“Casablanca”, de Michael Curtiz

Casablanca (1942)
Eu considero que, de todos os filmes da época de ouro de
Hollywood, “Casablanca” é o mais próximo de uma blowing session de
Jazz, onde o improviso na complicada elaboração do roteiro feito a várias mãos
foi o elemento que engrandeceu o resultado final em todos os aspectos. A peça
teatral que serviu de base mostrava uma infidelidade conjugal, a protagonista
tinha uma moral questionável, algo que não era possível de ser avalizado pela
censura da época. Os atores recebiam os textos do dia algumas horas antes das
filmagens. Com o ataque em Pearl Harbor, o interesse dos produtores pelo cinema
enquanto ferramenta de propaganda perdeu qualquer inibição inicial. A Warner
foi um estúdio pioneiro nesse aspecto, já combatia Hitler antes disso se tornar
padrão, com “Confissões de um Espião Nazista”, em 1939. A emocionante cena
emoldurada pela Marseillaise, alegórica guerra entre hinos que ocorre dentro do
Rick’s Café, foi inspirada por uma similar no filme “A Grande
Ilusão”, de Jean Renoir. Esse é o único momento em que o espectador
percebe algum sentimento orgânico na relação entre Ilsa (Ingrid Bergman) e seu
marido Victor (Paul Henreid), responsável por comandar o revide musical que
ousou mostrar para os alemães que eles não eram maioria naquele ambiente. A
admiração nos olhos dela, o orgulho na firmeza dos gestos dele, o patético desânimo
dos oficiais ao enxergarem as lágrimas daqueles que se recusam a permitir que o
silêncio os escravize ainda mais.
A obra de Michael Curtiz, produzida por Hal Wallis, consegue
transmitir uma opressiva aura de desesperança, os personagens se chocam
constantemente em uma espécie de limbo, o único local que os acolhe em tempo de
guerra. A frustração de Rick (Humphrey Bogart), abandonado pela única mulher
que verdadeiramente amou, fez com que ele desistisse de tudo. Como dono do bar,
mais velho e mais cínico, ele se refugia no trabalho repetitivo, com a ajuda do
amigo Sam (Dooley Wilson), pianista e conselheiro, o único resquício de seu
passado tranquilo que ele ousou manter. A decepção amorosa o tornou amargo,
alguém incapaz de se arriscar para ajudar outrem. Entre ladrões, policiais
corruptos e cafajestes de todos os tipos, ele caminha lentamente em direção ao
nada, com a consciência de que a decadência externa apenas reflete o que ele
sente internamente. Quando Ilsa visita o bar com o marido e reconhece Sam ao
piano, a câmera evidencia a expectativa em seus olhos, a empolgação que tenta
disfarçar. Ela pede que ele toque “As Time Goes By”, a canção que simboliza o
amor perdido. E Sam demonstra preocupação, ele sabe que o amigo vai sofrer
novamente. A beleza trágica na sequência é arrepiante, tão simples e ao mesmo
tempo tão poderosa. A chegada intempestiva de Rick, o sorriso que sua boca
esboça numa fração de segundos, toda a carga de alegria despreocupada que o
reencontro com aquele belíssimo rosto o trouxe, rapidamente substituído pela resignada
aceitação da humanidade abdicada por uma ilusória sensação de conforto.
É
interessante perceber como o roteiro insere poesia na execução do flashback
romântico, uma forma de estabelecer um contraste evidente entre as duas
situações. A projeção traseira que muda o cenário surrealmente no passeio de
carro, a chuva que molha o papel da carta de despedida, borrando as frases e
sugerindo as lágrimas vertidas por ela ao escrevê-las, ou a rima visual dos
braços que desastradamente provocam a queda de taças, unindo o êxtase dela no beijo
apaixonado do casal e a posterior tristeza ébria do abandonado. Rick não precisa dizer o que sente por Ilsa, ele até
facilita a fuga dela com o rival, o sacrifício representado pela icônica cena
final no aeroporto é a maior declaração de amor da história do cinema. O mundo
havia sido irremediavelmente modificado com a guerra, mas os dois conseguiram,
na condição de afogados desesperadamente buscando ar, resgatar uma réstia da
pureza que ambos desfrutaram outrora em Paris, nada mais importava. O amor
venceu o medo.

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