Os Melhores Filmes do Ano – 2016

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1 – A Chegada (Arrival), de Denis Villeneuve

Ao ser convocada para tentar estabelecer contato com os visitantes alienígenas, a doutora em linguística, mostrada inicialmente como uma pessoa melancólica que optou pela solidão como fuga, por medo de sofrer, encontra motivação profissional e refúgio existencial. A complexidade na expressão dos alienígenas, como o kanji japonês, através de ideogramas ricos em significados, representa um desafio amedrontador, assim como a perspectiva de
futuro da mãe que precisa educar pelo exemplo, encontrando o equilíbrio entre as aspirações que nutre pela filha e o choque irreversível de estar lidando com um ser estranho e que precisa firmar sua personalidade própria, ainda que nascido de seu ventre. O delicado contato deve ser mediado sempre pelo desejo genuíno de compreensão do outro, mas, como o filme evidencia, a raça humana é propensa ao apedrejamento como resposta imediatista para qualquer pergunta mais difícil. A mãe repele o questionamento indesejado da filha, desviando a responsabilidade para o pai; os militares optam facilmente pela violência perante o medo do desconhecido. O resultado é o mesmo. Exatamente como no conto, “A Chegada” não é sobre uma invasão alienígena, não é sobre o contato com o desconhecido mundo externo. A alegoria apenas injeta suspense, serve na realidade como veículo refinado para uma linda história de amor entre mãe e filha, uma difícil jornada interna de compreensão da dor como elemento inevitável na experiência do amadurecimento, uma declaração libertária de união entre povos, um alerta precioso para a necessidade do diálogo como antídoto contra a agressividade da intolerância, em suma, um filme que traz esperança em um momento politicamente sombrio para os norte-americanos. Somos definidos por nossas escolhas, mas caso pudéssemos optar entre sofrer a dor de um amor fadado a ter um fim horrível, ou simplesmente evitar o primeiro encontro com a pessoa, qual caminho escolheríamos? Essa é a questão que o roteiro de Eric Heisserer faz, com plena consciência de que a única resposta humanamente aceitável é a mais sádica, emoções não são forjadas em ambientes assépticos, George Lucas já provava isso em “THX 1138”. A protagonista Louise, vivida por Amy Adams, sabe que a dor do término de uma relação, por mais avassaladora que seja a ruptura, não desvaloriza os bons momentos que a antecedem, a mágica interação, a troca de carinho, a força do perdão, pegadas na areia que serão inexoravelmente apagadas pelas ondas. É discutível até que a aceitação lúcida da finitude seja o elemento que verdadeiramente engrandeça a experiência. Sem um ponto final, qualquer frase perde relevância…

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2 – Elle, de Paul Verhoeven

O cineasta Paul Verhoeven, como de costume, utiliza a violência gráfica como veículo para tratar de assuntos espinhosos. O estupro sofrido logo na primeira cena, repetido em detalhes depois em flashback, existe como forma de colocar em confronto Michèle e suas muitas travas emocionais, os obstáculos que a impedem de seguir em frente, presa aos fantasmas do passado criminoso do pai, presa ao sentimento de culpa na criação do filho, presa à insegurança que o marido deixou de legado ao abandonar ela por uma mulher mais
jovem, presa a uma imagem reducionista dela mesma. Perceba que o estuprador não
teve interesse em roubar nada na casa, ele desejava apenas satisfazer seu impulso sexual. Ela, que frequentemente se sente inferior como mulher perante as figuras femininas mais jovens, descobre da pior forma possível que ainda é desejada. Não é coincidência que, após o estupro, ela conquiste confiança para seduzir abertamente o vizinho na mesa de jantar de sua casa. Ela deixa de ser passiva sexualmente, cansa de ser vítima da deselegância do amante que a enxerga apenas como objeto, e parte para o ataque, com plena consciência da necessidade de satisfazer seus desejos. Quando ela vê que a esposa do vizinho é uma jovem recatada, altamente religiosa, nasce o desafio… 

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3 – O Quarto de Jack (Room), de Lenny Abrahamson

O primeiro aspecto brilhante que saliento é a atuação de Brie Larson. Vale perceber como ela reage quando o filho pede um cachorro. “There’s not enough room… Space, there’s not enough space”. Ela se pune internamente por ter dito a palavra “quarto” (room) levianamente, substituindo rapidamente pela palavra “espaço”, já que ela fez a criança acreditar que nada havia além daquele ambiente em que eles vivem: o Quarto (com letra maiúscula). Já fora do cativeiro, perceba como ela segue falando em tom extremamente baixo, até mesmo quando não há ninguém por perto, evidenciando o trauma de anos sendo levada a não chamar atenção. Pequenos detalhes que demonstram o cuidado do
filme, sublinhando sutilmente as consequências psicológicas da terrível experiência na personagem. Esse recurso da ilusão mantida como forma de proteção incita reflexões que vão muito além do tema, que pode ser visto como alegoria para o sistema de crenças humano. O menino questiona a mãe sobre o mundo do sonho: “Quando sonhamos, nós entramos na TV?”. Ele acha que além das paredes há apenas o espaço sideral. Aquele é o universo que ele conhece como prisioneiro na caverna de Platão, criando possibilidades a partir dos elementos que enxerga ao seu redor. O real é apenas o que ele consegue tocar…

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4 – Carol, de Todd Haynes

Até mesmo a incrível semelhança de Mara com Audrey Hepburn, maquiagem e adereços, possui interessante simbolismo, traçando um paralelo entre ela e a personagem de Hepburn em “A Princesa e o Plebeu”, uma princesa entediada que, abraçando o anonimato, embarca em uma viagem de exploração, inclusive, interna. O tédio faz parte da rotina de Thérese, vendedora em uma loja de departamentos, acostumada a ser incentivada pela gerência a se adequar a um padrão, simbolizado na cena em que ela lê o manual de condutas da empresa. A delicadeza na interação com aquela enigmática mulher que a aborda numa manhã, o gradual desejo cuidadosamente trabalhado nas primeiras conversas, a preocupação da jovem com a latente agressividade do marido de Carol, todas as etapas nessa relação conduzem naturalmente ao sexo, porém, até mesmo nessas
cenas, a câmera se mantém por mais tempo nos olhares, no toque dos lábios, afinal, a coreografia dos corpos importa menos que a alegria do contato finalmente satisfeito…

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5 – A Assassina (Nie yin niang), de Hou Hsien-Hsiao

A ação, quando ocorre, é abrupta, turva momentaneamente a água de um rio plácido, gestos rápidos e frios, anti-ação, porque o interesse do diretor está nos sentimentos dúbios que movem os personagens em seu cotidiano, não nos consequentes impulsos imediatistas. Os confrontos, doce ironia, são coerentes à realidade intensa desses guerreiros, altamente precisos e ágeis, sem a glamourização excessivamente elaborada, visando empolgação e não reflexão, que o cinema consagrou. O estudo dedicado sobre o período da dinastia Tang, pesquisa que se reflete na primorosa direção de arte fiel à arquitetura e ao estilo de vida, serve à adaptação do conto “Nie Yinniang”, de Pei Xing, como um estofo de realidade que inteligentemente evidencia ainda mais os elementos
utópicos, com a fotografia de Ping Bin Lee, do inesquecível “Amor à Flor da Pele”, atuando em vários momentos de forma subjetiva, como se enxergasse o mundo pelos olhos da etérea protagonista, vivida por Shu Qi, uma assassina treinada para se misturar às sombras e se mover como o vento, metáfora visual executada com elegância, uma mulher consciente de que está se esvaindo existencialmente, consciente de que nunca terá o conforto de um lar, punida severamente por ter demonstrado piedade, punida por ser humana. A câmera pacientemente esculpe o tempo, como nas obras de Tarkóvski, conduzindo o espectador a apreciar cada detalhe do enquadramento…

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6 – Snowden – Herói ou Traidor (Snowden), de Oliver Stone

Joseph Gordon-Levitt realiza um trabalho assustadoramente competente, conseguindo captar com riqueza de nuances os trejeitos e a voz do protagonista, compondo uma caracterização tão fiel que, mais tarde, quando o próprio Snowden é mostrado, o espectador não sente qualquer abalo na imersão, o recurso potencializa o investimento emocional e não soa forçado.A intenção clara é fazer com que o público se identifique
com o protagonista, buscando entender o escopo brutal do sacrifício, o incômodo
sentido ao perceber que a omissão é o pior crime que pode ser cometido. Como é
salientado em uma das cenas mais impactantes, o que se pode esperar de dignitários que são capazes de qualquer coisa, até mesmo utilizar o conceito da ameaça terrorista em um povo já doutrinado diariamente pela cultura do medo a “deixar o dedo no gatilho”, como bem mostrou Michael Moore em seu documentário “Tiros em Columbine”, como atroz desculpa para operar total controle social? Como prever o que será feito por aqueles que não possuem escrúpulos? É impressionante constatar que o material que era tido como ficção científica altamente engenhosa outrora, o Grande Irmão orwelliano, acabou se tornando uma preocupante realidade…

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7 – A Bruxa (The Witch: A New-England Folktale), de Robert Eggers

A mente, tão acostumada e programada para reagir aos impulsos imediatistas tolos dos jump scares, não consegue aceitar que está diante de um roteiro que está impondo suas próprias regras sensoriais. Analisando bem, o recurso do susto é o artifício menos inteligente, o bom horror aposta no poder da sugestão. O público quer respostas fáceis, algo que o diretor Robert Eggers não está interessado em oferecer. A intensa religiosidade da família codifica todos os estranhos acontecimentos, o desespero diante do desconhecido
faz com que eles ativem a suscetibilidade humana ao apedrejamento, alimentado pela culpa cristã e a consequencial punição, um fanatismo que nubla até mesmo os elos de amor familiar, cegando qualquer senso de lucidez, assim como nas perseguições dos inquisidores históricos. A utilização da cabra, símbolo pagão, reforça esse conceito. Conhecemos mais sobre os personagens através de suas atitudes quando confrontados por esses medos…

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8 – Mãe Só Há Uma, de Anna Muylaert

Muylaert encontrou no “caso Pedrinho”, o menino que foi roubado de uma maternidade em Brasília nos anos oitenta, a fonte para injetar um poderoso tratado sobre o conceito elástico de família. O filho pré-adolescente do casal é mostrado praticando judô, mas o roteiro salienta seu desconforto, seu desinteresse ao alongar sua pausa para água no meio do treino. Ao ser paquerado pela coleguinha de classe introvertida, ele se sente
constrangido, ele se afasta com medo do que os outros irão pensar dele, um ato de imaturidade compreensível pela pouca idade. Essa preocupação é o reflexo do comportamento repressor dos pais, adultos apavorados com a opinião dos outros, tão imaturos quanto o menino, como é mostrado na sequência em que Pierre revela preferir se vestir como mulher. O arco narrativo se encerra brilhantemente ao focar no menino e no irmão mais velho que descobriu ter, uma relação conturbada a princípio, mas que é abraçada pela ternura quando a rebeldia social de Pierre conquista o respeito de um garoto que nunca tinha conhecido força de resistência tão pacífica e gentil. É uma das cenas mais bonitas da história do cinema nacional…

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9 – Café Society, de Woody Allen

Em uma indústria cada vez mais escrava da grandiloquência, o baixinho de voz mansa segue entregando anualmente os textos mais inteligentes do mercado, com pouco orçamento e disciplinadamente encaixando a duração final por volta de noventa minutos, exercitando sua incrível capacidade de síntese narrativa. Ele abraça pela primeira vez a filmagem digital, mas continua marchando no ritmo de seus próprios tambores criativos, o roteiro toca em temas essenciais em sua filmografia, como a discussão existencialista sobre a morte, a ironia do amor não correspondido e a desconstrução ácida da melancolia
nostálgica, com a mesma vitalidade de seus primeiros trabalhos. Ao final, os dois apaixonados, em locais diferentes e estabelecidos em relações frágeis, olhares distantes e melancólicos, como que buscando a luz verde do farol do Gatsby literário, de Fitzgerald. E, ousado, Woody insinua no sorriso suave da mulher a possibilidade de que o amor verdadeiro ainda terá chance de superar a insegurança social. Poético desfecho para um dos melhores filmes em sua filmografia…

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10 – Coração de Cachorro (Heart of a Dog), de Laurie Anderson

O medo da morte é parte essencial de um processo importante e que não deve ser negado. O padrão dos veterinários, assim como o livro escolhido pela enfermeira, ao discursar um conteúdo memorizado sobre a possibilidade de acabar com o sofrimento do animal com apenas uma injeção, impede que o animal utilize o tempo necessário para reconhecer a finitude. O envelhecimento, essa aproximação natural da morte após a breve juventude,
possibilitou que a diretora enxergasse em suas recordações o momento exato em que se sentiu amada por sua mãe, algo que parecia ter sido bloqueado em sua mente. Laurie propõe em seu documentário, acima de tudo, um convite para que o espectador também
analise com carinho a efemeridade da vida, para que ele não perca precioso tempo em rituais que satisfaçam outrem, ou obedecendo a padrões desgastados. Crie seu próprio ritual, codifique sua linguagem única…

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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