“Batman – O Retorno”, de Tim Burton

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    A safra atual de adaptações cinematográficas de quadrinhos satisfaz
    grande parte dos adultos infantilizados, com seus roteiros preguiçosos e
    inofensivos, sabotando a criatividade com a necessidade mercadológica de
    entregar tudo o que o público deseja, elaborando universos compartilhados, uma
    fórmula que, em longo prazo, deixará um rastro de tramas fracas e personagens
    tolos que, vistos sem o frisson do hype do lançamento, não sustentam sequer
    seus próprios arcos narrativos. Já o adulto emocionalmente maduro que,
    inteligentemente, mantém viva sua criança interna, paga o ingresso e suporta o
    desconforto dos óculos 3D na vã esperança de encontrar um mínimo de
    organicidade no produto. Todos os heróis com o mesmo coach de piadas bobinhas, musculosos
    barbados agindo como adolescentes na escola, vilões genéricos com motivações
    trabalhadas de forma pífia, tudo calculadamente pensado para não ofender
    ninguém, não irritar ninguém, tratando o espectador como criança mimada.

    Em 03 de Julho de 1992 estreava no Brasil uma adaptação de
    quadrinhos que ousava ser autoral. 25 anos depois, o fascínio por “Batman – O Retorno”
    só aumenta, uma bela carta de amor ao expressionismo alemão, que merece ser
    analisada com carinho.

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    Eu guardo a matéria do jornal sobre a estreia do filme, meses antes do meu aniversário de nove anos. Meu pai me presenteava na época com tudo relacionado ao homem-morcego, quadrinização oficial por Dennis O’Neil e Steve Erwin, cartucho do jogo para SNES, bonecos, revistas de cinema que estampavam nas capas o Michael Keaton e a Michelle Pfeiffer, em suma, combustível suficiente para a expectativa cinéfila. Mas eu não vi “Batman – O Retorno” no cinema, o meu primeiro contato com ele foi deitado na cama dos meus pais, no dia do meu aniversário, com o VHS reservado semanas antes na “RG Vídeo Locadora”. Este dia está marcado em minha lembrança. No meio da fita, tive que interromper a sessão noturna para receber a querida prima Carmen, que apareceu de surpresa para celebrar o dia trazendo um bolo de chocolate. Ao terminar a sessão na manhã seguinte, não sabia muito bem se havia gostado ou não, o tom era de estranheza. Anos depois, percebi que esta insatisfação inicial sintetizava o grande mérito do filme.

    Michael keaton4 - "Batman - O Retorno", de Tim Burton

    Batman – O Retorno (Batman Returns – 1992)

    Para a indústria, o projeto era apenas uma desculpa bonita
    para vender brinquedos e lanches felizes, as crianças eram o público-alvo, o
    protagonista atormentado dos quadrinhos deveria se transformar em um herói
    convencional, o filme anterior já era considerado sombrio demais, algo que os
    produtores estavam dispostos a aliviar. O nome de Tim Burton na marquise era
    garantia de lucro agressivo nas bilheterias, então ele colocou as cartas na
    mesa e disse que só aceitaria conduzir a sequência se tivesse total controle
    criativo. O risco era grande, o futuro mostrou que um diretor sem personalidade
    pode destruir uma franquia, então os produtores abraçaram a causa do rapaz.

    1231378546039128640x29829 - "Batman - O Retorno", de Tim Burton

    O roteiro inicia mostrando um bebê deformado sendo jogado
    pelos pais ricos no esgoto. O cenário natalino, usual no cinema como representante
    da esperança e de gestos nobres, utilizado como moldura para as artimanhas
    cruéis do populista empresário Max Shreck (Christopher Walken), pensado como
    crítica à Donald Trump, um homem que é capaz de, estando inserido em uma
    situação de perigo, deixar seu filho na mira do bandido e fugir como um rato. É
    o reflexo distorcido no espelho de Bruce Wayne, a mesma persona gananciosa, o
    tipo de pessoa que o herói teria se tornado, caso não tivesse vivido seu trauma.
    A secretária dele, Selina Kyle (Michelle Pfeiffer), alvo diário do machismo no
    trabalho, chega em sua casa decorada em tons de rosa e escuta uma mensagem
    gravada no telefone que defende a utilização de um perfume especial para atrair
    romanticamente o chefe. Após ser flagrada por Shreck lendo arquivos secretos,
    ela é jogada pela janela, mas, como em um conto de fadas, sobrevive da queda ao
    ser lambida pelos gatos de rua, renascendo como uma nova mulher. Ao entrar novamente
    em sua casa, faz questão de destruir todos os símbolos de feminilidade passiva
    antes de produzir seu traje de guerra, que reflete visualmente a fragilidade de
    sua psique, uma tragédia anunciada, ela se torna a Mulher-Gato.

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    A criança criada no esgoto por pinguins de um zoológico
    abandonado, cresceu e se tornou a antítese do Batman, o freak natural, filho
    rejeitado da riqueza, um indivíduo que deseja apenas ser respeitado. Shreck, o
    verdadeiro vilão da história, humano e vestindo roupas normais, aceita o
    desafio de reinserir o Pinguim (Danny DeVito) na sociedade, utilizando sua
    imagem em uma nefasta campanha política. E o Batman (Michael Keaton)? Ele é o
    personagem menos interessante na trama. A cena da morte do Pinguim é tratada
    com mais dignidade que todos os rompantes heroicos do vigilante. Batman não é
    divertido, ele é o órfão que abdica de sua vida adulta para cumprir sua missão.
    Ele termina o filme como uma figura deprimente, elemento captado com perfeição
    na melancólica trilha sonora de Danny Elfman, retornando com Alfred para a
    solidão de sua mansão, após levar lição de moral dos vilões, buscando consolo
    no gato de rua que resgata do frio noturno. Todas as crianças sentadas na sala
    escura querendo vibrar com a aventura prometida pelas peças de merchandising,
    mas o roteiro toma mais tempo desenvolvendo psicologicamente os vilões. Não há
    atitude artisticamente mais corajosa que desafiar seu público.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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