TOP – Os 50 filmes dirigidos por Woody Allen (para o site norte-americano “Taste of Cinema”)

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Como celebrar uma carreira tão longa, caracterizada pela pluralidade de talentos, desde sua origem como comediante de stand-up até um respeitado cineasta, quando o protagonista sempre esteve tão consciente da existência do véu de falsidade que veste elogios e prêmios?

O homem que, no início de sua carreira, ousou negar o abraço das expectativas de seu público, entregando o austero “Interiores”, quando todos esperavam outra comédia leve. O destemido que fez “Stardust Memories”, uma proposta temática arriscada que levou vários críticos a escreverem que seria seu último projeto. E, recentemente, demonstrando uma lucidez fascinante, ele desconstruiu o conceito de nostalgia que embeleza tudo o que toca, em “Meia Noite em Paris.”

Este artista corajoso que anualmente ignora a adulação dos produtores, recusando os holofotes do Oscar, preferindo tocar jazz com seus amigos. O rebelde elegante que, sem se interessar pela máquina mitificante da mídia, introvertido, anualmente dirige todos os grandes atores e atrizes, medalhões de várias gerações que aguardam ansiosamente a chance de receber suas instruções tímidas nos sets de filmagem. Woody se tornou uma marca de elegância, sendo disputado por nações que querem financiar suas obras, fazer com que seus pontos turísticos sirvam como moldura para seus personagens.

Impressionantes cinco décadas de rara constância qualitativa, um caminho pavimentado pelos sonhos do garoto de outrora, Allan Stewart Konigsberg, que a princípio pensou que poderia obter alguns trocados escrevendo artigos engraçados para os veículos da região.

Esta é uma lista completa de seus filmes como diretor, do menos inspirado até o melhor.

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50 – O Que Há, Tigresa? (What’s up, Tiger Lily? -1966)

Allen demonstra já em seu primeiro trabalho a sua tremenda ousadia, pegando uma sátira japonesa dos filmes de espionagem, em ascensão à época, graças ao James Bond de Sean Connery, e redublando. Logo nas primeiras cenas, vemos o diretor sentado em um respeitável escritório, explicando que ele havia sido convocado por Hollywood a fazer o filme de espionagem definitivo. Quando questionado sobre o ineditismo de tal façanha, a redublagem, ele responde que o mesmo já havia ocorrido outras vezes, como em “E o Vento Levou”. Bastam três minutos para o jovem cineasta mostrar seu talento. Hoje em dia é comum vermos esse artifício ser utilizado em programas de televisão, filmes, como o horrível “Kung-Pow – O Mestre da Kung-Fu-são”, e até sucessos do Youtube, como “Bátima – Feira da Fruta”, mas na década de sessenta ele foi o pioneiro dessa arte extremamente duvidosa.

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49 – Édipo Arrasado (segmento de “Contos de Nova York” – 1989)

Impulsionado pela leveza do formato de antologia, Woody exercita com grande frescor o seu talento cômico. E, sem dúvida, o seu média-metragem é o responsável por “Contos de Nova York” ainda ser lembrado hoje em dia. Os esforços de Coppola e Scorsese são, na melhor das hipóteses, inofensivos. Após uma total imersão nos dramas existencialistas de “Setembro” e “A Outra”, o diretor revisita seu lado mais divertido, misturando temas já trabalhados em textos e inserindo vislumbres de situações que ele viria a aperfeiçoar em suas produções dos anos 2000, como em “Scoop”, onde um truque de mágica é utilizado como gatilho narrativo.

É impagável a cena onde Allen, inicialmente perturbado com a mãe (Mae Questel, incrivelmente parecida com a mãe do diretor) sendo chamada para auxiliar no truque do mágico, não consegue esconder a alegria ao ver o profissional enfiando várias espadas na caixa onde ela foi colocada. A insatisfação dela com a noiva do filho, vivida por Mia Farrow, é o motivo sobrenatural que faz com que ela se mantenha como uma entidade nos céus de Nova York. Somente quando ele reencontra um amor antigo, a cartomante/clarividente vivida pela brilhante comediante Julie Kavner, a pobre mãe, demonstrando sua aprovação, retorna ao seu estado normal.

Sheldon não se interessa em compreender como o fenômeno ocorreu, ele está mais interessado em resolver sua relação com ela. O inexplicável, tema recorrente em seus filmes, novamente utilizado como um meio inquestionavelmente absurdo e tolo, porém, aceitável para alcançar um bem maior.

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48 – Dirigindo no Escuro (Hollywood Ending – 2002)

A ideia de um diretor de cinema que fica cego e precisa fingir que continuará trabalhando é engraçada em teoria, mas não se sustenta em um roteiro de longa-metragem. Poderia ter sido um curta brilhante, mas, ainda assim, é encantador.

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47 – Magia ao Luar (Magic in the Moonlight – 2014)

Algumas reflexões interessantes sobre o ceticismo, mas Allen já provou ser capaz de textos muito melhores no tema. Linda direção de arte, desempenhos competentes do elenco, mas cansativo e previsível.

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46 – Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (You Will Meet a Tall Dark Stranger – 2010)

A ironia amarga do final realista, toque brilhante, é o que resgata um chato roteiro que infelizmente não consegue fazer seus personagens parecerem interessantes.

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45 – Para Roma, Com Amor (To Rome, With Love – 2012)

A história sobre os noivos foi claramente inspirada em “O Sheik Branco”, de Fellini, o tom libertário soa bastante artificial, mas o filme ganha vigor quando Allen está em cena.

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44 – Sonhos Eróticos de Uma Noite de Verão (A Midsummer Night’s Sex Comedy – 1982)

O roteiro foi concebido em apenas duas semanas, encomendado pelo estúdio no intuito de tapar o buraco que seria causado pelo atraso na produção de “Zelig”. A pressa é facilmente perceptível no trabalho concluído (personagens pouco desenvolvidos, como o médico que é mostrado como uma pessoa centrada, mas que tenta se suicidar por não ter o amor de uma mulher que acaba de conhecer), ainda que ele possua algumas cenas muito boas, o seu conjunto é bastante irregular. O filme mais fraco de Woody até aquele momento. Buscando inspiração em seu ídolo Ingmar Bergman (especificamente em “Sorrisos de Uma Noite de Amor”, de 1955), o roteiro explora o jogo de flerte entre três casais que se reúnem em um idílico local, para celebrar o casamento de um deles. Foi o primeiro projeto que contou com Mia Farrow, numa longa parceria que renderia ótimos frutos artísticos e um problemão na justiça.

Dentre os pontos altos, destaco o rompante de libido de Adrian com o marido, após receber da espevitada Dulcy, algumas dicas de sexo (Allen: “Não podemos fazer sexo no lugar onde nos alimentamos, além do mais, tem um homem entoando o “Pai Nosso” na sala, iremos ficar cegos”). Simplificando sua opinião sobre a importância das relações sexuais, o personagem de Allen afirma: “Sexo alivia a tensão, enquanto o amor causa tensão”. Após o elegante Leopold contar sobre seu sonho erótico selvagem com Dulcy, ela assustada o questiona: “Jesus, o que você comeu antes de ir dormir?”. São pequenos momentos onde podemos perceber que, mesmo criando algo de forma apressada, Woody Allen consegue fazer um filme de qualidade.

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43 – O Homem Irracional (Irrational Man – 2015)

Pecando por alta pretensão filosófica, o roteiro fica perdido no segundo ato, mas a presença inspirada de Joaquin Phoenix ajuda a manter a esperança até o chocante desfecho.

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42 – O Sonho de Cassandra (Cassandra’s Dream – 2007)

Um final excelente em busca de um enredo que o honre. A escolha pelo estilo e ritmo dos thrillers contemporâneos destaca o desconforto com o material, mas a excelência da dupla Ewan McGregor e Colin Farrell compensa este problema.

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41 – Simplesmente Alice (Alice – 1990)

Alice (Mia Farrow) é uma mulher de classe média que se sente entediada pelo casamento de 16 anos e se apaixona por um elegante saxofonista. Em busca da felicidade, ela conhece o acupunturista Dr. Yang. O médico percebe que o problema de Alice está em sua mente e decide prescrever coisas estranhas e ervas misteriosas que provocam reações incomuns. O delirante e agridoce estilo que casou perfeitamente no maravilhoso “A Rosa Púrpura do Cairo” falha em encantar desta vez.

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40 – Don’t Drink The Water (1994)

No início dos anos 60, durante a Guerra Fria, a família Hollander causou um incidente internacional quando Walter (Allen) tirou fotos do pôr do sol em uma região de delicada situação política. Para não parar na prisão, os holandeses se refugiam na embaixada americana. Este filme feito para a televisão adapta uma de suas peças mais famosas, um de seus textos mais engraçados, envolvendo críticas políticas e religiosas.

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39 – Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo… (Everything You Always Wanted to Know About Sex… – 1972)

Similar ao que ocorreu com sua primeira obra “What´s Up, Tiger Lily?”, Allen não tinha em mente abordar esse conceito. A United Artists comprou os direitos do livro homônimo, escrito em 1969 pelo popular Dr. David Reuben, uma espécie de Dráuzio Varella da época, só que tarado. Woody ficou revoltado quando Reuben foi ao tradicional programa “Tonight Show” e citou uma das frases cômicas dele, sem dizer a fonte. O jovem cineasta então utilizou toda sua verve cômica e adaptou o livro da melhor forma possível, salientando os aspectos mais absurdos em uma comédia de esquetes.

Dentre seus sete segmentos, existem dois que considero obras-primas na carreira do diretor: “O que é sodomia?” e “O que acontece durante a ejaculação?”, expõem um roteirista em pleno desenvolvimento, buscando subjugar os limites e ultrapassá-los. No primeiro, Gene Wilder vive um médico que se apaixona por uma ovelha. O brilhantismo está no fato de Wilder atuar de forma séria, como se fosse um personagem saído dos romances de Ian McEwan. Já no segundo, Allen interpreta um espermatozoide que passa por uma crise existencial, poucos minutos antes de seu grande momento, enquanto Burt Reynolds e Tony Randall comandam o cérebro de um jovem que busca fazer sexo com sua parceira. Os outros segmentos são divertidos, mas pouco memoráveis.

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38 – Trapaceiros (Small Time Crooks – 2000)

O conceito é simples, como nas primeiras comédias de sua carreira, uma espécie de
presente para os fãs que sentiam falta de sua persona mais desajeitada.

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37 – Celebridades (Celebrity – 1998)

Crítica ácida sobre a falsidade do estilo de vida da alta sociedade, o absurdo de projetar na frágil indústria da fama a insegurança que o indivíduo sente, com o roteiro evocando as melhores obras de Fellini.

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36 – Todos Dizem Eu Te Amo (Everyone Says I Love You – 1996)

A tentativa musical é encantadora, com um breve e delicado momento em que o personagem de Allen cede ao poder inspirador da fantasia enquanto canta o amado clássico de jazz “I’m Thru With Love”.

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35 – Setembro (September – 1987)

Círculo reprimido de amor e ódio ameaça aparentemente amigáveis relacionamentos durante um fim de semana de um grupo de amigos em uma casa de campo. O filme que Allen refez do zero, com outro elenco, tinha tudo para ser puro caos, mas visto sem expectativas injustas, pode propor reflexões interessantes que ampliam o resultado. “Tudo é aleatório. Com origem aleatória em nada e eventualmente desaparecendo para sempre.”

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34 – Café Society (2016)

Quando soube que o mestre Vittorio Storaro iniciaria uma parceria como o diretor de fotografia de Woody, em uma trama ambientada na década de trinta, agradeci aos deuses do cinema por possibilitarem crepúsculo profissional tão belo para esse incansável artista.

Em uma indústria cada vez mais escrava da grandiloquência, o baixinho de voz mansa segue entregando anualmente os textos mais inteligentes do mercado, com pouco orçamento e disciplinadamente encaixando a duração final por volta de noventa minutos, exercitando sua incrível capacidade de síntese narrativa. Ele abraça pela primeira vez a filmagem digital, mas continua marchando no ritmo de seus próprios tambores criativos, o roteiro toca em temas essenciais em sua filmografia, como a discussão existencialista sobre a morte, a ironia do amor não correspondido e a desconstrução ácida da melancolia nostálgica, com a mesma vitalidade de seus primeiros trabalhos. Nesse contexto, a bonita homenagem que ele presta à cena mais famosa de sua carreira, a ponte Queensboro de Manhattan, ganha contornos ainda mais simbólicos. E até mesmo a narração em off, recurso desgastado e usualmente prejudicial, potencializa o investimento emocional do espectador sendo defendida pela voz simpática do diretor.

É hilária a forma como o roteiro expõe a prepotência dos membros da alta sociedade de Hollywood. Na cena da festa na casa do agente, um jornalista brinca com Bobby (Jesse Eisenberg), “amor não correspondido mata mais que tuberculose”, no que o jovem ri e ironicamente responde que acredita na afirmação. O jornalista então fica sem jeito e faz questão de deixar claro que era apenas uma piada, como se o rapaz não fosse inteligente o suficiente pra entender uma simples brincadeira. Eisenberg compreende perfeitamente o humor de Woody, equilibrando em seus maneirismos a insegurança e a coragem dos tolos. Ao optar pela utilização do soft focus ao emoldurar o rosto da personagem de Kristen Stewart, enxergamos sua beleza através dos olhos do rapaz que a idealiza como um sonho inalcançável, a secretária simplória que ele descobriu ser a personalidade mais gloriosamente genuína naquela terra de ilusão.

Assim como a sequência que mostra o tio judeu mudando de religião apenas para nutrir esperança em uma vida após a morte, o leitmotiv da teatralidade conveniente se faz presente na transição da jovem, de alguém que desprezava as atitudes das mulheres da alta sociedade, para uma legítima “esposa troféu”, mantendo um relacionamento vazio apenas pelo status que conquistou.

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33 – O Escorpião de Jade (The Curse of The Jade Scorpion – 2001)

Allen executa uma paródia adorável do gênero noir, ambientada nos anos 40, terrivelmente atacada por críticos da época, mas que, cuidadosamente analisada, mostra-se superior a quase todas as comédias lançadas pela indústria mensalmente, mesmo hoje em dia.

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32 – Scoop – O Grande Furo (Scoop – 2006)

A construção dos arcos dos personagens é ótima e o mágico interpretado pelo diretor, mesmo que não seja muito necessário no filme, acaba dando aquele tom encantador que melhora bastante nas revisões.

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31 – Neblina e Sombras (Shadows and Fog – 1991)

Allen, com um dos melhores elencos que ele já conseguiu reunir, presta uma honesta homenagem ao expressionismo alemão na história de uma desastrada burocrata que se junta à um grupo de homens perseguindo um assassino.

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30 – Melinda e Melinda (Melinda and Melinda – 2004)

A estrutura da história, utilizando dois pontos de vista, tragédia e comédia, poderia ser cansativa em mãos menos capazes, mas Allen injeta inegável frescor criativo no projeto.

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29 – Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works – 2009)

Um filme com o humor existencialista característico de Allen, com o genial Larry David criticando os dogmas da nossa sociedade. Ao público, resta apenas observar em choque como as teorias de vida e certezas dos personagens caem miseravelmente por terra.

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28 – Vicky Cristina Barcelona (2008)

Duas jovens, a conservadora Vicky (Rebecca Hall) e a aventureira Cristina (Scarlett Johansson), viajam para Barcelona para passar suas férias de verão e acabam se envolvendo em confusões amorosas com um artista extravagante e sua ex-esposa insana (Penélope Cruz). Algo no tom e ritmo de esse filme, mais do que qualquer elemento do roteiro, nos faz querer rever em breve, uma espécie de aura mágica que permeia o trabalho.

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27 – Bananas (1971)

O estilo de Woody Allen ainda estava se moldando, porém já se mostra perceptível nessa obra toda sua carga irônica corajosa, assim como a sua confiança autoral, que pode ser exemplificada pelas referências que são feitas, como a da escadaria de Odessa em “O Encouraçado Potemkin”.

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26 – Poderosa Afrodite (Mighty Aphrodite – 1995)

Allen usa um coro de teatro grego clássico de uma maneira muito inteligente, com a presença de F. Murray Abraham, para ajudar a contar elipses da narrativa enquanto satiriza o conteúdo trágico da história. Um casal adota um menino e o pai adotivo (Woody) decide saber quem é a mãe biológica de seu filho. Ele descobre que ela é uma prostituta, vivida por Mira Sorvino.

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25 – Blue Jasmine (2013)

Desde “Hannah e suas irmãs”, Woody não inventou uma personagem feminina com tanta paixão pelos detalhes, sem abraçar a caricatura sempre cômica de extremos. Allen conscientemente abdica de algumas de suas características narrativas, como sua devoção ao sentimentalismo, para construir diálogos mais ousados ​​que não poupam seus personagens em qualquer momento.

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24 – O Dorminhoco (Sleeper – 1973)

Miles Monroe dá entrada em um hospital para uma operação simples, mas acaba acordando duzentos anos depois, em um mundo inspirado nas obras de H.G. Wells, Ray Bradbury e George Orwell. O diretor chegou a conversar com o mestre da ficção científica Isaac Asimov, avaliando a forma de abordar esse distópico mundo do futuro.

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23 – Igual a Tudo na Vida (Anything Else – 2003)

No Jason Biggs, a opção ousada de Allen, encontramos a versão jovem do tipo que o cineasta defendeu durante a maior parte de sua carreira. O script constrói um emaranhado filosófico humorístico a partir de uma situação simplória que acontece em uma corrida de táxi.

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22 – A Era do Rádio (Radio Days – 1987)

No início da Segunda Guerra Mundial, em Nova York, uma simples família judaica tem seus sonhos inspirados nos programas de rádio da época. O filme mistura a visão nostálgica do narrador com a inocência de sua infância. O rádio, o fator de união da família, revelado por trás das ondas de som.

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21 – Roda Gigante (Wonder Wheel – 2017)

É revigorante ver um diretor tão prolífico criativamente buscar uma nova abordagem aos 83 anos de idade, sem perder sua identidade, exibindo total controle narrativo em sua elegante sintonia com o diretor de fotografia italiano Vittorio Storaro, que capta com precisão as cores vibrantes e antinaturais que remetem conscientemente ao Technicolor, emoldurando o cenário da Coney Island da década de cinquenta com a aura de terna e gloriosa melancolia dos melodramas clássicos de Douglas Sirk.

Se o estilo despojado de Allen é representado pela forma como o personagem de Justin Timberlake conversa com o público, não há outros pontos de fácil identificação, a trama não se parece com nada que o cineasta tenha realizado em sua longa carreira, algo que pode causar estranheza no primeiro contato. Boa parte da crítica norte-americana, intensamente preguiçosa, parece ter se incomodado com o fato de não conseguir desta vez reduzir o diretor ao estereótipo que eles criaram, cometendo o equívoco banal de apedrejar a obra por não satisfazer seus desejos, o clássico “não é o filme que eu queria, ou pensei que seria”.

A trama de “Roda Gigante” é depressiva, existencialmente apocalíptica, com ecos perturbadores autobiográficos que revelam o estado de espírito de Allen. A nostalgia do mundo de sua infância dá o tom, conforto necessário para enfrentar a crueldade do mundo adulto. Kate Winslet vive Ginny, uma mulher casada com experiência como atriz e que se apaixona pelo jovem Mickey (Timberlake), um salva-vidas que se dedica à literatura e ao teatro, que acaba se interessando também pela enteada dela, Carolina (Juno Temple), provocando na primeira um processo destrutivo e inconsequente que culmina no ato extremo de facilitar o assassinato da jovem. O rapaz afirma no início para o espectador: “Como poeta, eu uso símbolos e, como um dramaturgo em germinação, adoro melodrama e personagens maiores do que a vida.”

Voltando à realidade, Allen se apaixonou pela enteada de sua esposa Mia Farrow, Soon-Yi, que tinha 22 anos à época, relacionamento que segue forte ainda hoje, um caso que movimentou as manchetes sensacionalistas e que fez com que a mulher traída decidisse se vingar assassinando a reputação do ex-marido, inserindo na amarga equação acusações doentias e claramente mentirosas de abuso sexual infantil (não existe pedófilo de um caso só). Apesar de um dos filhos corajosamente se posicionar publicamente sobre o abuso psicológico da mãe no passado, defendendo que ela fez “lavagem cerebral” nos pequenos, boa parte do público (que sequer estudou a fundo o caso) ainda liga o nome do cineasta ao escândalo midiático.

Ginny percebe ao final que não há redenção para sua atitude, temos que ser responsáveis por tudo o que fazemos, não há vitória em sua vingança, o seu impulso somente trouxe mais dor. O jovem segue sua vida longe dela, o filho adolescente piromaníaco parece sentir cada vez mais prazer no calor das chamas, o marido (atuação inspirada de Jim Belushi) continua insensível, bêbado e bronco. O filme termina abraçando o patético rosto da mulher, banhada pela luz azulada que representa morte em vida, espécie de evolução do conceito trabalhado em “Blue Jasmine”, perdida em suas ilusões e destruída pela culpa que jamais irá revelar.

“Roda Gigante”, mais que um simples filme em sua carreira, é a elegante resposta de Allen no crepúsculo de sua vida.

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20 – Memórias (Stardust Memories – 1980)

No filme, Allen explora um dos aspectos consequenciais da fama, o arregimentar de um séquito de admiradores, alguns até fanáticos, que buscam no realizador uma satisfação de seus desejos pessoais.

O seu personagem procura um novo caminho, um desafio artístico, experimentando em gêneros diferentes, mas seu público o questiona debochadamente e o rejeita. Com certeza se trata de um desabafo do cineasta após a recepção fria do público com seu projeto dos sonhos: “Interiores”. Seus fãs são retratados pelos figurantes mais feios e caricatos já reunidos em um único projeto. Eles o abordam constantemente com argumentos absurdos, analisando suas obras fora de contexto e interpretando-as da forma mais equivocada (“o humorista é um símbolo para a homossexualidade”), interrompendo-o em situações rotineiras para pedir emprego para um parente ou jogando currículos em suas mãos.

Até mesmo seres do espaço descem de suas naves para afirmarem a ele que preferem seus filmes cômicos de início de carreira. E é nesse filme que Woody solta aquela que considero sua melhor frase: “Para você sou um ateu, mas, para Deus, sou uma leal oposição.”

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19 – Interiores (Interiors – 1978)

O sucesso comercial do filme anterior apenas firmou, mais ainda, na mente do diretor, o desejo de demonstrar ser capaz de emular seu ídolo: Ingmar Bergman.

Ele sempre subestimou o valor de suas próprias obras, comparando-as com os trabalhos que eram realizados por outros diretores mais engajados da época, sem perceber que a gargalhada é uma forma de critica mais contundente que a austeridade. O caso é que o filme lida com um tema muito forte, sem nunca apelar para o necessário subterfúgio do alívio cômico, tornando tudo muito reflexivo. Em sua ânsia por impor uma profundidade na estética, que seria mais bem equilibrada nos posteriores “Setembro” e “A Outra”, Allen anestesia o espectador. O tema é bem conduzido, bela analogia é feita entre a preocupação da mãe com a decoração de interiores e o ruir das estruturas familiares, mas não cumpre com eficiência plena o seu potencial.

O excelente diretor de fotografia Gordon Willis, elemento essencial na evolução de Allen como diretor, retoma a parceria iniciada no filme anterior, e que se estenderia até “A Rosa Púrpura do Cairo”, em 1985, garantindo longas tomadas sem cortes, potencializando os diálogos brilhantes de Allen.

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18 – Um Misterioso Assassinato em Manhattan (Manhattan Murder Mystery – 1993)

Como é fascinante perceber a química irresistível entre Woody Allen e Diane Keaton, uma das melhores parcerias do cinema. O humor que brota em cacos sutilmente inseridos entre diálogos, um constante jogo de cena entre dois artistas que deixam claro o amor e o respeito que sentem um pelo outro.

Após um longo hiato, simbolizado pela irregular era “Mia Farrow”, a dupla se reúne em uma trama que homenageia a fórmula dos clássicos thrillers detetivescos hollywoodianos. O diretor sempre quis abordar esse universo, então aproveitou um momento tenso em sua vida para relaxar na condução do projeto, merecidas férias. Essa atitude mais despretensiosa nas filmagens acaba se refletindo positivamente no resultado final, considerado por muitos como o filme mais engraçado dele na década.

Nas cenas mais tensas, colocando em prática os ensinamentos de Hitchcock, Allen faz questão de revelar para o público os perigos, deixando-o sempre à frente dos personagens, o que potencializa o suspense, equilibrado com o seu característico senso de humor, elemento que, em tom diferente, também se fazia presente nos filmes do mestre britânico. Gosto bastante da maneira como o roteiro insere a obsessão da esposa como o catalisador de uma bem-vinda renovação naquela relação bastante desgastada. A investigação atrapalhada conecta novamente o casal.

É interessante também como a trama, numa camada de interpretação menos aparente, coloca em conflito o conceito de arte socialmente tida como séria e respeitável, o marido não suporta escutar ópera, e a arte popular, o cinema, especificamente o de gênero, que ludicamente emoldura o desfecho, com a referência direta ao “A Dama de Shangai”, de Orson Welles.

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17 – Tiros na Broadway (Bullets Over Broadway – 1994)

Na década de 1920, um autor teatral (John Cusack) foi forçado a aceitar no elenco da peça uma jovem (Jennifer Tilly) sem talento, já que ela é a namorada do gângster que produz o show. E como se isso não bastasse, o guarda-costas (Chazz Palminteri) da jovem decide interferir o tempo todo no roteiro da peça. O roteiro é excelente, equilibrando perfeitamente a declaração de amor ao teatro e as críticas da falta de liberdade no processo de criação de uma obra de arte.

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16 – Maridos e Esposas (Husbands and Wives – 1992)

Gaby (Woody Allen) e Judy (Mia Farrow) ficam chocadas com a notícia de que Jack (Sydney Pollack) e Sally (Judy Davis), um casal muito próximo, estão se separando, provavelmente porque Gabe e Judy também estão se distanciando e agora percebem isso. Com um estilo de filmagem mais intimista, consistente com a abordagem íntima dos personagens, Allen oferece o brutalmente real retrato de um relacionamento que está afundando em sua ilusória percepção da vida.

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15 – Poucas e Boas (Sweet and Lowdown – 1999)

A homenagem de Allen ao Jazz, seu estilo de música favorito, não poderia ser mais apaixonado, favorecido por uma entrega espetacular e visceral de Sean Penn, e uma estrutura documental configurada pelo roteiro, com “testemunhos falsos”, edição semi-cortada, resultando em delicada beleza.

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14 – Um Assaltante Bem Trapalhão (Take The Money and Run – 1969)

Os dez primeiros minutos são geniais, pois ficamos conhecendo os primeiros passos do jovem no crime. Claro que antes ele tentou uma vida simples, como um violoncelista. O problema era acompanhar a bandinha da rua, com o seu instrumento em uma mão e, na outra, uma cadeira. Não havia jeito, pois a rota do crime parecia estar em seu destino.

Após pequenos furtos, acabou sendo preso pela primeira vez. Inspirado, tentou fugir utilizando uma barra de sabão e sua perícia artesã. Dias depois, com seu perfeito revólver de sabão pintado com graxa de sapato, ele se aventurou a cruzar os muros que o aprisionavam. Azarado, não percebeu a torrencial tempestade que castigava aquele local, fazendo com que, em poucos segundos, para a surpresa dos policiais, seu revólver virasse uma grande bola de espuma. Novamente atrás das grades, aceitou ser cobaia em um experimento com uma revolucionária vacina, pois aquilo iria atenuar sua pena. Ninguém imaginava efeito colateral tão absurdo: Virgil tornou-se um rabino, de longa barba, e pregou belos sermões para os oficiais.

Nesse seu primeiro projeto, Woody ainda demonstra estar estabelecendo seu estilo, com momentos geniais, como os já citados, e alguns irregulares. Toda a sua ironia está presente, porém, certas quebras de ritmo ainda deixam claro seu amadorismo técnico, que viria a ser lapidado em pouco tempo.

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13 – A Outra (Another Woman – 1988)

Para escrever seu novo livro, uma intelectual aluga um apartamento que tem um escritório de psicanálise como vizinho. Allen emula John Cassavetes, inclusive trabalhando com sua musa, Gena Rowlands, com alguns dos melhores diálogos já escritos em sua carreira. “E eu me perguntei se uma memória seria algo que você tem ou perdeu.”

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12 – Um Dia de Chuva em Nova York (A Rainy Day in New York – 2019)

A experiência de ver um filme do Woody Allen é sempre gratificante, mesmo quando ele não está muito inspirado, você é presenteado com uma visão autoral, sem concessões mercadológicas, intelectualmente segura.

Quando ele está inspirado, como é o caso em “Um Dia de Chuva em Nova York”, cada sequência é um cálido beijo no rosto de todos que valorizam cultura, boa música, boa literatura e, principalmente, bom cinema. A quantidade de referências desta vez é impressionante, e, colocar estas para serem defendidas por um elenco bem jovem em diálogos afiados, dá ainda mais gosto, apesar de soarem quase surreais, levando em conta o padrão atual desta nova geração, bastante abaixo da média.

O charme está na leveza com que ele trabalha as situações nesta desconstrução do formato clássico da comédia romântica. A chuva em Nova York, material romântico que já serviu fartamente à compositores e escritores, símbolo da paixão, desta feita, funciona como pano de fundo de um dia caótico para um jovem casal.

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11 – Desconstruindo Harry (Deconstructing Harry – 1997)

Allen extrapola o vínculo entre ficção e realidade, explorando a monotonia da vida em um dos filmes mais brilhantes de sua carreira. Ele atua como o escritor que cria um personagem cujo analista tenta mostrar como ele quer controlar o mundo através de uma visão sem foco de tantas ilusões, evitando ver a vida como ela realmente é.

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10 – Match Point (2005)

Chris Wilton (Jonathan Rhys-Meyers) é um jogador de tênis profissional que, cansado da rotina de viagens, decide abandonar o circuito e se dedicar a dar aulas do esporte em um clube de elite. É lá que conhece Tom Hewett (Matthew Goode), filho de família rica que logo se torna seu amigo devido a alguns interesses em comum. Convidado para ir à ópera, Chris lá conhece Chloe (Emily Mortimer), irmã de Tom. Logo os dois iniciam um relacionamento, para a alegria dos pais dela. Só que Chris fica abalado quando conhece Nola Rice (Scarlett Johansson), a bela namorada de Tom que não é bem aceita pela mãe dele.

Surpreendendo o mundo, Allen renovou sua arte com a coragem de um jovem que tenta firmar seu nome na indústria.

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9 – A Rosa Púrpura do Cairo (The Purple Rose of Cairo – 1985)

Inspirado pela comédia muda “Sherlock Jr.”, de Buster Keaton, Woody cria uma das unanimidades mais queridas de sua carreira, impossível não se encantar com a trama desse filme.

A trajetória da protagonista simboliza a importância da arte como força motriz para se resistir aos sofrimentos inerentes à condição humana, algo que o próprio diretor retrabalharia numa bela sequência de “Hannah e Suas Irmãs”, quando seu personagem encontra alento para sua angústia numa sessão dos Irmãos Marx. A garçonete vivida por Mia Farrow, fragilizada figura, não consegue se enxergar no reflexo do espelho, sem amor próprio, com sua autoconfiança destruída após anos de relacionamento com um típico machista grosseiro. Sem perspectiva alguma de melhoria em sua condição de vida, acompanhando a decrepitude de sua cidade devastada pela Grande Depressão, ela decide passar a maior parte do tempo livre dentro da sala de cinema, absorvendo toda a magia daquele ambiente. Em uma produção de aventura simplória, o protagonista não resiste ao ver a jovem na plateia e decide sair do filme, para conhecer melhor sua fã.

O conceito é simples, a fotografia do mestre Gordon Willis, em sua última parceria com Allen, evidencia a característica fabulesca da trama, reservando para o ambiente interno do cinema um brilho calorosamente etéreo, contrastando com os tons desbotados do mundo triste que a jovem encontra ao acender das luzes. É um toque de gênio iniciar e finalizar a obra com a clássica cena de “O Picolino”, Fred Astaire e Ginger Rogers dançando ao som de “Cheek to Cheek”, de Irving Berlin, um dos símbolos da época em que Hollywood produzia sonhos filmados, exatamente para elevar o espírito do povo norte-americano afundado na crise. O texto impecável de Woody, em um de seus momentos mais inspirados, como quando o galã se choca ao perceber que, após o beijo dado em Cecília, não será interrompido por um fade out.

Como nota final, sempre recomendo que esse filme seja visto em sessão dupla com outra obra-prima: “Contrastes Humanos”, de Preston Sturges, ambientado no mesmo período e que agrega à bonita mensagem proposta por “A Rosa Púrpura do Cairo”. Ao final, escolhendo ficar com a contraparte real de Tom, o ator que o interpreta, Cecília demonstra que amadureceu. E, numa reviravolta brilhante, o mundo real apresenta sua face brutal, o que a faz retornar ao escapismo da arte, mas agora consciente de sua função, com segurança para largar seu marido agressivo e reiniciar do zero sua jornada.

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8 – A Última Noite de Boris Grushenko (Love and Death – 1975)

O melhor filme dessa fase inicial de Woody Allen, que iniciaria, com seu próximo projeto, um período mais maduro, mas não menos engraçado. Nessa comédia ele explora os limites de sua zona de conforto, utilizando referências ousadas ao trabalho literário de Dostoiévski e Tolstói (vale lembrar que, em seus trabalhos anteriores, ele havia se amparado mais no pastelão e no humor popular), além de começar a demonstrar seu fascínio por seu ídolo Ingmar Bergman, notem a forma como ele filma, logo no início, um russo que fala diretamente à câmera, e seu filme favorito: “O Sétimo Selo”. A grandiosidade da produção impressiona e o diretor demonstra total confiança em sua técnica.

Diane Keaton novamente preenche a tela com seu carisma e beleza, vivendo a prima do protagonista. Apaixonado pela complexidade da jovem, que defende diálogos muito espirituosos em seu existencialismo, elemento novo na obra do diretor, que viria a se tornar um padrão, frustra-se ao perceber que ela não o vê com os mesmos olhos de arrebatador desejo. O roteiro parece querer demolir aquela austera seriedade que normalmente se faz presente ao discutir esses temas.

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7 – Crimes e Pecados (Crimes and Misdemeanors – 1989)

Um médico de Nova York (Martin Landau) tenta encobrir de sua esposa sua vida de traições desesperadamente. Um documentarista (o próprio Woody Allen) luta contra a tentação enquanto está produzindo seu novo filme. O diretor examina a alma humana com diálogos desconcertantes e forte inspiração em Dostoiévski, trabalhando em duas histórias de adultério. Anos depois, ele retornaria a um tema semelhante em “Match Point”.

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6 – Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall – 1977)

A obra mais popular do diretor, laureada com o principal Oscar da Academia, além de justos reconhecimentos à atuação de Diane Keaton e à direção de Allen. O ápice na fase inicial de sua carreira, que começaria no ano seguinte a tomar caminhos mais ousados, com o inseguro autor acreditando cada vez mais em sua capacidade, arriscando mostrar para o público que não era apenas um excelente comediante, mas também um pensador existencialista, seguindo os passos de seu grande ídolo: o sueco Ingmar Bergman. O estilo mais sóbrio já demonstra a mudança de atitude logo nos créditos iniciais, título em fonte Windsor branca, contrastando com o fundo preto, adotando o formato que viria a acompanhá-lo pelas décadas seguintes.

Depois de brincar com o futuro e o passado da sociedade, subvertendo como caricatura, Woody, pela primeira vez, se mostra como um personagem com o qual o público pode se identificar. Existe muito dele próprio no roteiro, tornando ainda mais interessante acompanhar seus relatos sobre sua infância, em especial a ótima sequência em que seus colegas de classe revelam o que se tornarão quando adultos, incutindo uma analogia simples e muito eficiente: a casa em que cresceu ao som das brigas dos pais, sob uma montanha-russa.

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5 – Meia Noite em Paris (Midnight in Paris – 2011)

Woody, demonstrando uma lucidez fascinante, desconstruindo a nostalgia que embeleza tudo o que toca, evocando elementos de ficção científica, com uma ternura encantadora que evoca “A Rosa Púrpura do Cairo”. Ao optar por fazer a jornada no tempo realizada pelo
protagonista representar a percepção de que o passado, por mais fascinante, não era
tão perfeito quanto ele idealizou, o roteiro destaca a importância do indivíduo buscar satisfação plena em sua própria realidade. Uma visão muito madura e emocionante de um cineasta que se recusa a abraçar o conformismo criativo.

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4 – Broadway Danny Rose (1984)

O roteiro encanta principalmente pela ternura com que Allen retrata os personagens. O protagonista nos é revelado através de um bate-papo descontraído, numa mesa de restaurante, entre comediantes, relembrando com carinho esse agente de talentos que verdadeiramente apostava em seus artistas, por mais simplórios que eles parecessem ser, de homens que moldavam cães com balões, passando por encantadores de pássaros, sapateadores pernetas, até mágicos amadores e malabaristas de um braço só. Ele valorizava mais o elemento humano, a possibilidade de, da noite para o dia, um desconhecido se tornar famoso por sua arte, superando suas limitações.

Danny Rose não acredita plenamente na qualidade dos números de seus agenciados, isso é o que menos importa, ele genuinamente criou um vínculo de amizade com eles. Ao vender seus trabalhos, ele enaltece o caráter e a bondade deles, uma espécie de carta de amor de Woody para o produtor que apostou financeiramente em seu trabalho, quando era apenas um tímido jovem comediante desconhecido: Jack Rollins. O próprio conceito de celebração da gentileza, em uma área tão contaminada pelo egocentrismo e pelo jogo sujo, já engrandece a temática do filme. E, claro, há o elemento do humor, em dose generosa.

Em um dos raros finais felizes nas obras do diretor, sem qualquer insinuação de ambiguidade, Allen eleva o protagonista a um patamar de lenda, um personagem mitológico que servirá de inspiração para os profissionais que virão.

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3 – Zelig (1983)

Em sua genialidade, Woody Allen estrutura esse filme como um documentário (repetindo o estilo de “Um Assaltante bem Trapalhão”) sobre Leonard Zelig, um (literalmente) camaleão social da década de vinte.

Sem nenhum esforço, ele é capaz de adotar características físicas e mentais de qualquer pessoa com quem se relacionar. Ao lado de franceses, ele conversa fluentemente em francês, com direito até ao clássico bigodinho fino. Mas o que realmente fascina no roteiro é a forma como o personagem se adapta socialmente, como quando discute jargões de medicina ao lado de doutores, com total conhecimento sobre a área.

A crítica é certeira, mostrando como as pessoas se moldam, até o caráter, no intuito de agradar e serem aceitas. E, claro, dignitários com os mais diversos interesses passam a utilizar suas palavras como alegoria para suas atividades. Zelig acaba se tornando na sociedade uma espécie de “Chance”, o jardineiro interpretado por Peter Sellers em “Muito Além do Jardim”. Mia Farrow vive uma doce doutora que acredita que o fenômeno seja psicológico, uma manifestação de alguém que não consegue se expressar, levando o roteiro a abordar também o machismo da época, mostrando a reação agressiva dos médicos a essa nova hipótese.

O processo de tratamento é tão eficiente, que ele passa a conseguir até discordar de outras opiniões, algo impensável em sua realidade de outrora. Quantas pessoas assim você conhece em sua vida?

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2 – Hannah e Suas Irmãs (Hannah and Her Sisters – 1986)

Inspirado em “Fanny e Alexander”, de seu ídolo Ingmar Bergman, Allen trabalha a evolução de um núcleo familiar através de três celebrações anuais, pela ótica do leitmotiv defendido em cena: “O coração é um músculo muito, muito elástico.”

Na cena mais bela do filme, ele captura aquela que considero a melhor explicação para a vida. O seu personagem acreditava estar prestes a morrer, entristecido também pela impossibilidade de sua esposa engravidar, sem paixão com relação ao futuro, então ele caminha pela cidade sem rumo por algumas horas, guiado apenas pela centelha de esperança que se recusa a ceder perante a doença fatal que acredita ter. Ele chegou a apontar o cano de um rifle para a própria cabeça, acreditando não haver motivação alguma em sua existência. Nada parecia fazer sentido, até que ele entra numa sala de cinema e, mesmo naufragando em um oceano de depressão, ele se surpreende sorrindo com uma comédia dos Irmãos Marx.

O personagem conclui que, mesmo a vida sendo um passeio numa montanha-russa de mais baixos que altos, aqueles breves momentos de conforto e alegria valem o preço do ingresso. E o elemento desconhecido inerente a todos nós, que o perseguia com tantos questionamentos, nunca seria plenamente revelado, independentemente do quão insistentemente perguntasse. Ele então relaxa na poltrona, com todos os seus conflitos internos sucumbindo ao peso daquele leve entretenimento, e se permitiu o prazer da diversão.

O ânimo adquirido naquela sessão motivou seu espírito a enfrentar mais um dia. E, um ano depois, envolvido em uma relação muito mais feliz com outra mulher, num ato inesperado do destino, ele se emociona por ter realizado o sonho de ser pai. Clássico Allen!

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1 – Manhattan (1979)

Um escritor de meia-idade divorciado (Woody Allen) se sente em uma situação constrangedora onde sua ex-mulher o largou para ficar com outra mulher e, além disso, está para publicar um livro, no qual revela assuntos muito particulares do relacionamento deles. Neste período ele está apaixonado por uma jovem de 17 anos (Mariel Hemingway), que corresponde a este amor. No entanto, ele sente-se atraído por uma pessoa mais madura, a amante do seu melhor amigo, que é casado.

O melhor trabalho de Woody como ator. Essa obra representa o fechamento do primeiro ciclo na carreira de Allen, após alcançar o molde perfeito com “Annie Hall” e se arriscar em seu primeiro drama, com “Interiores”. “Manhattan” é a junção perfeita de drama, romance e comédia, sendo o pioneiro no que muitos chamam de “Fórmula Woody”. Desde o início, ao som de “Rhapsody in Blue”, de Gershwin, emoldurando imagens da cidade, até o excelente diálogo final entre Woody e Mariel, onde ele descobre ser menos maduro que ela, encontramos um escritor confiante e em seu auge criativo.

A fotografia em preto e branco de Gordon Willis, que afirmou ter sido este o seu melhor filme, concede ainda mais elegância ao projeto, incluindo a icônica cena da conversa junto à ponte Queensboro e o uso das sombras na conversa no planetário. A forma como Mariel se porta, sua naturalidade ao confrontar-se com Diane Keaton, quando ela pergunta sobre a ocupação da jovem, que responde: “vou à escola”, e sua latente admiração pelo homem mais velho e de gosto refinado, fazem com que um tema complicado, a diferença de idade no casal, soe extremamente natural.

O texto é ótimo, coescrito por Marshall Brickman, repetindo a parceria de “O Dorminhoco” e “Annie Hall”, mas quem rouba o show é Mariel (e quando Meryl Streep está no mesmo elenco, isso é dizer muito).

* Lista preparada para o site norte-americano “Taste of Cinema” (atualizarei sempre que houver um filme novo). Link para a postagem original: http://www.tasteofcinema.com/2017/all-48-woody-allen-movies-ranked-from-worst-to-best/

Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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