Sétima Arte em Cenas – “Aguirre, a Cólera dos Deuses”, de Werner Herzog

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    Link para os textos do especial:
    http://www.devotudoaocinema.com.br/p/7-arte-em-cenas.html

    Aguirre, a Cólera dos Deuses (Aguirre, Der Zorn Gottes –
    1972)

    Quando o diretor Werner Herzog, utilizando o senso de
    urgência documental da câmera 35mm na mão, registra intrusivamente o confronto
    do personagem ganancioso de Klaus Kinski com a imponente e imponderável força
    da natureza, a megalomania ensandecida de Aguirre acaba se mostrando mais
    ameaçadora que as flechas envenenadas dos índios. A opção pelo realismo estético
    nessa alegoria poderosa, inspirada em um capítulo real da história da colonização
    da América Latina, enfatiza a distorcida autoimagem do homem, reforçada pela
    movimentação assimétrica que remete a um animal acuado, um nobre que enxerga na
    procriação com a própria filha adolescente o caminho para uma linhagem pura.

    O contexto é essencialmente doente, o líder conquistador Francisco
    Pizarro, um analfabeto criador de porcos, dá o tom da deturpada missão conduzida
    por essa coletividade isolada da civilização, tendo como representação divina e
    narrador oficial para o espectador o Frei Gaspar de Carvajal, que afirma sem
    titubear: não importa com quem esteja a razão, a igreja sempre estará no lado
    do mais forte. A lei da sobrevivência, o domínio do mais agressivo pelo medo, a
    imposição cultural em terras estranhas, segurando o chicote sempre ao nível dos
    olhos dos escravos ajoelhados, a fundação da doutrina que ainda hoje se
    posiciona sobre os mais diversos assuntos, do alto de seus palácios dourados. O
    nível de falsidade que é necessário para manter o ritual relevante, mantos coloridos,
    frases repetidas e joias, assim como as roupas elegantes dos conquistadores que
    dificultam a travessia na floresta mostrada na longa sequência inicial, apenas
    evidenciam as rachaduras nos alicerces. É impossível não refletir sobre a progressiva
    desumanização dos integrantes da comitiva ao constatarem que a riqueza sonhada,
    a mítica El Dorado, não passa de ilusão alimentada pelos delírios de grandeza
    do líder. Os terrenos que o imperador de barro aponta ao longe como suas
    propriedades, simbologia da arrogância usual em todos aqueles que são alçados
    ao poder sem mérito, fadados ao sono intranquilo dos inseguros. A fragilidade
    dos corpos, sede e fome, uma realidade pungente que rejeita naturalmente qualquer
    teatralidade. Ao quebrar a quarta parede em cenas tonalmente antagônicas, quase
    cômicas, mostrando a cabeça decapitada que se mantém falando, ou a vítima de
    uma flecha longa informando que aquele projétil maior estava na moda, referência
    ao texto da islandesa Saga de Grettir, Herzog sinaliza para a banalização da
    violência, elemento indissociável na formação da sociedade.

    A sequência que justifica a inclusão do filme nesse especial
    é a que encerra a trama, com ecos de “O Coração das Trevas”, de Joseph Conrad.
    A câmera mostra os corpos já penetrados pelas flechas, inclusive o de sua
    idolatrada filha, a morte onipresente como punição silenciosa, a embarcação
    destruída e tomada por macaquinhos que parecem debochar do vazio conceito de
    nobreza sustentado por seus falecidos pares. No centro de tudo, Aguirre, o
    olhar perdido no horizonte misterioso, ainda sonha em administrar seu império. A
    onírica imagem do barco sobre a árvore é a testemunha distante de uma alma
    amaldiçoada à loucura solitária daquele que ousou enfrentar a natureza.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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