encontra aqui sua voz mais madura. 

Glória Feita de Sangue (Paths of Glory – 1957)
Quando soldados franceses nas
trincheiras da Primeira Guerra Mundial recusam-se a continuar um ataque
aparentemente impossível de se vencer, seus superiores resolvem levá-los à
corte marcial, onde poderão ser julgados à morte.

Poucas cenas na história do gênero são mais impactantes em seu simbolismo, após várias exibições de barbárie no campo de batalha, Kubrick opta por encerrar o filme com a desilusão do coronel, vivido brilhantemente por Kirk Douglas, ao ver seus soldados debochando de uma tímida jovem alemã, que chora enquanto é levada a subir contra sua vontade num palco improvisado, totalmente indefesa. Eles exigem que ela cante algo pra entreter a tropa. A voz dela, imbuída da resistência que só é explicável pela dignidade que ainda luta para se manter ereta, acaba tocando os recônditos da memória afetiva dos soldados, aquela frágil lembrança dos indivíduos livres que eles foram antes do militarismo os transformar em máquinas que aceitam ordens sem questionamento. Aos poucos, a voz fraca vai calando os gritos, os adultos se tornam crianças com saudade de suas mães, eles choram mesmo sem plena compreensão da letra entoada em outra língua, lágrimas que representam a dor de toda a humanidade perante a loucura da guerra. Aquela música salientou a estupidez que os colocava em posições opostas, um recurso simples e brutal que nunca foi igualado em obras similares. A esperança reside no simbolismo desse desfecho, ainda há humanidade, corroborando a atitude do coronel que atuou como advogado de defesa de três de seus soldados, contra a covardia de seus superiores. A jovem atriz da cena final, Christiane Harlan, no ano seguinte se casaria com Kubrick, um relacionamento que durou até o falecimento do cineasta, em 1999. 






Os filmes estão sendo lançados em Blu-ray pela distribuidora “Versátil”, com a curadoria sempre impecável de Fernando Brito, na caixa “Kubrick Essencial”, em parceria exclusiva com a Livraria Cultura, que conta também com os três curtas iniciais do diretor e excelentes documentários sobre cada projeto. 

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