“Moonlight – Sob a Luz do Luar”, de Barry Jenkins

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    Moonlight – Sob a Luz do Luar (Moonlight – 2016)

    Acordar sabendo que a sociedade o rejeita de diversas
    formas, excluído por ser pobre e negro, agredido na escola por ser
    introvertido, internamente incapaz de compreender sua homossexualidade, obrigado
    a medir cada gesto, silenciar impulsos, sem poder contar com a estabilidade
    emocional de uma mãe (Naomie Harris) entregue ao vício em crack, esse é o
    cotidiano do pequeno Chiron. A sua única figura paterna, um traficante de
    drogas que o encontra arredio, fugindo do ataque de seus colegas, alguém que enxerga
    nos olhos da criança a pureza que outrora guiava suas ações, antes do mundo o
    bestializar. O homem, vivido impecavelmente por Mahershala Ali, tem consciência
    de que faz parte da engrenagem que está destruindo o garoto, a culpa o
    humaniza, evitando inteligentemente o estereótipo.

    Ambientado na década de oitenta, o primeiro ato do filme,
    roteirizado e dirigido por Barry Jenkins, adaptado de uma peça inédita de
    Tarell Alvin McCraney, explora a trepidante formação psicológica do
    protagonista, a resistência da gentileza natural perante a brutalidade excessiva
    do sistema em que ele está inserido. “Little” (pequeno), apelido genérico, evidência
    de sua irrelevância enquanto indivíduo, reflexo do desinteresse do outro em
    memorizar seu nome. Ao humilhar o filho no auge da dependência química, a
    câmera subjetiva no ponto de vista do menino nega o som da ofensa, apenas a
    reação dele importa, a mente não quer aceitar a realidade deprimente, a palavra
    utilizada só tem poder quando o receptor acusa sua existência. Nesse estágio
    inicial o leitmotiv é a recusa como estratégia de defesa.

    No segundo ato, intitulado “Chiron”, encontramos o
    protagonista atravessando o difícil período da adolescência, o momento em que
    todos tentamos firmar o caráter e vencer nossos medos, por conseguinte, ele não
    é definido mais por um apelido, o rapaz tenta encontrar uma forma de enfrentar
    os obstáculos sem abandonar totalmente sua essência. Os abusos na escola, local
    que deveria simbolizar proteção, acabaram se tornando mais intensos, a
    degradação física e mental da mãe alcança um nível insuportável, o universo
    conspirava para que ele fosse abatido irreversivelmente, porém, na areia da
    praia e sob a luz do luar, acompanhado de um amigo, ele reúne coragem para agir,
    a repressão de anos é finalmente subjugada. Como o interesse da obra não é
    provocar catarse emocional, o que a reduziria ao molde batido dos romances LGBT,
    Jenkins filma essa vitória pessoal às costas dos rapazes, ele não intenciona simploriamente
    rotular sentimentos nem estirar bandeiras. Chiron, encarando pela primeira vez os
    olhos de sua imagem no espelho, sofre uma terrível traição, uma atitude que
    quebra seu espírito.

    Quando o encontramos novamente no terceiro ato, vários anos
    depois, ele abraçou a couraça da mentira, esculpiu seu corpo e bloqueou sua
    mente, um novo homem que sobrevive no submundo do crime, “Black”, um personagem
    fictício nomeado a partir de um apelido dado na infância pelo seu antigo amigo.
    A sociedade bateu tão forte que acabou vencendo, ele já nem acusa a dor dos
    golpes, o silêncio alcança sua expressividade mais amargurada. A elegância com
    que o filme encaminha a história para seu desfecho é impressionante, sempre
    coerente no tom, salientando poeticamente o foco narrativo na difícil reconstrução
    psicológica do protagonista, vivido brilhantemente por Alex R. Hibbert (Little),
    Ashton Sanders (Chiron) e Trevante Rhodes (Black).

    “Moonlight: Sob a Luz do Luar” encanta sem apelar para
    qualquer clichê, mérito raro, creio que será o único filme dentre os indicados
    ao Oscar desse ano que continuará relevante artisticamente no futuro.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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