“Paterson”, de Jim Jarmusch

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    Paterson (2016)

    Não nos é dado conhecer muito sobre Paterson (Adam Driver)
    na semana em que acompanhamos sua rotina. Ele acorda pontualmente todas as
    manhãs sem necessidade de alarme, atravessa as ruas da cidade dirigindo o
    ônibus e, ao voltar para casa, passeia com seu cão e toma uma cerveja no bar. Paterson,
    a cidade, ele conhece de olhos fechados, nada muda, previsível mesmice, mas
    agradável aos seus olhos. A poesia em seu caderno de notas brota naturalmente,
    sem qualquer aspiração pretensiosa de estilo, a métrica de versos soltos risca
    a página como pura e vulnerável expressão da voz interna do rapaz. A rima,
    recurso que ele evita, acaba se fazendo presente enquanto simbologia visual, os
    gêmeos que aparecem em várias situações, ou, de forma mais lúdica, em frases
    surreais que se repetem à sua volta.

    A sua vida é a poesia, construída a partir de cada escolha,
    cada erro, cada conversa captada de um passageiro, cada atitude impulsiva, cada
    paisagem lindamente fotografada pela lente de Frederick Elmes, em suma,
    construída a partir de tudo aquilo que se perdeu, com o ato de escrever sendo a
    tentativa de Sísifo alcançar o topo da montanha, frustrado sempre pelo peso da
    pedra, o tempo. A musa mais frequente é sua esposa Laura (Golshifteh Farahani),
    altamente sensível e doce, alguém que inconscientemente busca uma forma de se
    comunicar com o mundo, marcar sua presença como indivíduo. Ela encara o
    cotidiano como uma tela branca, infinitas possibilidades trabalhadas nos
    afazeres mais simples. Ao pintar os móveis da casa, ela cria algo novo e único sobre
    os escombros da padronização. Ela pode não cozinhar tão bem, mas dedica tanto
    carinho na preparação de seus cupcakes, que, para orgulho do marido, os
    bolinhos se transformam em obras de arte. Ela tem o sonho de se tornar uma
    cantora country famosa, o que a faz comprar um violão, apesar de não saber
    tocar. A beleza do filme está em admirar o casal, como ponte sobre águas
    calmas, lutando para encontrar sua linguagem artística.

    No terceiro ato o protagonista encara a brutal irreversibilidade,
    elemento que, em um aprendizado tardio, percebe ser bênção criativa, ao invés
    de um obstáculo a ser temido. Águas calmas não formam bons marinheiros. O poeta
    precisa estar em constante processo de mutação. A arte do encontro, forma
    preciosa do roteiro conduzir a trama para seu desfecho, reverbera momentos
    anteriores, como o elogio dado ao estranho que ensaiava um rap na lavanderia,
    ou a compreensão da dor de um amigo de infância abandonado pela mulher amada, a
    celebração do esforço interno de cada indivíduo em enfrentar, com suas próprias
    ferramentas, a força da correnteza. É nesta cumplicidade que podemos enxergar
    as mais belas potencialidades humanas.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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