“Jornada nas Estrelas – O Filme”, de Robert Wise

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    Jornada nas Estrelas – O Filme (Star Trek: The Motion Picture – 1979)

    Celebrando o aniversário de cinquenta anos de “Star Trek”,
    revi o DVD com a Versão do Diretor, que considero a definitiva, a melhor forma
    de apreciar essa obra. O fenômeno “Star Wars” foi o responsável pelo interesse
    dos produtores em resgatar a série clássica de Gene Roddenberry para sua
    primeira aventura cinematográfica, mas a história de Alan Dean Foster presta
    reverência à grandeza reflexiva da obra-prima: “2001 – Uma Odisseia no Espaço”,
    com o uso frequente de longas tomadas de apreciação do universo em que a equipe
    de heróis está inserida, reforçadas pela competência nos efeitos de Douglas
    Trumbull, que também foi responsável pelo clássico de Kubrick. O que muitos
    enxergam como um andamento arrastado, na realidade traz intrínseco nos
    questionamentos que propõe um peso intelectual adulto que faz as novas
    produções na franquia parecerem divertidos livros infantis. É fiel ao espírito
    dos episódios, trata com respeito os personagens principais, entrega boas
    tiradas de humor e esporádicas sequências de ação, com a ousadia de não se
    debruçar em vilões caricatos, estratégia que seria impensável na indústria de
    hoje.

    O ritmo lento trabalha a favor da narrativa, por exemplo,
    após uma demorada exibição da nave Enterprise, emoldurada pela linda trilha
    sonora de Jerry Goldsmith, o veterano capitão Kirk adentra uma caótica ponte de
    comando tomada pelos barulhentos jovens tripulantes, uma nova geração que é
    representada pela figura de Decker, que fica indignado ao descobrir que será
    substituído por aquele coroa. O caso é que William Shatner, visivelmente
    orgulhoso de retornar ao personagem, entra no jogo de Stephen Collins, elevando
    consideravelmente a qualidade dos diálogos nesse conflito com olhares e gestos
    sutis, coisa de quem conhece plenamente as motivações emocionais que fogem às
    páginas do roteiro. A preocupação em jogar luz em cada cantinho da nave,
    detalhando situações comuns com o olhar de um pesquisador, nada mais é que uma
    evolução necessária das limitações técnicas da série televisiva. A nave se
    transforma praticamente em um personagem vivo, você se importa com o carinho
    que a tripulação sente por aquele patrimônio, o que faz cada ameaça ao seu
    funcionamento ser mais eficiente, possibilitando a força emocional da cena de sua
    destruição no desfecho da terceira produção.

    A direção do grande Robert Wise potencializa a elegância
    épica da trama, a direção de arte austera, os uniformes da tripulação são perceptivelmente
    desconfortáveis, ao contrário das camisetas simples da década de sessenta, quase
    como armaduras em seu corte, o que exigia que o elenco se mantivesse num estado
    de alerta constante, figuras míticas imponentes, algo que se perdeu já no filme
    seguinte, que funciona melhor como entretenimento, mas não tem a mesma
    relevância. “Jornada nas Estrelas – O Filme” é uma boa graphic novel, enquanto “A
    Ira de Khan” é um excelente gibizinho mensal. A ideia da procura pelo criador,
    algo que seria retrabalhado de forma inferior no quinto filme, ganha contornos
    filosóficos surpreendentes ao ser compreendida pelo único membro plenamente
    lógico e racional: Spock, o saudoso Leonard Nimoy. Ele chora por V’Ger, ele se
    identifica com o desespero causado pelo vazio existencial. Somente a
    racionalidade e o conhecimento não bastam para que fiquemos satisfeitos,
    precisamos de algo mais, o mistério nos motiva a seguir caminhando
    inexoravelmente em direção ao fim de tudo, a sensação de fazer parte de algo maior
    nos conforta e alivia o fardo.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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